Arturo Paoli, uma biografia

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04 Dezembro 2012

Arturo Paoli, a coragem de uma vida comprometida para estar ao lado dos mais fracos.

O texto foi publicado no sítio da Associação Oreundici. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Arturo Paoli nasceu em Lucca, na Via Santa Lucia, no dia 30 de novembro de 1912. Formou-se em Letras em Pisa em 1936, entrou no seminário no ano seguinte e foi ordenado sacerdote em junho de 1940.

Participou, entre 1943 e 1944, da Resistência e desenvolveu a sua missão sacerdotal em Lucca até 1949, quando foi chamado a Roma como vice-assistente da Juventude de Ação Católica, a pedido de Dom Montini, depois Papa Paulo VI. Aí se confrontou com os métodos e a ideologia de Luigi Gedda, presidente geral da Ação Católica e, no início de 1954, recebeu a ordem de deixar Roma para embarcar como capelão no navio argentino "Corrientes", destinado ao transporte dos emigrantes.

Arturo fez apenas duas viagens. No navio, encontrou um Pequeno Irmão da Fraternidade de Lima, Jean Saphores, que Arturo ajudaria à beira da morte. Depois desse encontro, decidiu entrar na congregação religiosa inspirada em Charles de Foucauld e viveu o período do noviciado em El Abiodh, à beira do deserto, na Argélia.

Depois, passou para Oran, onde, nos anos da luta de libertação argelina, desempenhou as funções de responsável de armazém em um depósito do porto. Em 1957, foi encarregado de fundar uma nova Fraternidade em Bindua, zona mineira da Sardenha, onde trabalhou manualmente: mas o seu retorno à Itália não foi bem visto pelas autoridades vaticanas.

Então, ele decidiu se transferir estavelmente para a América Latina e se mudou para a Argentina, em Fortín Olmos, entre os madeireiros – hacheros – que trabalhavam para companhia inglesa de madeira. Esse seria um dos períodos mais duros da experiência latino-americana. Quando a companhia decidiu abandonar a zona já empobrecida da preciosa madeira quebracho, Arturo organizou uma cooperativa para permitir que os madeireiros continuassem vivendo no lugar.

Em 1969, foi escolhido como superior regional da comunidade latino-americana dos Pequenos Irmãos, transferindo-se para perto de Buenos Aires. Aí viviam os noviços da Fraternidade, e começou-se a delinear uma teologia comprometida, prelúdio da adesão à teologia da libertação. Nesse período, publicou o seu segundo livro, Dialogo della liberazione.

Em 1971, nasceu um novo noviciado em Suriyaco, na diocese de La Rioja, uma zona semidesértica, muito pobre, para onde Arturo se transferiu e encontrou um bispo ao qual seria ligado por uma forte amizade, Enrique Angelelli, a voz mais profética da Igreja argentina nos tremendos anos da ditadura militar: um prelado que devia morrer tragicamente em 1976 em um estranho acidente de carro que hoje ninguém duvida qualificar como assassinato e sobre o qual ninguém desenvolveria investigações, apesar do expresso pedido de Paulo VI.

Com o retorno de Perón para a Argentina, o clima político se torna pesado, e Arturo é acusado de exercer um tráfico de armas com o Chile. Naquele momento, o Chile era governado por Allende, destituído no apocalíptico dia 11 de setembro de 1973 pelo golpe de Estado de Pinochet. Em 1974, apareceu nos muros de Santiago um manifesto com uma lista de pessoas a serem eliminadas por "qualquer um que as encontrar": o nome de Arturo está no segundo lugar.

Alguns Pequenos Irmãos são presos, e cinco deles figurariam entre os milhares de desaparecidos. Arturo, nesse momento, se encontra na Venezuela, como responsável pela área latino-americana da Ordem: advertido por amigos para não voltar para a Argentina por estar sendo procurado, volta para lá somente em 1985.

Assim iniciou a experiência venezuelana, primeiro em Monte Carmelo, depois na periferia de Caracas, continuando, ou, melhor, intensificando, a sua produção livreira: Il presente non basta a nessuno, Il grido della terra e muitos, muitos outros...

Em terras brasileiras

Com o afrouxamento da ditadura militar, Arturo intensifica as suas missões no Brasil, residindo a partir de 1983 em São Leopoldo e entrando em contato com a realidade das prostitutas, inúmeras no seu bairro.

Em 1987, transferiu-se, a pedido do bispo local, para Foz do Iguaçu: lá foi morar no bairro de Boa Esperança, onde constitui uma comunidade. Mas, lembra o frei Arturo, "a condição de extrema pobreza das pessoas do bairro me atormentava, e dessa angústia nasceu a ideia de criar a Associação Fraternidade e Aliança", uma entidade filantrópica, sem fins lucrativos, com projetos sociais voltados para o bem da comunidade.

Seguiram-se 13 anos de duro e intenso trabalho para dar dignidade a essa população marginalizada. Hoje, a AFA é uma bela realidade, a qual se somou no ano 2000 a Fundação Charles de Foucauld, voltada especificamente para os jovens do proletariado e do subproletariado de Boa Esperança. Juntas, as duas entidades levam adiante inúmeros miniprojetos que envolvem diretamente mais de 2.000 pessoas, entre adultos, adolescentes e crianças: ludoteca, ambulatório, atividades pós-escola (reagrupados no projeto chamado "Crianças desnutridas"), casa da mulher, cantina, coral, cursos de música, de informática, atividades esportivas... Projetos que visam à formação humana e que foram possíveis graças a ajuda de muitos, muitos amigos italianos que os financiam na sua quase totalidade.

Desde 2004, Arturo, com o padre Mario De Maio, presidente da Oreundici, lançou o projeto "Madre Terra": uma fazenda didática (da extensão de cerca de 40 hectares), também na periferia de Foz do Iguaçu, onde alguns jovens (provenientes das casas-família já acompanhadas e financiadas pela Oreundici), encontraram um posto de trabalho, uma "família ampliada", o espaço e a possibilidade de crescer e se encontrar também com os muitos amigos italianos que seguem esse projeto e cuidam da amizade entre esses dois povos, sob o olhar admirável e paterno de Arturo.

Hoje, o projeto "Madre Terra" permite aumentar essa amizade, com o vivificante e salutar contato com a beleza áspera e fascinante da natureza brasileira.

Reconhecimentos

Distante mas presente, o compromisso religioso e social no Sul do mundo não impediu que o frei Arturo vivesse apaixonadamente os acontecimentos italianos e de Lucca. Em agosto de 1995, escreveu no jornal La Repubblica depois de ter lido a correspondência entre Eugenio Scalfari, então diretor do jornal, e o escritor Pietro Citati. A Scalfari, ele escreveu uma carta que foi publicada com o título "Fé e Utopia do Reino de Deus".

"Chamou-me a atenção o fato de o senhor evidenciar o mercado como 'elevado a divindade', porque há anos denuncio a idolatria do mercado. Muitas vezes, isso foi jogado na minha cara como prova de ignorância das doutrinas econômicas. Estou ciente da minha ignorância, mas, olhando para a idolatria do mercado na perspectiva do Reino, só vejo milhões de pessoas esmagadas sob as rodas do mercado. Essa visão, para mim, é cotidiana quando, no amanhecer, abro a porta da minha casa e logo encontro nas vielas da favela as pessoas que gemem sob as rodas do mercado, e elas são a minha família..."

Em Lucca, em 1995, o prefeito Giulio Lazzaroni lhe entregou o Diploma de Partidário. Nessa ocasião, frei Arturo pronunciou estas palavras:

"... A Resistência não se encerrou no âmbito de 1945 e, se nós não sofremos fortemente por pertencer a uma família que fabrica as armas, que envia as minas que dilaceram os corpos das crianças, se nós não pensamos que o nosso bem-estar é pago por milhões de famintos, se nós não pensamos que enviamos navios carregados de armas para África, para a vizinha Iugoslávia etc... e se nós não sofremos na nossa carne por esse escândalo significa que a Resistência foi uma ação valorosa, generosa ou talvez até uma manifestação de coragem, mas não foi algo que aderiu profundamente à nossa alma, que se tornou lei da nossa vida (...) e para que essa celebração não seja retórica (...) talvez hoje, mais do que nunca, precisamos resistir."

Essa atitude o levou a rejeitar a medalha de ouro que anualmente a Câmara de Comércio confere aos habitantes de Lucca que honraram a cidade no mundo. A carta publicada despertou muitas polêmicas:

"Conheço pessoalmente alguns de vocês para não duvidar da sua nobilíssima intenção, mas permitam-me recusar um prêmio como missionário católico. Além do fato de saber que o único selo que posso colocar nos 40 anos de vida na América Latina é o que me é sugerido pelo Evangelho, "sou um servo inútil", atormentam-me uma outra consideração. Pertenço por nascimento e formação ao Ocidente que globalmente se diz cristão, desde as Montanhas Rochosas até os Urais, e é incontestável que esse mundo cristão que se define de Primeiro Mundo está no centro das injustiças que são a causa da fome de milhões de seres que o catecismo nos ensinou a chamar de irmão: eu volto para o Brasil e não posso voltar para lá ostentando no peito uma medalha que premia a minha atividade de 'missionário', representante de uma civilização cristã que despoja da terra seres humanos que nela vivem há séculos antes de Cristo. E essa espoliação dura desde 1492."

No dia 29 de novembro de 1999, em Brasília, o embaixador de Israel lhe entregou o mais alto reconhecimento atribuído a cidadãos não judeus: "Justo entre as nações", por ter salvo em 1944, em Lucca, a vida de Zvi Yacov Gerstel, então jovem judeu alemão, hoje entre os mais conhecidos estudiosos do Talmud, e sua esposa. O nome do frei Arturo, "salvador não só da vida de uma pessoa, mas também da dignidade da humanidade inteira", será gravado no Muro de Honra dos Justos, em Yad Vashem.

No dia 9 de fevereiro de 2000, em Florença, a Região da Toscana, por iniciativa do seu presidente, Vannino Chiti, na presença do cardeal de Florença, Silvano Piovanelli, e do rabino de Florenza, Yosef Levi, festejou o 60º aniversário do frei Arturo. Nessa circunstância, frei Arturo diria:

"Toda a nossa cultura é uma cultura de morte, o Ocidente cristão é o centro que organizou a guerra, a fome, a acumulação de riqueza nas mãos de poucos".

O cardeal Piovanelli, depois de ter lembrado que o padre Paoli foi um ponto de referência importante na sua formação religiosa, sublinharia:

"Sempre ficamos impressionados com as suas palavras, com os seus livros, mas sobretudo admiramos a coragem de uma vida comprometida para estar ao lado dos mais fracos."

No dia 25 de abril de 2006, o então presidente da República italiana, Carlo Azeglio Ciampi, conferiu-lhe a Medalha de Ouro ao Valor Civil. O alto reconhecimento, entregue a Arturo e a outros três sacerdotes de Lucca (Pe. Renzo Tambellini e os falecidos Pe. Guido Staderini e Pe. Sirio Niccolai), refere-se ao grande compromisso para salvar a vida dos perseguidos pelos nazifascistas, particularmente judeus, com a seguinte motivação:

"Ao longo do último conflito mundial, com louvável espírito cristão e preclara virtude cívica, ele colaborou com a construção de uma estrutura clandestina, que deu hospitalidade e assistência aos perseguidos políticos e àqueles que fugiram das blitzes nazifascistas da alta Toscana, conseguindo salvar cerca de 800 cidadãos judeus. Admirável exemplo de grande espírito de sacrifício e de solidariedade humana."

Hoje, Arturo, tendo voltado estavelmente para a Itália desde 2006, vive na Casa Beato Charles de Foucauld, em San Martino in Vignale, nas colinas de Lucca, onde acolhe as pessoas em um clima de amizade, fraternidade e hospitalidade, participa de congressos e encontros, publica novos livros, continua a costumeira colaboração com jornais e periódicos, incluindo os Cadernos Mensais da Oreundici.

No dia 3 dezembro de 2011, foi inaugurado o Fundo de Documentação Arturo Paoli, uma coleção de imagens, vídeos, testemunhos escritos da sua vida. O fundo tem sede na Fundação Banca del Monte di Lucca, na Praça San Martino, em Lucca. Mais informações, em italiano, aqui.

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