O fim de um pontificado de transição: de onde saiu e para onde nos leva?

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15 Fevereiro 2013

"Como uma espécie de herança destes breves 7 anos de pontificado, Bento XVI deixa por implementar o projeto de Nova Evangelização. A questão é saber se Nova Evangelização é um novo termo mais palatável para o mesmo projeto de Cristandade ou se é realmente algo “novo”, no sentido de uma Igreja à serviço do mundo na linha da Gaudim et  Spes", escreve Sérgio Ricardo Coutinho.

Sérgio Ricardo Coutinho é mestre (UnB) e doutorando (UFG) em História Social; professor de “História da Igreja” no Instituto São Boaventura e de “Formação Política e Econômica do Brasil” e de “Teoria Política” no Centro Universitário IESB, em Brasília; membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR) e presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (CEHILA-Brasil).

Eis o artigo.

A renúncia do papa Bento XVI acontece em meio às comemorações dos 50 anos do Concílio Vaticano II. Há cinquenta anos atrás também estava um “papa de transição” e que percebeu qual deveria ser a relação da Igreja com a sociedade, com o mundo, com a história.

Desde as primeiras intervenções, João XXIII reafirmava a sua intenção de que o Concílio estivesse em continuidade com o ensinamento da Igreja e que o apresentasse ao todos os homens, levando em conta, porém, os desvios, as exigências e as oportunidades do nosso tempo. Portanto, como disse Giuseppe Alberigo (1a), “não uma continuidade abstrata e atemporal, mas historicizada; com referência não só aos erros, mas também às novas instancias e possibilidades (...) uma continuidade que não fosse surda às mudanças da história, nem dominada pela categoria do erro”.

Assim, João XXIII acentuou, então, as modificações dinâmicas iniciadas na sociedade mundial e na atitude positiva da fé cristã e da Igreja diante disso. Por isso, ele rejeitava com grande veemência a posição de quem via “nos tempos modernos tão-só prevaricação e ruína”, e daí, um regresso em relação ao passado. Pelo contrário, declarou solenemente que tinha de discordar “desses profetas da desgraça”.

Quarenta anos depois do encerramento do Concílio, um de seus peritos chegava ao pontificado sob o nome de Bento XVI. A escolha do nome já carrega em si um projeto: a recristianização do Ocidente. Um “novo” Bento de Núrcia.

Diferentemente de João XXIII, seu pontificado de “transição” se manteve sim em continuidade com o ensinamento da Igreja, mas cometeu o mesmo equívoco de seu antecessor: uma continuidade surda aos “sinais dos tempos”.

Seu desafio maior continuou sendo o mesmo de João Paulo II: como restaurar autoridade moral e política da Igreja diante de um mundo cada vez mais globalizado e secularizado? A resposta continuou a mesma: não há verdadeira civilização nem autêntica convivência humana fora de uma sociedade onde a Igreja dite as regras e os valores do viver social. Ou seja, não pode haver uma sociedade globalizadamente cristã fora dos princípios da Cristandade.

A questão é que a secularização também penetrou fundo no interior da Igreja. Daí que seu pontificado foi quase que totalmente preocupado com as questões internas em vista das externas: a pedofilia no clero, o “vatileaks” e a luta por poder na Cúria Romana, os cismas explícitos (lefebvrianos) e implícitos (as “desobediências”), e o projeto de Nova Evangelização.

Um dos maiores desafios foi o de retomar a credibilidade interna e externa agindo de forma firme e enérgica diante dos milhares de casos de abusos sexuais por parte de padres e religiosos, tanto na Europa como nos Estados Unidos. Isto custou muito sofrimento não só às vítimas, mas também ao próprio papa (1).

Estes fatos o convencem de uma coisa: só se poderá restaurar a “civilização cristã” com um clero fortalecido na moral e na obediência. De certa forma, isto explica a busca de diálogo e de retornar à comunhão com a Fraternidade São Pio X fundada pelo bispo tradicionalista Monsenhor Marcel Lefebvre. Ali encontraria um clero com identidade católica acima de qualquer suspeita. Primeiro, dois gestos de amizade e simpatia: o levantamento da excomunhão de quatro bispos da Fraternidade e a publicação do Motu Proprio que autorizava e restaurava a missa em latim. O resultado: os lefebvrianos continuam mais cismáticos do que nunca e não aceitam de forma alguma os termos de retorno à luz da aceitação do Concílio Vaticano II. Uma derrota de sua diplomacia que ele não contava (2).

Outro passo nesta mesma direção: restaurar os Legionários de Cristo. Bento XVI, corajosamente, levou à cabo uma investigação, há muito interrompida, acerca do comportamento moral do fundador dos Legionários, o padre Marcial Maciel. Depois de sua morte, veio à tona ainda outros fatos mais impressionantes que deixaram o papa perplexo. Resultado: a nomeação de um interventor pontifício e a reforma das regras dos Legionários. Com o desejo de não perder as grandes bases econômicas deste Instituto, Bento XVI também queria dar continuidade a “fornada” de novos padres com forte identidade católica. Neste ponto, nos parece que sua ação teve sucesso (3).

Por outro lado, teve que ver fortes manifestações de “desobediência” por parte de padres e teólogos “esclarecidos” (4). Tanto na sua terra natal como nas vizinhas Áustria e Suíça os padres fizeram um “Apelo à Desobediência”. O programa era bem conhecido: celibato dos padres, ordenação de mulheres, valorização do laicato, formação de pequenas comunidades, inclusão de casais de segunda união e de homoafetivos entre outros. O movimento alcançou um número impressionante de assinaturas. Bento XVI encarregou seu cardeal, agora papável, Christian Schönborn para acompanhar o caso de mais perto e “apelando para a obediência” (5).

A maior desobediência talvez tenha vindo de dentro da própria Cúria Romana. Com o enfraquecimento e diminuição da importância política dos Legionários, outros dois grupos neointegristas avançam decididamente em busca do papado: o Opus Dei e o Comunhão e Libertação. O chamado “vatileaks” nada mais foi que a busca por informações privilegiadas em vista do xeque mate no jogo do próximo conclave, que já estava plenamente aberto na cara de Bento XVI (6).

O discurso do papa aos recém purpurados em fevereiro de 2012, dava bem o tom de seu sentimento de decepção: quis propor aos novos cardeais uma imagem da Igreja incomparável com as lutas de poder, os negócios, a busca da glória e do carreirismo. (7). Bento XVI não teve força política, ou pelo menos não quis exercê-lo, para uma reforma profunda na Cúria. O jeito que encontrou foi tentar torná-la mais universal e menos europeia. O breve consistório de novembro do ano passado incluiu nomes vindos de regiões onde o catolicismo é minoritário e perseguido, mas muito florescente. (8). Ao nosso ver, o “golpe” de Bento XVI contra Cúria teve dois atos: o primeiro foi este, o segundo foi a sua surpreendente renúncia.

Finalmente, como uma espécie de herança destes breves 7 anos de pontificado, Bento XVI deixa por implementar o projeto de Nova Evangelização. A questão é saber se Nova Evangelização é um novo termo mais palatável para o mesmo projeto de Cristandade ou se é realmente algo “novo”, no sentido de uma Igreja à serviço do mundo na linha da Gaudim et  Spes.

Em artigo nosso anterior, sobre as Proposições do Sínodo sobre a Nova Evangelização, encontramos ali alguma coisa sobre este projeto, ou melhor, sobre as relações entre Igreja e sociedade, entre Igreja e mundo, entre Igreja e história. Como a imensa maioria dos bispos e cardeais foram feitos, nestes últimos 35 anos, por João Paulo II e Bento XVI, precisaremos ficar atentos quando da alocução Urbi et Orbi do novo papa eleito, em fins de março próximo, pois ali estará explicitado seu “programa de governo” e pode muito bem ser este:

“Somos cristãos vivendo em um mundo secularizado. Considerando que o mundo é e continua sendo a criação de Deus, a secularização se insere na esfera da cultura humana. Como cristãos, não podemos ficar indiferentes ao processo de secularização. Estamos, de fato, em uma situação semelhante à dos primeiros cristãos e, como tal, devemos ver isso tanto como desafio e possibilidade. Vivemos neste mundo, mas não somos deste mundo (cf. Jo 15, 19;17, 11-16). O mundo é criação de Deus e manifesta seu amor. Em e através de Jesus Cristo, recebemos a salvação de Deus e somos capazes de discernir o progresso de sua criação. Jesus abre as portas para nós de novo, de modo que, sem medo, possamos abraçar amorosamente as feridas da Igreja e do mundo (cf. Bento XVI) (Prop. 8). (...) A mensagem de verdade e de beleza [do Evangelho] pode ajudar as pessoas a fugir da solidão e da falta de sentido onde muitas vezes estão relegadas nas condições da sociedade pós-moderna. Portanto, os crentes devem se esforçar para mostrar ao mundo o esplendor de uma humanidade baseada no mistério de Cristo. (Prop. 13) (...) Em um mundo que está cindido por guerras e violência, um mundo ferido por um individualismo muito difundido, que separa os seres humanos entre si, e coloca um contra o outro, a Igreja deve desempenhar o seu ministério de reconciliação de maneira calma e firme. (...) a Igreja tem que fazer um esforço para derrubar os muros que separam os seres humanos. (...) ela tem que pregar a novidade do Evangelho salvífico de Nosso Senhor, que veio para nos libertar de nossos pecados e para nos convidar a construir a paz, harmonia e justiça entre os povos”. (Prop. 14)

Notas do Autor:

1.- Pedofilia: como Bento XVI se diferenciou de João Paulo II

1a.- ALBERIGO, Giuseppe. A Igreja na História. SP: Paulinas, 1999, p. 293

2.- Lefebvrianos: a derrota de Ratzinger

3.- A difícil refundação dos Legionários de Cristo: entre os escândalos e os costumes

4.- "Igreja 2011: uma virada necessária" – Manifesto dos teólogos alemães, suíços e austríacos

5.- Papa teme um cisma progressista na Igreja

6.- O Vatileaks e as ''guerras vaticanas''

7.- Papa convida a Igreja a um banho de humildade

8.- Consistório: o ''golpe'' de Bento XVI

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