Papa teme um cisma progressista na Igreja

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16 Fevereiro 2012

Oprimido pelas lutas na cúpula do Vaticano entre cardeais e altos prelados, sempre conservadores, que desmerecem seu prestígio com documentos vazados para a imprensa e que intensificam as murmurationes de que poderia renunciar em um futuro não muito distante, o Papa Bento XVI, de quase 85 anos, acrescenta outro motivo de profunda preocupação poucos dias antes do Consistório em que criará 22 novos cardeais.

A reportagem é de Julio Algañaraz, publicada no jornal Clarín, 15-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Está se expandindo o movimento do Apelo à desobediência, nascido na Áustria e agora com importantes ramificações na Irlanda, Alemanha, França e Eslováquia. Não faltam simpatizantes na América Latina, EUA e Austrália. O papa teme o primeiro cisma progressista, apoiado por centenas de padres e um grupo de bispos. "Não tememos excomunhões nem queremos um cisma, mas sim que a Igreja nos escute e dialogue", explica o já popular "Lutero austríaco", padre Helmut Schüller, de 59 anos, líder da Iniciativa dos Párocos, que conta com o apoio de 400 sacerdotes na Áustria.

As pesquisas mostram que a maioria dos 4.000 padres austríacos, um país com profundas tradições católicas tradicionalistas, que vive um processo de vertiginoso triunfo do secularismo e de distanciamento dos fiéis de uma Igreja que consideram ancorada no passado, simpatizam com o movimento que nasceu em junho passado com o Apelo à desobediência, assinado por 329 sacerdotes. Diz-se que mil sacerdotes vivem com uma mulher e até secretamente casados.

O Pe. Schüller foi afastado como pároco de St. Stephen, em Probstdor, subúrbio de Viena, onde era presidente da Cáritas austríaca e estreito colaborador do cardeal Christian Schönborn, um progressista a favor do celibato voluntário e que foi um dos pupilos favoritos do Papa Joseph Ratzinger. O cardeal Schönborn naturalmente é contra a Iniciativa dos Párocos, mas até agora resistiu às pressões de dentro da Igreja local e das congregações vaticanas, para que comece a dar o castigo que os rebeldes merecem, porque "as sanções seriam contraproducentes".

Os "desobedientes", equivalentes na versão de batina dos "indignados", exigem o fim do celibato obrigatório, a permissão da comunhão aos divorciados em segunda união, a imposição do sacerdócio feminino, um papel mais importante aos fiéis leigos na Eucaristia, permitindo-lhes pregar e administrar os sacramentos sem uma missa quando não há sacerdotes, além de ordenar os viri probati, fiéis casados e com filhos de provada fé que possam se tornar sacerdotes sem renunciar às suas famílias. E o respeito pelos homossexuais, abençoando suas uniões.

Heresia pura, se escandalizam no Vaticano. No dia 23 do mês passado, os principais bispos austríacos foram convocados a Roma para falar sobre o tema com as autoridades da Cúria Romana, o governo central da Igreja.

O pontífice é muito sensível a um protesto que nasceu do seu próprio mundo germânico e que se estende a outros países e regiões do mundo. Dizem que na Irlanda, comovida pelos escândalos de pedofilia por parte do clero e pelo choque aberto entre o papa e o governo de Dublin, são 600 os sacerdotes que aderem ao Apelo à desobediência.

O cardeal Schönborn voltou a evocar o perigo de um cisma. O Lutero austríaco responde que "nós queremos ficar dentro da Igreja, e a Conferência Episcopal deve abrir um diálogo teológico estruturado" com o movimento rebelde, o que equivaleria a uma legitimação institucional. Ao contrário, os conservadores, numerosos na Áustria e hegemônicos no Vaticano, exigem "medidas canônicas punitivas".

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