O Vaticano das lavadeiras

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15 Fevereiro 2012

Que o Vaticano é (também) um vilarejo de lavadeiras já se sabia há muito tempo. A fofoca, nos sagrados palácios, é pão de cada dia, um grande jogo em que muitos jogam, com múltiplos objetivos. Mundo pequeno e fechado, o pequeno estado do papa também é um concentrado de poderes e de interesses: uma mistura explosiva.

A reportagem é de Aldo Maria Valli, publicada no jornal Europa, 14-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Além disso, é uma monarquia absoluta, o que impede que o debate interno encontre desafogo através das vias institucionais. Assim que o soberano, por idade, por condições de saúde ou por ambas as circunstâncias se encaminha para a fase final do reino, ou naquela que a maioria considera como tal, o vilarejo entra em agitação, as lavadeiras dão o pior de si, e o grande jogo se torna mais duro. Alguns expoentes do pequeno mundo, por razões diversas, começam a defender posições, a tentar escaladas, a tentar ganhar terreno.

A alguns, o poder desperta a gula; a outros, o dinheiro; a muitos, um e outro. Depois, há os lobbies, os grupos de pressão, as amizades e as inimizades. Às vezes, a linha que separa um vencedor de um perdedor é muito sutil. A Cúria Vaticana é uma corte, e, nas cortes, basta pouco para que os equilíbrios sejam postos em discussão. Basta uma palavra descuidada, um comentário fora de lugar, uma reverência pouco convicta ou exagerada, e eis que nos encontramos no centro de boatos, de insinuações, de malícias ou de verdadeiras calúnias. Uma bola de neve, assim, pode rapidamente se tornar uma avalanche. A língua bate onde o dente dói. Por isso, o campo de jogo muitas vezes é o econômico ou o sexual. E, mesmo sob esse aspecto, nada de novo a assinalar.

Os elementos verdadeiramente novos, que surgem dos últimos episódios, são dois: a marcante propensão das lavadeiras a jogar as roupas sujas como comida para os meios de comunicação, e o nível baixo, baixíssimo, denunciado pelos jogadores. Uma vez, as lavadeiras chegavam a se esgoelar, exatamente como agora, pelos mais diversos motivos, mas tudo permanecia dentro dos sagrados muros.

Agora, ao contrário, na época da informação, alguns dos jogadores tomaram gosto por derramar os seus venenos no grande funil dos meios de comunicação. Dessa forma, pensam algumas lavadeiras, o poder dos projéteis se multiplica. Uma insinuação ou uma calúnia, enquanto permanecem dentro dos muros, têm uma certa força: se saírem, adquirem muito mais incisividade. E assim os jornalistas estão cada vez mais envolvidos no grande jogo, com a função de megafones.

As lavadeiras parecem ainda não se dar conta do efeito de habituação e da distração do público. Se uma carta anônima faz notícia, uma segunda carta anônima passa quase despercebida, e uma terceira provoca apenas tédio. O mesmo vale para os complôs e conspirações vários, embora com a marca do Vaticano. Acerca do baixo nível dos jogadores, basta passar em revista os últimos acontecimentos (pelo menos do caso Boffo em diante) para verificar que o material humano é realmente decepcionante. Há maneiras e maneiras para ordenar tramas e arquitetar complôs.

Nas palavras de Sciascia, mesmo no campo das maquinações há uomini, mezzi uomini, ominicchi e quaquaraquà [homens, meio homens, homenzinhos e falastrões]. Pode ser um Borgia ou um Castrillón Hoyos. E se uma velha raposa como o cardeal Re apelidou este último de Pasticcion Hoyos deve haver um motivo.

Há séculos, o Vaticano traz consigo a fama (mais ou menos merecida) de lugar propenso à conspiração. Mas se uma vez, dizendo "conspiração", se pensava em algo grande e refinado, agora se pensa, mais do que qualquer outra coisa, em rixas de comadres excêntricas.

Sic transit gloria mundi, se deveria dizer, admitindo-se que possa haver algo de glorioso no escândalo. Resta entender como está vivendo tudo isso um homem inteligente, e ótimo conhecedor da Cúria, como Joseph Ratzinger.

Foi ele, quando era cardeal, que falou de reforma, comparando-a a uma obra de ablatio (ele disse isso em latim, porque uma vez os homens da Igreja ainda o falavam), ou seja, de eliminação de todas as coisas e pessoas inúteis. Foi ainda ele que usou uma palavra inequívoca, "sujeira", para retratar certas degenerações dentro da Igreja, e também foi ele que alertou mais de uma vez contra o carreirismo dos eclesiásticos. Portanto, os problemas, ele os conhece bem e não poderia ser diferente, dadas as décadas transcorridas na sala dos botões de controle.

Porém, justamente o pontificado do fino teólogo Ratzinger corre o risco de se encerrar em meio ao cacarejo das lavadeiras cada vez mais indecentes e às disputas de quintal de eminências e ilustríssimos que não mereceriam gerir nem mesmo a mais ínfima das ordens religiosas.

Triste destino para ele e triste situação para a hierarquia católica. Até porque as vozes corajosas e límpidas, dotadas de profecia (olhar longe) e de parrésia (liberdade para dizer tudo) parecem ter desaparecido.

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