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''Há um estilo de trabalho maldoso na Cúria''. Entrevista com Walter Kasper

A história dos "venenos" vaticanos cai em uma semana importante de encontros e reuniões cardinalícias. E o clima não é dos melhores depois da "nota" anônima publicada pelo jornal Il Fatto Quotidiano, na qual se previa um complô contra o papa que "teria apenas mais 12 meses de vida". "Divagações", segundo a Santa Sé.

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 13-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas o fato é que o texto, entregue à Secretaria de Estado pelo cardeal Darío Castrillón Hoyos, vazou ao exterior. Tanto que a Gendarmeria Vaticana, chefiada pelo comandante Domenico Giani, investiga para encontrar a "toupeira" ou as "toupeiras".

Enquanto isso, na próxima sexta-feira, 17 de fevereiro, o Colégio Cardinalício se reunirá às vésperas do consistório de sábado, quando o papa criará 22 novos cardeais. Antes ainda, na quinta-feira, na embaixada da Itália junto à Santa Sé, serão festejados os Pactos Lateranenses, com um encontro entre a cúpula dos dois Estados. E para esta terça-feira, 14 de fevereiro, está prevista uma reunião do Conselho dos Cardeais para o estudo dosa problemas organizativos e econômicos.

"Desagrada-me pelo Santo Padre. Desagrada-me muito. Ele deve estar muito triste ao ver como tentam destruir o que ele construiu". O cardeal Walter Kasper (foto), 78 anos, durante dez anos à frente do Pontifício Conselho para as relações com as outras confissões cristãs e com os judeus, é um dos maiores teólogos vivos. Um dos poucos que Bento XVI citou diretamente em seu Jesus de Nazaré.

Ele e Ratzinger se conhecem há mais de 40 anos, também tiveram posições teológicas diferentes, mas estão unidos pela estima recíproca. Neste ano, foi publicado na Itália La Chiesa cattolica. Essenza. Realtà. Missione [A Igreja Católica. Essência. Realidade. Missão] (Ed. Queriniana), obra na qual o cardeal Kasper reflete sobre o futuro da Igreja: "Um novo começo é possível apenas se, de modo semelhante ao que aconteceu com o movimento que levou ao Vaticano II, três coisas concorram: uma renovação espiritual alimentada pelas fontes, uma sólida reflexão teológica e uma mentalidade eclesial". Especialmente esta última parece estar faltando com os contínuos vazamentos de notícias dirigidas, por último a nota anônima sobre o "complô" inexistente contra o papa. "Eu as achei repugnantes", suspira.

Eis a entrevista.

O que está acontecendo, eminência?

Veja, eu não sei se são disputas de poder ou outra coisa, e não me interesso por isso. Não está muito claro o que propõem. Talvez se queira prejudicar o secretário de Estado, atingir outras pessoas também. Certamente, o que está em jogo é a imagem de toda a Igreja. Mesmo que a nota anônima que foi entregue à imprensa esteja fora da realista, que seja ridícula: todo mundo é consciente disso, é a evidência.

Exatamente: além do conteúdo, o problema é que, dentro do Vaticano, há alguém que faz filtrar essas coisas para o exterior...

Eu não sei nem nunca soube muito sobre os assuntos internos do Vaticano. Nunca quis saber sobre esses lobbies, não me interessam, sou um estrangeiro na Cúria! E eu tentei fazer o meu trabalho. Por isso, sei como o papa se entristece com essas coisas.

Ratzinger passou 30 anos na Cúria Romana. Não deve estar surpreso, não?

O papa nunca entrou nesses subterrâneos. Desde quando era cardeal e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger sempre pensou em fazer o seu trabalho, em prestar o seu serviço à Igreja. Jamais se inseriu nessas disputas internas. Questão de dignidade.

O que não funciona?

É um problema de falta de eclesialidade. Quem se presta a essas coisas não tem o sentido de Igreja, de lealdade à Igreja e ao próprio Vaticano. Não, não se fazem essas coisas. Como cristão e como pessoa, penso que devemos pedir justiça, se considerarmos que sofremos um equívoco. Mas não assim. Há um estilo maldoso.

Um estilo maldoso?

Sim, esse episódio também mostra um clima de burocracia interna, um estilo de trabalho que não vai bem. Não em todos, claro. Muitos trabalham pela Igreja. Mas quem faz essas coisas é um irresponsável.

Mas qual é o estilo correto?

Se alguém quer criticar o secretário de Estado ou outra pessoa, pode fazê-lo, se tem argumentos. Fale claramente, apresente as suas objeções ao interessado direto, diga ao papa. Mas não assim, não com essas coisas anônimas que não têm credibilidade e se desqualificam por si sós. Quem tem algo a dizer deve se apresentar com o seu rosto e o seu senso de responsabilidade.

Foi um cardeal, Darío Castrillón Hoyos, que entregou ao secretário de Estado a nota anônima.

Mas isso também pode ser feito. Certamente, a nota está fora da realidade, o conteúdo é risível. Mas há pessoas que têm a responsabilidade de avaliar. Se eu recebo um sinal, informar o secretário de Estado é uma obrigação. Mas há alguém que deu o documento aos jornais; esse é o ponto. Estou muito decepcionado com esses vazamentos de notícias, dos documentos reservados às nomeações que aparecem nos jornais antes que sejam oficiais.

Quais são as consequências?

Eu sempre continuei me encontrando com as pessoas, sempre falei com o povo. Sobre esses episódios, os fiéis ficam escandalizados, e com razão. Quem faz essas coisas provoca confusão entre o povo cristão. O que está em jogo é a imagem da Igreja. E isso justamente enquanto há um pontífice que trabalha pela renovação da Igreja: ele, quando viu abusos, quis pôr ordem.

O que se pode fazer agora, eminência?

Veja, eu saberia o que dizer ao Santo Padre. Posso dizê-lo ao próprio papa, ou escrever-lhe uma carta. Depois, ele avaliará e fará ou não, como quiser. Mas certamente nunca o diria na TV ou nos jornais.

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