Abade alemão define como dramática a situação atual da Igreja

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19 Novembro 2012

A publicação mais recente do abade beneditino de Einsiedeln, Martin Werlen, 50 anos, traz o inofensivo título "Descobrir juntos a brasa debaixo das cinzas" (em alemão: Miteinander di Glut unter der Asche entdecken). Mas a sua "provocação" para o Ano da Fé 2012-2013 se centra sobre os problemas que, muitas vezes, na Igreja Católica, são varridos para debaixo do tapete. O fato de o abade Werlen falar muito claramente deveria causar um certo celeuma em uma polarizada Conferência dos Bispos da Suíça.

A reportagem é de Josef Bossart, publicada no sítio Tagsatzung.ch, 09-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Eu vejo na Igreja de hoje tantas cinzas debaixo das brasas que muitas vezes me assalta um sentimento de impotência", declarava em sua última entrevista o cardeal de Milão, recentemente falecido, Carlo Maria Martini.

Martin Werlen citou essas palavras em uma palestra proferida no dia 21 de outubro, por ocasião da abertura do Ano
da Fé na igreja da abadia beneditina de Einsiedeln. O texto, que causou alvoroço nos últimos dias, foi revisto e publicado em forma de livreto. Trata-se de um documento de trabalho, que deve ser discutido e talvez criticado, como diz o breve texto de apresentação. "Esperamos que estas palavras encorajem as pessoas envolvidas na Igreja, para além de toda tentação de desespero, a buscar juntas as brasas debaixo das cinzas, para que o fogo volte a arder".

Punhados de cinzas frias

Martin Werlen considera a sua reflexão absolutamente como uma "pro-vocação". Nessa palavra, estão contidos os termos "vocação", que significa "chamado, convite", e o prefixo "pro-", que diz claramente que esse chamado é um desafio e um estímulo "positivos".

Werlen percebe inúmeros punhados de cinzas frias na Igreja de hoje. O seu diagnóstico é impetuoso: a situação da Igreja, 50 anos depois da abertura do Concílio Vaticano II (1962-1965), é dramática, e não só nos países de língua alemã. Não se trata apenas do agravamento da situação de falta de padres e religiosos, nem se trata apenas do constante declínio da frequência às igrejas... O verdadeiro problema, segundo Werlen, está além disso: "Falta fogo!".

Cerca de 20% da população suíça não pertence a nenhuma comunidade de fé, e essa tendência está aumentando. Para Werlen, é claro: "Se as coisas continuarem assim, a nossa fria Igreja, nestas latitudes, pode efetivamente desaparecer, juntamente com as suas instituições".

Nessa situação, é grande a tentação de permanecer apegados às cinzas, diz Werlen, chegando a falar da forte polarização existente entre conservadores e progressistas na Igreja de hoje. Em ambos os lados, gira-se muito ao redor das cinzas. Para ele, é claro: "Se, como Igreja, nos bloqueamos nas polarizações, impedimos que as pessoas descubram a brasa que dá a vida e que quer continuar ardendo hoje também". O objetivo deve ser "ouvir hoje o que Deus quer nos dizer, e também fazê-lo".

Problemas por culpa própria

Werlen fala muito claramente sobre os problemas em que a Igreja se encontrará por culpa própria. Se ainda há hoje expoentes do clero que se lamentam de que há 40 anos são propostos à discussão sempre os mesmos problemas, significa que nisso há algo central em jogo, diz Werlen. "Se os problemas não forem enfrentados ou se nem mesmo é lícito falar a respeito, com esse comportamento colocamos em jogo a nossa credibilidade – e, com ela, também a fé. O essencial está em jogo!".

E ainda: ato de desobediência é não levar a sério as pessoas e as situações. Aludindo à Pfarrei-Initiative Schweiz (Iniciativa das Paróquias da Suíça) e tentativas semelhantes, espalhadas em várias partes do mundo, Werlen escreve: "Como aqueles que têm a responsabilidade não se dão conta da situação e são, portanto, desobedientes, nascem iniciativas que são gritos de socorro, medidas de emergência, que são, sim, compreensíveis, mas que também podem levar à divisão ou ao abandono da instituição". Ele expressa, por isso, compreensão pelas muitas iniciativas que surgiram nas últimas décadas, mas quer continuar por outro caminho: "Descobrir juntos a brasa debaixo das cinzas".

Credibilidade perdida

Segundo Martin Werlen, nos últimos anos, a Igreja "perdeu muita credibilidade". Se, por exemplo, hoje, ainda há responsáveis eclesiásticos que chegam a dizer publicamente que "a maior parte dos abusos sexuais não acontecem na Igreja, mas nas famílias", eles demonstram, dessa forma, que "não só têm uma posição defensiva irresponsável, mas também incompetência teológica".

Desse modo, enfraquece-se o testemunho da Igreja: "Mesmo quando os abusos sexuais ocorrem nas famílias dos batizados e batizadas, são abusos cometidos na Igreja. Todos os batizados fazem parte da Igreja. O testemunho deve ser de todos os batizados".

Sistema das nomeações dos bispos

Werlen vê cinzas frias a serem removidas, por exemplo, no atual sistema da nomeação dos bispos. Para a Igreja do século XXI, deveria ser natural que batizados e batizadas, crismados e crismadas de uma determinada diocese fossem envolvidos "adequadamente" no processo de nomeação.

Werlen vê cinzas frias também na discussão emperrada sobre o celibato dos padres. Ele considera que a vida celibatária é um caminho possível para seguir a Cristo, assim como a vida conjugal. Ambas as formas de vida são dons de Deus, mas isso já não é mais percebido pelas pessoas, nem pelo batizados e batizadas. "Conseguimos apresentar o seguimento de Cristo no celibato de tal modo a ser considerado lei".

Também há cinzas frias na questão de gênero, com relação à qual a Igreja sempre se mostra "desajeitada e impotente": "O ser humano é homem ou mulher. Mas a Igreja continua tendo dificuldade para dizer sim à mulher".

Aconselhar o papa por cinco anos

O abade de Einsiedeln também vê a possibilidade de percorrer novos caminhos no órgão que reúne os conselheiros do papa. Ele acredita que há espaço suficiente para novas formas, levando-se em conta que, no fim, o cardinalato não faz parte do depósito da fé. Werlen faz uma proposta: a cada cinco anos, pessoas provenientes de todas as partes do mundo – mulheres e homens, jovens e velhos – poderiam ser nomeados no órgão dos conselheiros. A cada três meses se encontrariam em Roma com o papa. Nenhum dos presentes diria ou calaria nada por preocupação com a sua carreira. Esses encontros, escreve Werlen, "poderiam trazer uma dinâmica nova na direção da Igreja".

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