O cardeal que convidava a sonhar

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17 Novembro 2012

Martini se fez intérprete da capacidade de abrir horizontes e libertar a mente que a profecia tem.

Publicamos aqui um trecho do prólogo do livro Il profeta. Vita di Carlo Maria Martini (Ed. Mondadori), de autoria do jornalista italiano Marco Garzonio. É uma biografia completa, fundamentada em documentos originais e fontes diretas de primeira mão, do cardeal. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 12-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Profecia e Patrística são duas categorias que ajudam a entender Martini. Nele, recorre uma solicitação contínua: "Devemos dar uma interpretação do tempo em que vivemos". Ele se fazia porta-voz de uma época recente na Igreja e a reverdecia. Ler os "sinais dos tempos" havia constituído o grande apelo vindo de João XXIII e do Concílio.

Do Vaticano II e do Papa Bom partiu o estímulo a captar o desígnio de Deus sobre a história, a recuperar o aspecto profético da Igreja e do ser cristão. "Quando encontrares alguém não pergunta de onde vem, mas para onde vai", advertia Roncalli para encorajar a captar o novo e a esperança, a viver a fé com coragem.

Martini, como jovem estudioso, respirou o ar, interiorizou o anseio por aquela "nova primavera". Como pastor, ele se perguntou: por que esse problema concreto se apresenta para mim (um atentado terrorista, uma fábrica que se fecha, um padre que pretende deixar o hábito, um político que rouba, um casal que quer conciliar o seu amor e a possibilidade de decidir quando ter filhos e quantos, uma mulher abandonada pelo marido que refez a sua vida afetiva e pede os sacramentos), e a pergunta se tornou: o que o Senhor quer me dizer colocando-me diante desses acontecimentos e como ele pensa que eu posso ser testemunha da esperança e da confiança que ele pôs em mim.

Como estudioso, ele pediu ajuda ao conhecimento da Palavra para buscar lá também, no relato da aliança entre Deus e o povo judeu e no Evangelho, respostas adequadas às perguntas impostas pela atualidade.

As pessoas entenderam o forte nexo, inseparável, espontâneo, entre fé e vida, sentiram-no verdadeiro, autêntico, genuíno. Perceberam-no muito distante do cardeal a intenção daqueles que visam a fazer prevalecer uma escolha doutrinal sobre outra. Acorreram à Catedral porque compreenderam que, em Martini, o coração do ser humano vinha antes da teologia, embora importante. A misericórdia e a compreensão, a capacidade de se interrogar e de se pôr em discussão inspiravam a abordagem do cardeal, nunca o juízo ou o erguer-se na cátedra de uma autoridade que sabe e quer mostrar isso.

Martini se fez intérprete da capacidade de abrir horizontes e libertar a mente que a profecia tem. Atingiu o ápice em 1996, com o discurso de Santo Ambrósio: "No fim do milênio, deixem-nos sonhar". Instou a "sonhar grande", a "saber olhar com mente aberta ao futuro de Deus e do ser humano", seguindo o exemplo daquele "grande intérprete dos desígnios de Deus pelo seu tempo" que foi Ambrósio.

Martini advertiu, com o vigor de um antigo profeta: "É preciso o apoio, em todo compromisso público, de um sonho, um ideal, um projeto, uma utopia para medir o presente e graduar as intervenções possíveis sem se deixar sufocar pelas pequenas urgências cotidianas ou se desviar dos clamores ou das lisonjas dos petulante de plantão".

As pessoas acorreram porque se reconheceram nessa disposição de sonhar. Recuperar o sentido de esforços, sacrifícios, privações, olhar para o alto e para além das angústias do cotidiano é razão de vida. Só um homem inspirado pode gerar confiança, spes contra spem.

Vale ainda mais hoje a mensagem, quando a política tenta reparar com os técnicos ruínas ameaçadoras, enquanto uma caricatura dela ou propicia os negócios de poucos ou se ilude que a antipolítica é a panaceia.

Martini se moveu como um antigo Padre da Igreja. Existe uma biblioteca inteira dos seus livros que reúnem homilias e comentários sobre trechos do Antigo e do Novo Testamento, que dão testemunho da sua arte de fazer o texto falar: leitura da Palavra, aprofundamento de cada vocábulo, exploração dos nexos literais, interrogações sobre como essa página pode iluminar o presente: nosso, dos que nos rodeiam, do mundo.

Como Ambrósio, Orígenes, Basílio, Gregório, Agostinho e de uma série de Padres dos primeiros séculos, Martini partiu o pão do conhecimento bíblico para aqueles que já haviam sido tocados pela fé e intrigou aqueles que não acreditam.

As pessoas traziam e trazem consigo a lição profética e patrística de Martini: foi um modo de o cardeal se pôr a serviço da cidade e já é patrimônio dela. Um patrimônio com os seus sinais de contradição.

Martini foi um homem que dividiu em vida e viu-se isso também por ocasião da sua morte: para os muitos que acorreram para lhe dar o último adeus, muitos se gastaram criticando-o até a difamação. Alguns também instrumentalizaram o seu fim para objetivos políticos, recorrendo à falsidade, como fizeram aqueles que escreveram que o cardeal teria "desligado as máquinas que o mantinham artificialmente com vida". Uma mentira: Martini não estava ligado a uma máquina; permaneceu com vida tomando medicamentos enquanto a vida corporal permaneceu nele!

Não é de se admirar um panorama tão dilacerado: é uma história tão velha quanto o ser humano. O próprio Martini, quando vivo, não se admirava com isso. Junto ao itinerarium crucis e a ele devotado ("Eu não vim trazer a paz, mas a espada", Mt 10, 34), ele havia encontrado conforto na oração da liturgia ambrosiana, em que os fiéis invocam de Deus o "dom" de pastores que "inquietem a falsa paz das consciências".

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