Matança de mineiros é sintoma da corrupção e das desigualdades sul-africanas

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12 Setembro 2012

O massacre de 16 de agosto em uma mina de platina em Marikana, a cerca de 100 quilômetros de Joanesburgo, levantou de repente a África do Sul do sonho que havia começado em maio de 1994, com a vitória de Nelson Mandela nas urnas que pôs fim ao regime racista do apartheid. Nesse dia, pelo menos 34 mineiros morreram por disparos da polícia e 270 foram presos durante protestos em que os trabalhadores exigiam melhores condições de trabalho e um aumento salarial. Ao todo, pelo menos 40 mineiros, dois guardas de segurança e dois policiais morreram em Marikana desde que os cerca de 3 mil trabalhadores da mina se declararam em greve em 10 de agosto.

A reportagem é de José Miguel Calatayud, publicada pelo jornal El Pais e reproduzida pelo Portal Uol, 11-09-2012.

"Acreditávamos que estávamos tendo um pesadelo quando vimos as imagens de Marikana", disse esta semana Desmond Tutu, que em 1984 recebeu o Prêmio Nobel da Paz por seu ativismo contra o apartheid. "Esses éramos nós? Não! Devia ser um 'flashback' dos dias horríveis das injustiças e opressão. Mas não, éramos nós mesmos em 2012, em nossa democracia."

Os protestos se ampliaram para outras minas e a promotoria deu uma nova virada quando usou uma lei da época do regime racista para acusar os 270 mineiros presos pelo assassinato de seus 34 companheiros. As comparações com o apartheid, que começaram a ser ouvidas depois dos acontecimentos em Marikana, são habituais. "Me deixam muito nervoso essas comparações com o apartheid", comenta Pierre de Vos, o vice-decano do departamento de Direito Público da universidade local. "Houve enormes mudanças na África do Sul desde 1994, surgiu uma classe média que antes estava excluída, mas muita gente não se sente incluída."

Já faz tempo que quase todas as semanas há protestos e manifestações na África do Sul. Em 2004, houve dez protestos em todo o país pela falta de acesso aos serviços públicos. Em 2008 foram 27, no ano passado houve 81 e desde janeiro até julho deste ano, 113, segundo a organização privada sul-africana Municipal IQ.

Desde 1994, a África do Sul conseguiu reduzir a pobreza em termos absolutos e hoje só 23% da população vivem abaixo da linha de pobreza. No entanto, as condições de grande parte da população pioraram desde o fim do apartheid. A expectativa de vida passou de 61 anos em 1994 para 52 em 2010, enquanto os ricos aumentaram tanto sua riqueza que a África do Sul teve o maior coeficiente Gini do mundo, que mede a desigualdade econômica dentro de um país, segundo dados do Banco Mundial. Uma grande parte da população não tem acesso adequado a água corrente, eletricidade, educação ou saúde, enquanto vê como a nova elite negra usou o poder para enriquecer.

Várias figuras são representativas dessa tendência. Como a de Cyril Ramaphosa, um dos líderes do partido de Mandela na negociação que trouxe o fim do regime racista. Hoje, Ramaphosa é um homem de negócios multimilionário e faz parte do conselho administrativo da Lonmin, a empresa britânica dona da mina de Marikana. Outro caso é o de Khulubuse Zuma, sobrinho do atual presidente, Jacob Zuma, e Zondwa Mandela, neto de Nelson Mandela. Os jovens Zuma e Mandela eram os administradores da mina de ouro Aurora e foram acusados de não pagar aos trabalhadores e de enriquecer através da venda de ativos da mina. Os liquidantes expulsaram sua empresa da mina e está em andamento um processo judicial contra eles.

"Temos uma Constituição que contém uma carta de direitos humanos, e se esperaria que a polícia respeitasse esses direitos, algo que muitas vezes não acontece", reflete em Pretória Johan Burger, pesquisador sênior no programa de Crime e Justiça do Instituto para Estudos de Segurança. "Em todo o país os níveis de corrupção são enormes. Há um sentimento geral de anarquia, de ausência de respeito pelo Estado de direito."

O governo se viu incapaz de conduzir a situação. Os mineiros de Marikana se negam a voltar ao trabalho, as greves e os protestos se estendem para outras minas e as manifestações que exigem serviços públicos adequados tomam as ruas da África do Sul. "O que precisamos é de uma nova liderança", indica Burger. "Precisamos de alguém como Mandela, que mostrou a capacidade de liderança e de dar exemplo que hoje é a esperança de todos os sul-africanos."

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