Criador do Occupy Wall Street diz que "a magia acabou"

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11 Setembro 2012

O famoso cartaz com a bailarina em cima do touro de Wall Street pergunta: Qual é a sua exigência? A hashtag #OccupyWallStreet convoca quem usa o twitter para as ruas. A revista mensal Adbusters publica vários artigos justificando a campanha e cria o mote: 99% da população que está fora do controle pode, unido, ir contra o poder do mercado financeiro e das grandes corporações.

Um ano atrás, em 17 de setembro, a ideia do ativista Kalle Lasn de fazer uma coisa "muito, muito louca" deu certo, e milhares encheram o Zuccotti Park, no centro financeiro de Nova York. Desde então, o movimento ganhou vida própria e projeção em todo o mundo. Em entrevista à Folha, no entanto, Lasn falou que a magia acabou. O modelo de ocupação literal das ruas, dias a fio, está superado. "A magia só acontece uma vez". Segundo Lasn, uma segunda fase do movimento vai acontecer, com menos manifestações e, consequentemente, menos abordagens brutais da polícia, outro fator para o fim da primeira fase. Um próximo grande momento do Occupy? Talvez criação de um terceiro partido nos Estados Unidos, afirma o ativista.

Lasn recebeu a Folha em seu escritório, em Vancouver, onde trabalha entre sete funcionários e a faixa etária não passa dos 30. Ele, que beira os 70, não fala a idade, não tira fotos e se refere à juventude em primeira pessoa do plural. "Eu acredito na juventude. Temos o poder de lançar uma revolução global se agirmos juntos."

A entrevista é de Sofia Fernandes e publicada no jornal Folha de S. Paulo, 09-09-2012.

Eis a entrevista.

Um ano depois da primeira grande ocupação em Zuccotti Park, como anda o Occupy Wall Street?

Movimentos têm muitas fases, e a primeira fase do Occupy acabou. Aqueles jovens dormiram no parque, acordaram juntos toda manhã para ter encontros maravilhosos. O idealismo estava florescendo, havia magia. As pessoas estavam falando do futuro. Isso não irá se repetir, não dessa forma. Porque magia acontece só uma vez. O modelo de Zuccotti Park acabou.

Então haverá um novo ciclo? Como o senhor definiria essa segunda fase?

Continuará a haver alguns momentos do Occupy em alguns episódios de maior tensão global, uma, duas vezes por ano. Mas, ao mesmo tempo, haverá, todo dia, pequenas revoltas, pessoas lutando contra bancos, contra o governo, lutando para mudar leis e impostos. Algum de nós pode lançar um novo partido político. Outras pessoas vão lutar por uma reforma no financiamento de campanhas políticas. Outras pessoas irão lutar por impostos Robin Hood [quando se cobra mais dos ricos].

A brutalidade da polícia teve papel para forçar uma nova fase do movimento?

A razão principal foi a de que não estávamos mais agindo de forma conjunta. As reuniões se tornaram chatas, perdemos a magia. Mas a brutalidade da polícia foi uma das razões. Não apenas em Nova York, com as tropas de Bloomberg, mas em Oakland e em vários outros lugares. Parecia como se fossem ataques coordenados. Foi como no Egito, Mubarak tentando sufocar o povo usando a força militar. Quando você tem as autoridades de um país lutando contra os jovens, sua tática pode até funcionar a curto prazo. Mas é um modelo destrutivo, porque brutalidade acaba despertando a raiva contra as autoridades. Os jovens nunca esquecem.

O que fez o movimento perder sua magia?

A falta de suficientes líderes colaborou para o fim desse primeiro momento do Occupy. No final, você vai a uma reunião de Assembleia Geral e tem que discutir por 20 minutos sobre quem vai responder emails, ou tem que tomar conta de algum trabalho protocolar estúpido. E as pessoas estão falando por três horas, isso cansa. Então, se algo não está funcionando, começa a ficar chato. Porque não tinha um líder, ninguém tinha o direito de falar "Calados!". As pessoas estavam discutindo sobre bobagem, e por um tempo ninguém queria ficar por lá, porque o excitamento se foi.

Com líderes, o movimento não perderia o seu perfil de real democracia?

É o tipo de pergunta que todos estão tendo agora. De alguma forma, eu não gosto das pessoas que acham que essa revolução tem que ser como revoluções anteriores. Será diferente desta vez. Será caótico, louco. Em alguns lugares, pode acontecer de haver um líder, como na Rússia e o grupo Pussy Riot. Em outros, não. Temos que ser abertos a tudo. A situação do mundo está cada vez pior, politicamente, ecologicamente, financeiramente e psicologicamente. Em resposta a esse caos, as pessoas do mundo, especialmente os jovens, terão de lutar e fazer coisas no estilo do Occupy. Talvez no estágio em que estamos, com internet, na era das mídias sociais, talvez líderes não sejam tão importantes como foram no passado. Mas ninguém sabe o que o futuro reserva.

Haverá um próximo grande evento do Occupy?

A ideia de um partido pirata é muito boa, porque ele pode canalizar muitas paixões, de muita gente insatisfeita. Mas não espero nada para agora. Passamos por um momento muito chato nos Estados Unidos. Mas depois dessas eleições, as mais estúpidas de todos os tempos, com os Estados Unidos em declínio, alguma coisa terá de acontecer. Talvez o grande próximo Occupy será o lançamento de um partido nos Estados Unidos, pelos jovens. Talvez as pessoas acordem e vejam que precisamos de uma terceira opção. Não dá mais para ficar entre Coca-Cola e Pepsi.

Então os americanos ainda não estariam dispostos e abertos à mudança?

Talvez não. Porque vivemos um momento estranho de limbo nessas eleições. As coisas não estão mais tão ruins nos Estados Unidos a ponto de haver protestos apaixonados como no ano passado. O governo inflou a economia com muito dinheiro. Ainda assim, 15%, 20% dos jovens não conseguem um emprego. Mas, de alguma forma, você ainda sobrevive. Não há dor o bastante, não há paixão. Mas se a Down Jones cair 3000 pontos da noite para o dia, e o colapso se aproximar, aí os jovens verão com clareza que o futuro não existe.

Há muitas críticas ao movimento, de que não gerou mudança alguma, não apresentou reais demandas. Como o senhor enxerga esses comentários?

Não concordo. Acho que algo muito mágico aconteceu e ainda está acontecendo. Milhares de jovens pelo mundo estão despertando para o fato de que o futuro não é nada além de mudanças climáticas, crise financeira, e que nunca terão uma vida confortável como a que tiveram seus pais. Não há futuro, a menos que os jovens se levantem e lutem pela mudança. Em maio de 1968, em Paris, alguma coisa muito semelhante aconteceu. Mas agora, esse sentimento de que não há um futuro é pior do que em 1968. Naquela época não tinha mudança climática, não havia colapso financeiro, não havia essa epidemia de doenças mentais que varre todo o planeta. Muita gente está deprimida, ou ansiosa, tomando Prozac.

E o que mudou nesse ano?

Houve milhares de ocupações. Centenas de milhares de jovens se tornaram politizados, reuniram-se para discutir democracia. Suas conversas permitiram uma mudança no que está em pauta, nas conversas nos Estados Unidos e no mundo. Os jovens se deram conta de que, quando juntos e agindo com paixão, é possível ter o poder.

Como o senhor pensa no futuro do movimento, sua duração e seus efeitos?

Acho que esses jovens ao redor do mundo vão se fragmentar em milhões de partes, e cada parte vai lutar por um projeto próprio, por sua pequena mudança. Observe-nos, dê mais um tempo, a revolução geralmente demora vários anos. Passa por vários tipos de fases e passa por todo tipo de divergência interna, briga de poderes. Líderes caem, líderes emergem, e depois brigam entre si. E depois de sete, oito, talvez dez anos depois você tem algum evento grandioso acontecendo novamente. Se você olhar para a Revolução Russa, ou a Revolução Francesa, você vê que as transformações levam tempo.

Os textos da Adbusters falam muito em revolução espiritual. É um nova categoria de insurreição?

Toda revolução é uma espécie de revolução espiritual, se você olhar com cuidado. Vai envolver dinheiro, política, privilégios, 99% que não estão no controle, mas no fim, revolução está no espírito. Nós sabemos que o futuro não funciona, que ninguém sabe o que fazer, mas precisamos de um espírito jovem e apaixonado, que acredita que é possível fazer algo. Por isso que o Occupy foi e é uma insurreição espiritual. Espiritual não no sentido religioso, mas no sentido de que a motivação vem do espírito.

Na ultima edição da revista, vocês lançam uma nova campanha, a "Transfira seu dinheiro". Poderia explicar a ideia?

Lançamos a hashtag #moveyourmoney para convocar as pessoas a transferirem seu dinheiro de um grande banco para um banco comunitário, uma cooperativa de crédito ou um banco pequeno.

Colocamos essa meta: 1 trilhão de dólares transferidos até o fim do ano. Então as pessoas vão ver e vão topar. No Reino Unido, a campanha já teve muito sucesso, milhares de pessoas transferiram seu dinheiro. É uma boa ideia para um ato global. Qualquer um pode ir ao banco e pedir o seu dinheiro, um grande cheque, como protesto.

A Adbusters existe há mais de 20 anos. Por que criar um movimento como o Occupy em 2011?

Sempre tentamos todo tipo de transformações e movimentos radicais, como as campanhas "Dia sem compras" (Buy nothing Day), ou Natal sem compras (Buy Nothing Christmas). Nós chamamos isso de Culture Jamming.

Uns anos atrás, algumas coisas começaram a ficar mais sérias, sabe? Começamos a nos sentir mal em relação ao próprio futuro, o que gerou protestos na Grécia, jovens na Espanha fazendo coisas interessantes e radicais. E de repende, bang, você tem a primavera árabe no Egito, na Tunísia. Tivemos o sentimento de que aquele era um momento especial. Foi um momento muito especial. Tantas mudanças de regime, por que não começar a falar de uma mudança de regime nos Estados Unidos?

Como o senhor definiria o regime americano?

Os Estados Unidos são uma espécie de regime. Não é um regime duro e repressivo como no Egito, onde Mubarak torturava seu povo todos os dias, por anos e anos. Nos Estados Unidos há uma espécie de regime suave, mas ainda é um regime. Um regime das grandes corporações, do mercado financeiro, de Wall Street, Washington e lobistas. Esse grupo é capaz de controlar como toda a economia funciona. O que acontece, o que não acontece, que discursos são permitidos.

Por que a escolha por Vancouver para a sede da Adbusters?

Não acho que Vancouver seja o lugar mais dinâmico do mundo, e não é necessariamente o melhor. Mas se você quer montar a sede de uma organização como a Adbusters, e você está testando uma série de revoluções globais, é um bom lugar, talvez o melhor. Porque você tem os Estados Unidos logo abaixo, você sabe exatamente o que está acontecendo, mas com uma perspectiva diferente. Europa está do lado, e você ainda tem a Ásia relativamente perto: China, Japão, estão logo ali. De certa forma, você sente como se estivesse conectado com todo o mundo. Sinto que eu estou com um pé na Ásia, um pé na Europa, encarando de cima os Estados Unidos. E então eu entendo o que está se passando no mundo, de uma forma que se vivesse no Japão, ou no Brasil, não conseguiria.

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