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Indignados, entre o poder e a legitimidade. Artigo de Ulrich Beck

"O perigo global das finanças, suas consequências políticas e sociais, privaram de legitimidade o capitalismo neoliberal. A consequência é que se dá um paradoxo entre poder e legitimidade. Grande poder e escassa legitimidade do lado do capital e dos Estados; escasso poder e elevada legitimidade do lado dos manifestantes. É um desequilíbrio que o Movimento Ocupe poderia aproveitar para fazer demandas chaves como, por exemplo, um imposto sobre as transações financeiras", escreve Ulrich Beck, sociólogo alemão, professor emérito da Universidade de Munique e professor da London School of Economics, artigo publicado no jornal espanhol El País, 10-11-2011. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Como é possível que um outono quente nos Estados Unidos, à imagem e semelhança da primavera árabe, jogue por terra a crença mais arraigada do Ocidente, a imagem econômica mundial do american way? Como é possível que a consigna Ocupe Wall Street não leve às ruas apenas os jovens de outras cidades dos Estados Unidos, mas também de Londres e Vancouver, Bruxelas e Roma, Frankfurt e Tóquio? E essas manifestações não se reuniram para elevar sua voz contra uma lei ruim, mas contra o próprio "sistema". Questiona-se aquilo que antes se denominava "economia de livre mercado" e agora se volta a chamar "capitalismo". Por que o mundo está disposto a escutar quando Ocupe Wall Street se erige em porta-voz dos 99% dos oprimidos contra o 1% dos ricos? Na página da internet WeAreThe99Percent pode-se ler as experiências pessoais desses 99%: as daqueles que perderam suas casas na crise imobiliária, são os novos precários, não podem ter um seguro médico ou têm que se endividar para poder estudar. Não são os "supérfluos" (Zygmunt Bauman), os excluídos, o proletariado, mas a classe média que protesta. Isso deslegitima e desestabiliza "o sistema".

Sem dúvida, o risco financeiro global não é (ainda) uma catástrofe financeira global. Mas poderá vir a sê-lo. Esta condicional catástrofe é o tufão dos acontecimentos que irromperam em forma de crise financeira no seio das instituições sociais e da vida cotidiana das pessoas, varrendo as coordenadas que até o momento serviam para orientação. Ao mesmo tempo, tudo isto torna palpável uma espécie de comunidade de destino desses 99%. Se a Grécia quebrar, quer isso dizer que a minha pensão na Alemanha já não está mais segura? O que significa a "quebra de um Estado"? Quem poderia imaginar que os arrogantes bancos acabariam pedindo ajuda aos empobrecidos Estados, que colocariam à disposição das catedrais do capitalismo somas astronômicas de dinheiro, em um mundo de ponta a cabeça? Hoje, isso é algo que todos pensamos. O que não quer dizer que alguém o entenda.

Esta antecipação do risco financeiro global é uma das grandes formas de mobilização do século XXI. Porque é um tipo de ameaça que se percebe em todas as partes. São acontecimentos que chocam com os marcos conceituais e institucionais dentro dos quais pensávamos até agora a sociedade e a política; questionam esses marcos a partir de dentro, embora afetem diversos contextos e situações culturais, econômicas e políticas; por essa razão, os protestos globais exibem diferenças locais.

Os fluxos financeiros destas novas transações digitais financeiras, que mantêm em perpétuo movimento a totalidade do globo, que fazem subir e depois deixam cair países inteiros, remetem de forma exemplar a nova dinâmica de protestos na sociedade do risco global. Pois os riscos financeiros globalizados poderiam ser entendidos como se a situação, objetivamente, se manifestasse contra si mesma. Sob o imperativo da necessidade, assistimos a uma espécie de curso relâmpago que versa sobre as contradições do capitalismo financeiro. Os meios de comunicação nos colocam a par da radical cisão entre aqueles que produzem os riscos e deles se beneficiam e aqueles que têm que arcar com as consequências.

Nos Estados Unidos, o país do capitalismo depredador, formou-se um movimento crítico ao capitalismo: o que também era impensável. Quando o Muro de Berlim veio abaixo, dissemos que aquilo era "uma loucura". Quando, em 9 de setembro de 2001, as Torres Gêmeas viraram pó, dissemos que isso era "uma loucura". E voltamos a exclamar que aquilo era "uma loucura" quando, após o colapso do Lehman Brothers, eclodiu a crise financeira global. O que quer dizer "uma loucura"? Em primeiro lugar, assistimos a um ato de transformação digno de um cabaré: banqueiros e executivos, os fundamentalistas do mercado por antonomásia, clamam pela ajuda do Estado Político que até a pouco tempo atrás – como na Alemanha a chanceler Ângela Merkel – elogiavam o capitalismo livre de empecilhos, executam no meio da noite e do nevoeiro uma mudança de opinião e de bandeira, que o converte em uma espécie de socialismo de Estado para ricos. E a ignorância reina em todas as partes. Ninguém sabe o que é, nem que efeitos terá uma terapia prescrita sob os efeitos de um porre de zeros. Todos nós – os 99% – fazemos parte de um gigantesco experimento econômico que se move no espaço vazio de uma ignorância mais ou menos inconfessada, ignorância que diz respeito tanto aos meios empregados como aos objetivos perseguidos, mas que tem consequências devastadoras para todos.

Podem-se distinguir diversas formas de revolução: golpe de Estado, luta de classes, resistência civil, etc. Os perigos financeiros globais não são equiparáveis a nada disto, mas encarnam, de uma forma politicamente explosiva, os erros do capitalismo financeiro, que até ontem seguia vigente. São uma espécie de retorno do reprimido em um nível coletivo: à arrogância, característica do neoliberalismo, se jogam na cara os seus próprios erros de origem.

Não há dúvida de que as crises econômicas são tão velhas quanto os próprios mercados e podem ter consequências catastróficas no âmbito político. As instituições de Breton Woods fundadas depois da Segunda Guerra Mundial foram concebidas como respostas políticas globais para problemas econômicos globais, e o fato de que funcionaram foi uma das chaves importantes do surgimento do Estado de bem-estar social na Europa. Mas, a partir dos anos 70 e, de forma recrudescida, desde o colapso do Leste, estas instituições reguladoras foram em grande medida desmanteladas e substituídas por soluções ad hoc. Os riscos financeiros globais, que ameaçam a situação das pessoas, engendram novas politizações "involuntárias". É isso que os torna interessantes, tanto no plano político como no intelectual. Globalidade quer dizer: são riscos que afetam a todos e todos se consideram afetados. Não se pode dizer que disso já tenha surgido uma ação comunitária; seria apressado concluir isso. Mas que há algo como uma consciência da crise que se alimenta do risco e que representa precisamente esse tipo de ameaça comum sob a forma de uma nova espécie de destino coletivo. A sociedade do risco global – segundo mostra o clamor dos 99% – pode alcançar, em um momento cosmopolita, um conceito reflexivo de si mesma. Isto se torna possível quando a manifestação objetiva da situação puder ser transformada em um compromisso político, em um Movimento Ocupe global, no qual todos saiam às ruas, virtual ou efetivamente.

Mas, de onde provém o poder ou a impotência do Movimento Ocupe? O perigo global das finanças, suas consequências políticas e sociais, privaram de legitimidade o capitalismo neoliberal. A consequência é que se dá um paradoxo entre poder e legitimidade. Grande poder e escassa legitimidade do lado do capital e dos Estados; escasso poder e elevada legitimidade do lado dos manifestantes. É um desequilíbrio que o Movimento Ocupe poderia aproveitar para fazer demandas chaves como, por exemplo, um imposto sobre as transações financeiras. Para impor esta taxa Robin Hood, poderia surgir de forma exemplar uma aliança legítima e poderosa entre os movimentos globais de protesto e a política dos Estados nacionais, uma aliança capaz de dar o salto quântico político. Quando esta exigência chave foi feita, ao menos da boca para fora, pela chanceler alemã, Ângela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, pode-se muito bem pensar que há uma possibilidade de colocar em prática semelhante objetivo.

Generalizando: na consciência do risco global, diante da antecipação da catástrofe se abre um novo campo para a política de poder. Agora, na aliança entre os movimentos globais de protesto e a política dos Estados, no longo prazo poder-se-ia conseguir que não fosse a economia a que domina a democracia, mas o inverso. Essa oportunidade de ouro poderia tornar-se mais tangível através do Movimento Ocupe, que se coloca, tanto para dentro como para fora, objetivos sobre os quais se pode alcançar um consenso. Não estaríamos falando aqui unicamente dos controles do setor bancário, mas também de uma política fiscal justa e da segurança social em um marco transnacional.

Contra o desalento, talvez ajude a pensar que os principais adversários da economia financeira global não são aqueles que armam agora em todo o mundo suas tendas nas praças publicas e diante das catedrais bancárias; o adversário mais convincente e tenaz da economia financeira global é... a própria economia financeira global.

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