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O desafio que envolve o diálogo entre Santos e as Farc

Sempre é um bom momento para buscar a paz. Esta semana o presidente colombiano Juan Manuel Santos (foto) anunciou que seu governo começou conversas exploratórias com a guerrilha das Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], com meio século de luta armada. A notícia foi muito bem recebida na Colômbia, onde da Igreja até as câmaras empresariais, passando pelo Congresso e o Poder Judiciário, surgiram manifestações de apoio ao processo que acaba de começar. No mundo também quase todos aplaudiram, desde os Estados Unidos e a União Europeia até Cuba e Venezuela, passando pelas Nações Unidas e os países da região. As declarações, os comunicados aconteceram em toda a semana. Em tom acautelado, mas otimista, celebraram a decisão do presidente e dos guerrilheiros de iniciar um diálogo.

A reportagem é de Santiago O’Donnell, publicada no jornal Página/12, 02-09-2012. A tradução é do Cepat.

A nota discordante veio do ex-presidente Alvaro Uribe e de seus seguidores. Eles insistem com a ideia de solucionar o problema, relacionado com a guerrilha, por meio do aniquilamento militar. Sentem que estavam mais próximo disto quando Uribe governava, e que nestes últimos dois anos as coisas retrocederam, porque com Santos os militares abrandaram-se.

É difícil medir isso. Alguns especialistas assinalam que, nos últimos anos, as Farc reduziram de tamanho e alcance, mas outros dizem que há um ressurgimento. Sem ir muito longe, esta semana, horas antes do anúncio do início das negociações, uma série de atentados com bombas, atribuídas às Farc, causaram seis mortes em Meta. Horas depois, o exército anunciava que num combate tinha abatido cinco guerrilheiros e capturado um chefe, em Cauca.

A violência continua e esse é um tema crucial. A ex-senadora Piedad Córdoba, que há anos é mediadora, disse com crueza: “Seria bom que agora deixassem de disparar, mesmo que seja por um dia”. O cessar fogo deveria ser o próximo passo lógico deste processo.

Para os uribistas foi um erro ter começado a negociação sem que os rebeldes depusessem suas armas, porém deveriam reconhecer, também, que os guerrilheiros fizeram outras concessões, igualmente valiosas, para que comece um processo que todos sabem que não será fácil. Pela primeira vez, desde que fracassaram as negociações em San Vicente del Caguán, em 1999, as Farc aceitaram negociar sem que lhes fossem garantido uma área livre, um santuário livre de militares colombianos. E a área livre não seria nenhum capricho, mas a consequência natural do fracassado diálogo dos anos 1980, quando as Farc depuseram as armas e formaram um partido político, a União Patriótica, apenas para ver seus líderes massacrados por grupos paramilitares.

Agora começa novamente. Sem a área livre, sem cessar fogo, sem grandes anúncios, nem gestos exagerado, com a ajuda da Noruega e Cuba, que são os países garantidores, mais Venezuela e Chile, que foram nomeados países “acompanhantes” do processo.

Nisto é necessário reconhecer alguns méritos do presidente colombiano. Santos chegou ao governo depois de ter sido ministro da Defesa de Uribe. Nessa época, Santos era visto como o mais duro dentro de um governo duro, reticente até para negociar a sorte de reféns famosos com anos de cativeiro, apostando tudo na solução militar. Uribe governava sob a doutrina que ele chamava “segurança democrática”, e consistia numa guerra frontal financiada com os milhões do Plano Colômbia, um programa que fez daquele país o terceiro receptor de ajuda militar dos Estados Unidos, nos últimos anos, atrás apenas de Israel e Paquistão.

Quando a força área colombiana cruzou a fronteira equatoriana para bombardear no acampamento de Raúl Reyes, em 2008, Santos foi indiciado na Justiça equatoriana como presumível responsável daquela invasão. Por isso, surpreendeu que, dois anos mais tarde, a primeira coisa que fez quando assumiu foi recompor as relações com os vizinhos, tensionadas perigosamente durante o regime uribista. Primeiro acertou com Chávez, horas antes de assumir, em seguida convocou Quito e recompôs com Correa, e depois com Brasil e Cuba. Justamente em Cuba, que é o país mais próximo das Farc, sem chegar a ser aliado, é onde começaram as conversas entre o governo de Santos e a guerrilha. O acordo preliminar entre o governo e a guerrilha, divulgado esta semana, apresenta a data de 23 de fevereiro.

Segundo o firmado, o anúncio formal do começo das negociações será em Oslo, numa data que não foi acertada, e continuará em Havana até o seu fim. Não são estipulados prazos, mas há o comprometimento de se publicar relatórios periódicos para avaliar o progresso. A negociação propõe cinco ou seis temas pontuais que devem ser acordados: os temas agrários e de participação política, que a guerrilha interessa instalar, e os temas de cessar-fogo, entrega de armas e reinserção na sociedade, que é interesse do governo resolver. Além disso, o acordo inclui algumas regras para o jogo: cinco porta-vozes representantes de cada lado e não mais de trinta pessoas por delegação. O processo tem a arrancada com a discussão dos temas agrários.

Parece bastante, o suficiente ao menos para assentar as bases de um bom acordo, ou seja, um acordo duradouro. Na Colômbia, nota-se que sobram negociadores com experiência, contudo, quando se vem da guerra, a paz é algo muito frágil, muito difícil de sustentar, porque qualquer faísca pode acender um enfrentamento que já alcançou três gerações.

Conflito armado que se estende entre indígenas e camponeses, em territórios ausentes da presença do Estado colombiano, cujo combustível é o negócio multimilionário da produção, transporte e comercialização da cocaína. É assim: a droga alimenta e abastece as Farc para sobreviver aos canhões do Plano Colômbia, numa espécie de empate catastrófico que freia o desenvolvimento e sangra o país. Por isso, será difícil porque o problema da cocaína continua, existem integrantes das Farc que não estão convencidos e os uribistas estão na cola para dizer, enquanto puderem, “eu te avisei”.

Entretanto, trata-se de uma oportunidade única, não apenas para o governo colombiano, mas também para as Farc. Durante quarenta anos as Farc tiveram como único líder, o legendário Tirofijo Marulanda. Sua morte por causas naturais, aos 78 anos, marcou o fim de uma era. Desde então, as Farc perderam dois sucessores de Tirofijo, em combate: Mono Jojoy e Alfonso Cano. O novo líder, Timochenko, assumiu em novembro do ano passado. Aos 53 anos é o primeiro da nova geração que alcança o posto máximo na guerrilha. Formado militarmente na União Soviética, doutor em medicina, pertence ao setor militarista da organização, o mais intransigente. Porém, outros chefes com perfil mais político, como Iván Márquez e Rodrigo Granda, levarão adiante a negociação, segundo informou a própria guerrilha. Impossível saber se atuam de boa fé, mas ao não haver área livre, nem trégua e nem cessar fogo, é mais difícil suspeitar que estivessem colocando em prática a velha tática guerrilheira de negociar para ganhar tempo e se reagrupar.

Por outro lado, Uribe acusa Santos de especular politicamente e abrir diálogo de paz para assegurar a reeleição. Pode ser isso, também. No entanto, esta semana o presidente renovou seu gabinete, entre outras razões para dar lugar a figuras extrapartidárias, comprometidas em ajudá-lo no processo de paz. Para além de suas motivações, Santos demonstrou estar disposto a apostar todo seu capital político nesta jogada.

O diálogo com as Farc não significa o fim da violência na Colômbia, embora seja um passo necessário e fundamental. Também existe o ELN [Exército de Libertação Nacional], uma guerrilha mais jovem que foi convidada a se somar. Porém, persiste e evolui, sobretudo, o fenômeno narco-paramilitar, com bandos de ex-desmobilizados que voltam a se reciclar nos novos bandos de terroristas criminosos, com modalidades parecidas às anteriores, mas cada vez mais à margem da política e mais próxima do crime organizado.

Há espaço para o otimismo também. “Com Juan Manuel é outra coisa. Com ele é possível falar”, disse-me Correa, em março de 2010, poucas semanas depois da mudança de governo na Colômbia. Anteontem, Correa saudou o processo de paz no país vizinho. “É agora ou nunca que se pode alcançar a paz na Colômbia”, encorajou. “Adiante e muita sorte.”

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