Detalhes sobre o caso do mordomo do Papa

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Por: Jonas | 16 Agosto 2012

O caminho judicial está traçado para Paolo Gabriele, o mordomo infiel de Bento XVI. No próximo outono (europeu) será submetido ao julgamento por furto, agravado por serem documentos reservados, copiados e subtraídos por ele da residência pontifícia.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada no sítio Chiesa, 13-08-2012. A tradução é do Cepat.

No último dia de trabalho, recesso de verão dos tribunais vaticanos, o juiz instrutor Piero Antonio Bonnet reuniu as investigações do promotor de justiça Nicola Picardi e emitiu a sentença para o julgamento. Esta também golpeia um segundo acusado, Claudio Sciarpelletti, técnico em informática da Secretaria de Estado, mas por crime menor: o de cumplicidade, ao obstaculizar na prática as investigações sobre as suas relações com o principal acusado.

A íntegra dos textos da acusação e do julgamento, de quinze páginas cada um, foi divulgada pela assessoria de imprensa vaticana. Nos documentos, os nomes das testemunhas interrogadas durante as investigações, foram protegidos por razões de confidencialidade e substituídos com letras do alfabeto, exceto o de monsenhor Georg Gänswein, secretário particular de Bento XVI, sempre citado na íntegra. No entanto, é fácil adivinhar, por exemplo, que as testemunhas H, M, N e O correspondem às quatro religiosas Memores Domini que assistem o Papa.

Tanto a acusação como a sentença para o julgamento possuem notáveis passagens de interesse, tanto sobre o desenvolvimento do ocorrido como sobre as suas projeções futuras.

O culpado em casa

Particularmente dramática foi a descoberta do culpado. Na Itália, dois dias antes, estava à venda o livro com os documentos furtados quando, em 21 de maio, no momento em que toda a “família pontifícia” se reuniu com monsenhor Gänswein, com Alfred Xuereb, o segundo secretário do Papa, com as quatro Memores Domini, com outra assistente do Papa, Birgit Wansing, e com o mordomo Gabriele.

Cada um dos presentes negou que tivessem entregado as cartas ao autor do livro. Monsenhor Gänswein encurralou o mordomo, mostrando-lhe os documentos que tinham saído no livro e que tinham justamente passado por suas mãos. E o mordomo continuou negando.

Entretanto, os investigadores do serviço de segurança do Vaticano tinham acumulado fortes indícios contra Gabriele. No dia 23 de maio, a “família pontifícia” se reúne novamente e monsenhor Gänswein comunica a Gabriele sua suspensão cautelar do serviço. Mais uma vez, ele se declara inocente. E mais, culpa os presentes por querer fazer dele, injustamente, um “bode expiatório”, dizendo ter o consolo de seu diretor espiritual.

Porém, nesse mesmo dia, a casa em que mora, no interior dos muros vaticanos, é revistada e nela é encontrado um número notável de documentos furtados, parte dos quais coincide com aqueles publicados no livro. Na tarde deste mesmo dia, Gabriele é preso.

“Influído” pelo Espírito Santo

No parecer de monsenhor Gänswein e das religiosas Memores Domini, Gabriele era uma pessoa muito piedosa. Todas as manhãs assistia à missa presidida pelo Papa. Todavia, seu trabalho não brilhava: “tinha necessidade de ser continuamente encaminhado e dirigido”, embora fosse considerado honesto e leal. Era justamente por isso que lhe permitiam “acompanhar o fluxo de documentos” que passavam “pelo escritório de monsenhor Gänswein ou que eram depositados na prateleira que se encontrava em frente”.

E dali, admitiu durante os interrogatórios, ele retirava, fotocopiava e levava as cópias para a sua casa e que, por último, entregava ao autor do livro.

Por qual motivo? “Eu via malícia e corrupção por todas as partes na Igreja... eu também considerava que o Sumo Pontífice não estava corretamente informado... Eu pensava que um choque, inclusive midiático, poderia ser saudável para fazer a Igreja voltar para o bom caminho... Eu pensava que precisamente este era o papel do Espírito Santo na Igreja, Espírito do qual me sentia de certa maneira influído”.

Um diretor espiritual à deriva

O diretor espiritual de Gabriele, indicado como testemunha B, é outro personagem desconcertante deste acontecimento. Gabriele também entregou a ele uma série de documentos, reunidos numa caixa com o escudo pontifício. Interrogado pelos juízes, o diretor espiritual disse que os recebeu, que sabia de sua procedência desonesta e que, por isso, queimou-os sem ler.

Porém, Gabriele também indicou – num interrogatório do dia 21 de julho – que foi este mesmo diretor espiritual que o aconselhou a negar toda a sua culpa, na dramática discussão frente a frente com monsenhor Gänswein, de 21 de maio: “Meu pai espiritual me disse para que negasse minha responsabilidade, exceto se o Santo Padre estivesse presente e me perguntasse pessoalmente”.

Um cheque, uma pepita de ouro e a Eneida

Outro elemento desconcertante que surgiu das investigações são estes três “objetos” encontrados na casa de Gabriele:

– Um cheque bancário de 100 mil euros pagos a “Santidade Papa Bento XVI”, com a data de 26 de março de 2012, emitido pela Universidade Católica de Santo Antonio de Guadalupe;

– Uma suposta pepita de ouro oferecida ao Santo Padre pelo diretor do ARU de Lima (Peru), Guido del Castillo;

– Um incunábulo da Eneida, de Virgílio, traduzido por Annibal Caro, impresso em Veneza no ano de 1581, doado para o Papa pelas “Famílias de Pomezia”.

Sabe-se que são inumeráveis os presentes que chegam ao Papa. Contudo, que alguns deles acabem na casa de seu mordomo é de deixar perplexo. Nos interrogatórios, as justificativas dadas por Gabriele deixam grandes pontos obscuros em aberto.

Mas o mordomo não é o único culpado

O que é ainda mais obscuro é o fato, reconhecido pelo juiz instrutor, de que entre as cartas encontradas em posse de Gabriele também existam documentos “que é razoável supor que poderiam ter uma procedência diferente daquelas provenientes da secretaria particular do Sumo Pontífice”.

Com efeito, mesmo após a prisão do mordomo do Papa, outros documentos secretos continuaram a vazar do Vaticano evidentemente de outros escritórios e por obra de outras pessoas. Quatro destes documentos, que se tornaram públicos em fins de maio, referiam-se ao caso do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o “banco” vaticano. Entretanto, antes destes quatro documentos, no dia 24 de maio, poucas horas depois da prisão de Gabriele, veio à luz outro ainda mais explosivo.

Mas se foi possível lê-lo nos jornais não foi graças a um roubo, mas porque foi orgulhosamente apresentado pelo seu próprio assinante, o estadunidense Carl Anderson, presidente dos Cavaleiros de Colombo e membro do conselho de administração do IOR, que, nesse mesmo dia 24 de maio, havia exonerado Ettore Gotti Tedeschi da presidência do IOR.

Esse documento, reservadíssimo por sua própria natureza, trazia detalhes do desenvolvimento da reunião e enumerava as acusações lançadas contra Gotti Tedeschi. Sua publicação gozava do evidente consenso do secretário de Estado vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone.

Na sentença para o julgamento de Gabriele e do outro acusado, o juiz Bonnet afirma que esta encerra apenas parte de uma investigação que tem um alcance maior e “em várias direções”, que já está em curso e que continuará devido a outros crimes e contra outros eventuais culpados.

Também os três cardeais – Julián Herranz, Joseph Tomko e Salvatore De Giorgi – que Bento XVI encarregou de realizar uma investigação sobre o vazamento contínuo de informações reservadas do Vaticano, chegaram a conclusões, por enquanto secretas, que vão muito mais além da única traição do mordomo.

Mas que um documento como aquele, que no dia 24 de maio colocou publicamente no pelourinho o ex-presidente do IOR, tenha vazado do Vaticano é uma ação que contradiz a vontade de reconstruir um pacto de lealdade dentro dos muros do Vaticano, do qual o processo de Gabriele é um passo importante e significativo.

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