Uma leitura ético-teológica das marchas do Tipnis

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Por: Jonas | 31 Julho 2012

“Os indígenas da marcha nos despertam de nossa letargia consumista, tecnocrática e possessiva, de nosso espírito pequeno-burguês e pouco sonhador, abre-nos para uma dimensão maior e mais profunda, para uma utopia real”. Esse é o parecer de Víctor Codina, publicado no sítio Ameríndia, 27-07-2012, em referência ao que se pode aprender com a marcha dos indígenas da Bolívia. A tradução é do Cepat.

Agora que a IX Marcha Indígena retorna ao Tipnis [Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Secure] com a sensação de tristeza e fracasso diante da impossibilidade de diálogo com o governo, busquei fazer uma reflexão ético-teológica sobre o sentido das duas marchas pelo Tipnis.

Para além do sociopolítico

Já se escreveu muito sobre o Tipnis e as marchas VIII e IX dos indígenas em defesa de seu território. Não quero entrar nos temas e preocupações políticas que a marcha suscitou: tentativa de golpe de Estado, influência da embaixada dos Estados Unidos e das ONGs, presença de membros da oposição, singularmente do MSM, impulso governamental à contramarcha, visitas do governo aos indígenas com vantagens para que aprovem a consulta e a estrada, contradição entre as propostas ambientalistas e em respeito à Mãe Terra, de parte do governo e sua práxis concreta, no caso de Tipnis...

Também não quero debater sobre os responsáveis, até agora impunes, da repressão policial aos indígenas da VIII Marcha, em Chaparina, ou aos caminhantes da IX Marcha, em La Paz, enquanto faziam vigília esperando o diálogo com o Presidente. Deixo de lado os assuntos econômicos implicados na marcha: empréstimos do Brasil para a construção da estrada da Villa Tunari até San Ignacio de Moxos, interesses econômicos de uma rota transoceânica, especialmente para o comércio com a China, interesses financeiros de madeireiras, cocaleiros, petroleiros, empresas de turismo... que defendem a construção da estrada.

Tampouco quero discutir o tema do progresso da área que seria favorecida com a construção da estrada e que se materializaria em melhoras na educação, saúde, facilidade de entrada e saída de produtos, tal como a propaganda oficial apresenta na TV. Passo distante da questão jurídica, o decreto que defende a intangibilidade do território do Tipnis, a lei 222 que determina a consulta aos moradores e a resposta salomônica do Tribunal Constitucional. Como também não desejo me intrometer na questão da legitimidade dos representantes que encabeçam a IX Marcha. Não quero discutir sobre o fato das crianças que acompanharam aos caminhantes, que como tanto Unicef como Pnud criticaram. Não tenho competência para julgar se a segunda parte da estrada realmente prejudicará o meio ambiente e se é possível estabelecer uma rota alternativa. Também não sou especialista nos temas antropológicos e culturais implicados nesta marcha de chimanes, yuracarés e trinitário-moxeños. Todos estes assuntos já foram amplamente debatidos, nos últimos meses, e muito foi escrito sobre todas estas implicações da marcha de Tipnis (1).

Gostaria de abordar o tema das marchas do Tipnis a partir de outra dimensão, de outro paradigma, de sua vertente ética e espiritual, já que somente destas raízes profundas pode-se explicar o sentido último da marcha. É necessário ir além da racionalidade sociopolítica, econômica, técnica e legal da marcha.

Um chamado ético

A dimensão ética destas marchas pode ser formulada de muitas formas, porém sempre tocam o mesmo núcleo essencial: podemos explorar a natureza a qualquer preço, em nome do progresso? O progresso econômico e técnico pode justificar qualquer ação destruidora da natureza e do meio ambiente? Somos donos e senhores absolutos de nosso entorno? Tudo o tecnicamente possível é necessariamente ético? Não temos responsabilidade para com as futuras gerações, que serão afetadas por nossas decisões exploradoras e extrativas?

Quando alguém reflete sobre o imenso esforço dos indígenas, homens, mulheres, crianças, inclusive idosos, caminhando durante dois meses das planícies tropicais às frias alturas do altiplano, suportando calor, chuvas e frio, mal alimentados e mal alojados em tendas, reprimidos pela polícia, vaiados por alguns moradores, mal recebidos por outros, com alguns mortos por acidente e outros pelo frio e a falta de atenção médica... Espontaneamente, surge a pergunta: de onde nasce esta convicção, esta tenacidade para seguir adiante? Esta valentia e fortaleza em meio de tantas dificuldades, qual é a causa desta audácia e desta valorosa e alegre postura?

Não se explica isto unicamente pela defesa de seu habitat, nem de seus costumes ancestrais, nem de seu “modus vivendi”, não é apenas o sentido de fidelidade à tradição secular de seus maiores. Existe algo mais, há um “plus”.

Qual é este “plus” de sentido para além da razão instrumental pragmática, do logicamente razoável, para além do sentido comum e da própria utilidade prática?

Para além da ética

Aqui o ético é aberto para uma dimensão mais profunda e misteriosa, para a ordem do espiritual. Abre-se para a Transcendência, para algo Tremendo e Fascinante, ao Infinito, ao Outro, ao Incompreensível, ao Sagrado, ao Mistério último que podemos chamar Deus ou com outros nomes.

No fundo, os indígenas não defendem apenas seus rios, seus bosques, seus animais, sua casa e sua pesca... Mas, também defendem a Terra, a Criação, a obra do Criador, expressa em diferentes mitologias e crenças. Possuem um respeito religioso em relação à Terra e uma veneração que vai ultrapassa o progresso técnico e econômico, a utilidade pragmática e consumista.

Para muitos “modernos” a postura indígena é uma loucura, a negação do progresso, um fundamentalismo telúrico recalcitrante e reacionário. Por isto, eles a critica, combate, freia e a reprime, inclusive violentamente.

Contudo, na realidade os indígenas a partir de sua cosmovisão e espiritualidade ancestral, sejam católicos, evangélicos ou cultivadores da espiritualidade originária, estão lançando uma mensagem ao país e à humanidade: não somos proprietários da terra, não somos donos e exploradores, temos de cuidar da terra para as futuras gerações, o lucro ou o consumo não são a última palavra, a terra é de todos e para todos, não para uns poucos aventureiros com dinheiro e técnica. Eles denunciam que a humanidade deve ir por outros rumos. A Terra merece respeito, harmonia, comunhão, contemplação amorosa, gratidão, solidariedade, reconciliação, não abuso, nem apropriação indevida, nem extinção, nem exploração sem misericórdia, nem voracidade, nem cobiça, nem violência, nem caos.

De onde vem esta profunda intuição, para esta gente pobre e iletrada? Eles não têm lido livros sobre ecologia ou desenvolvimento sustentável, nem seguramente conhecem o Greenpeace, nem os protocolos de Kyoto ou as reuniões da Rio 92 e Rio+20. É certamente a sabedoria milenar destes povos o que aflora intuitivamente nestas marchas, uma sabedoria anterior ao cristianismo, uma sabedoria cósmica, telúrica, espiritual, que brota da comunhão harmônica, durante séculos, com a natureza, da qual se sentem parte.

Uma leitura cristã destas marchas

Se quiséssemos fazer uma leitura de todo este processo, deveríamos falar do Espírito do Senhor que desde as origens da criação enche o universo, paira na criação originária, e que inspira homens e mulheres para este sentido de respeito e comunhão com a natureza e com todo o cosmos (Gênesis 1, 2; Sabedoria 1, 7). Este Espírito criador sustenta e faz florescer as culturas e religiões da humanidade. Este Espírito, anterior a chegada dos missionários, é o que dá sentido a suas vidas, coerência interna, força e valentia para defenderem a terra.

O Espírito do Senhor transforma esta ética e espiritualidade numa mística e numa profecia para nosso mundo. Os indígenas da marcha nos despertam de nossa letargia consumista, tecnocrática e possessiva, de nosso espírito pequeno-burguês e pouco sonhador, abre-nos para uma dimensão maior e mais profunda, para uma utopia real. Adverte-nos que o caminho do capitalismo neoliberal competitivo e discriminante, a ideologia de mercado e do consumo, o “sistema” e estilo atual de vida, o “american way of life”, levam à ruína das civilizações, da humanidade e da terra (2).

Talvez todo esse esforço dos indígenas possa nos parecer inútil, é muito provável que estas marchas tenham sido um fracasso, a estrada seguramente será construída, a mata será destruída e o Tipnis se converterá em área produtiva e progredirá economicamente. Triunfarão os sábios e prudentes deste mundo. Dentro de alguns anos ninguém mais se lembrará das marchas indígenas pelo Tipnis. Porém, o grito destes indígenas descalços e pobres não poderá ser sufocado nunca, pois por meio deles, com todas as suas ambiguidades, mistificações, impurezas, erros e, inclusive, egoísmos, nos fala o mesmo Espírito que pairava na criação. É um sinal dos tempos.

A partir de uma visão cristã, a marcha dos indígenas do Tipnis confirma as palavras cheias de exultação messiânica de Jesus de Nazaré, porque seu Pai ocultou os mistérios do Reino aos sábios e prudentes e as revelou aos pequenos e simples (Lucas 10, 21-22).

Estes indígenas, pobres, mal vestidos e caminhando com chinelos ou descalços pelas estradas, são mais sábios que os poderosos e bons pensadores deste mundo.

Uma hermenêutica a partir dos pobres sempre nos abre para dimensões novas, à ética e à espiritualidade, a uma mística profética que irrompe para além dos limites do país e da Igreja, numa espécie de teologia pública, “publicness”, que adverte e ilumina nosso futuro. A população de La Paz, que recebeu com imenso carinho e generosidade os caminhantes do Tipnis, intuía algo disto?

Os caminhantes talvez tenham sido mal acolhidos, talvez não tenham atuado e nem sempre se expressado de forma correta, talvez tenham sido pouco realistas... Contudo, o certo é que nos deram uma lição de ética e de espiritualidade, de mística e de profecia. Eles, para além daquilo que nos pese, no fundo têm razão: é preciso mudar o “sistema” e caminhar para a utopia. Obrigado, irmãos e crianças indígenas!

Cochabamba, 12 de julho de 2012.

Notas:

1. Remeto ao número 101 de “Quarto Intermedio”, Cochabamba, maio de 2012, e concretamente aos artigos de Felix Patzi, “Miserias de la plurinacionalidad e interculturalidad del Tipnis”, págs. 32-53 e Xavier Albó, “Los actores locales del Tipnis”, ibdm., págs. 54-69.

2. Ver a Carta Pastoral da Conferência Episcopal Boliviana, “El Universo don de Dios para la Vida”, Quaresma 2012. No número 101de “Quarto Intermedio”, maio 2012, há um breve resumo, págs. 82-97.

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