Uma grande marcha indígena pela paz

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

  • Padres despedaçados. Artigo de Pietro Parolin

    LER MAIS
  • Na igreja do Papa Francisco, os movimentos estão parando

    LER MAIS
  • Abusos, sínodo e a falsa prudência

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


17 Agosto 2011

Mais de seiscentas pessoas de todas as idades e povos saíram do departamento de Beni para percorrer 640 quilômetros. Pediram ao Executivo que a estrada passe por outro lado, e não afete territórios como Chimán, Yuracaré e Mojeño Trinitario.

A reportagem é de Sebastián Ochoa, publicada no jornal Página/12, 16-08-2011. A tradução é de Anete Amorim Pezzini.

Organizações indígenas de todo o país, reunidas na Confederação dos Povos Indígenas da Bolívia (CIDOB) e no Conselho Nacional de Markas e Ayllus do Qullasuyu (CONAMAQ), iniciaram nessa cidade, capital de Beni, a Oitava Marcha Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis), por onde o governo pretende passar uma rodovia que - segundo os mobilizados - destruirá seu território. Mais de seiscentas pessoas de todas as idade e povos, saíram a percorrer 640 quilômetros até a cidade de La Paz, onde exigirão do presidente Evo Morales que essa via passe por outro lado, sem afetar as terras dos povos Chimán, Yuracará e Mojeño Trinitario.

“Marchamos porque é a única maneira de fazê-los escutar-nos. Queremos mostrar que nós, os povos indígenas, estamos unidos, porque sabemos que o que acontecer em Tipnis vai acontecer em todos os territórios indígenas. Se fizermos com que respeitem o Tipnis, todos os territórios serão respeitados”, disse Miriam Yuánore, nascida no Tipnis e vice-presidente da Central dos Povos Étnicos Moneños de Beni (CPEMB).

Os representantes dos 36 povos indígenas deixaram a cidade pobre de Trinidad pela avenida Pedro Ignacio Muiba, forrada de pau-d’arcos cheios de flores amarelas e rosadas. Esperam avançar entre vinte e trinta quilômetros por dia, para chegar a La Paz na segunda quinzena de setembro. À noite dormirão junto ao rio Mamoré.

As organizações informaram que se cortariam 550 mil árvores se for construída a estrada de 306 quilômetros que uniria as cidades de Villa Tunari, em Cochabamba, a Santo Ignácio de Moxos, em Beni. Instituições cívicas e empresários de Santo Ignácio de Moxos - a 88 quilômetros de Trinidad - advertiram que não deixarão a marcha passar, porque querem a estrada. Os indígenas, que ressaltaram seu ânimo pacífico, adiantaram que, em tal caso, podem iniciar bloqueio de estradas em todo o país, entre outras medidas de confrontação que preferiram não mencionar.

“Em 2009, o presidente Morales nos entregou o título de propriedade do TCO (Território Comunitário de Origem). E disse-nos: ‘Vocês têm o dever de defender este território’. Fazemos isso agora. Não é desenvolvimento para nós a estrada, queremos outro tipo de desenvolvimento. A rodovia é para gente rica e empresária. Nossa via para movermo-nos é o rio, assim vamos de comunidade em comunidade”, comentou a vice-presidente da CPEMB.

Os 16 suyus quéchuas e aimarás da região andina também se somaram à Oitava Marcha Indígena. “CONAMAQ, na marcha, está reivindicando os direitos coletivos da Mãe Terra e os direitos dos povos indígenas. Não há negociação com o governo, não há nada: vamos direto até La Paz”, disse o mallku  das Indústrias Extrativas da CONAMAQ, Rafael Quispe Flores, que chegou à cidade junto com cem irmãos e irmãs, muitos com seus filhos pequenos.

 “Pedimos à população solidária, com esta marcha, que nos doem alimentos, água, medicamentos. Há muitas crianças que já estão doentes, também há senhoras grávidas”, contou Lúcio Ayala, da vila Tacana, secretário de Terra e Território da CIDOB.

O sol de chumbo da Amazônia, com 35 graus permanentes, foi-se sobre os manifestantes que iam com roupas leves, algumas bolsas e arcos e flechas de dois metros. Os quéchuas e aimarás usavam seus ponchos; apesar do grande calor, sua vestimenta garantia-lhes proteção.

Nas cidades de La Paz, Cochabamba e Santa Cruz, houve marchas, em sua maioria preparadas por jovens, em solidariedade aos defensores do território. Na Praça Murillo de La Paz, os manifestantes foram recebidos com bombas de gás pela polícia para que deixassem de mostrar seus cartazes, do tipo “Evo: O Tipnis se olha e não se toca”.

O Tipnis, que, no mapa, parece um triângulo apontado para o sul, tem 1,2 milhões de hectares e é uma das zonas mais biodiversas da Bolívia. De acordo com o Serviço Nacional de Áreas Protegidas (SERNAP), nessa área protegida há 108 espécies de mamíferos (trinta por cento das espécies do país) e mais 470 espécies de aves, que são 34 por cento do total da Bolívia. Também há 39 espécies de répteis, 53 espécies de anfíbios e 188 espécie de peixes e mamíferos nadadores, como o golfinho, um delfim rosado em perigo de extinção, e outras espécies que habitam o território, segundo dados da Fundação Terra.

Das 1.236.000 hectares do Tipnis, 1.091.000 do TCO pertencem aos indígenas. Os quase duzentos mil hectares de diferença estão nas mãos de aproximadamente vinte mil famílias de colonizadores, que cultivam principalmente coca.

A estrada requereria uma inversão de 436,2 milhões de dólares norte-americanos, dos quais 332 milhões proviriam de um crédito do governo do Brasil. Desse modo, cada quilômetro custará em média 1,4 milhão de dólares.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Uma grande marcha indígena pela paz - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV