Na Bolívia, nona marcha indígena desperta racismo hereditário

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Por: Jonas | 16 Junho 2012

Apesar de ter sofrido as piores expressões de racismo, na sua caminhada pelos vários povoados do norte amazônico boliviano, a nona marcha indígena avança lentamente, no sentido de La Paz. Os indígenas vão defender, diante do Governo, sua “grande casa”: o parque nacional que continua sob a ameaça de ficar dividido pela construção de uma estrada. Para chegar à sede do Governo, restam ainda dez dias de subida aos picos andinos, a mais de 4.500 metros, sob uma adversa campanha oficial de descrédito e desprestígio.

A reportagem é de Mabel Aczui, publicada no jornal El País, 14-06-2012. A tradução é do Cepat.

“A coluna tem sido atropelada, com palavras e atos, por pessoas que apoiam o Governo, mas nunca vamos responder a essas agressões. Sempre mostramos nossa vocação de disciplina e respeito”, afirma o presidente da Confederação Indígena do Oriente (CIDOB), Adolfo Chávez, que lidera a coluna.

Para trás ficou San Ignacio de Moxos. Já são muitos os quilômetros que os separam desse local, mas ainda ressoam nos ouvidos dos caminhantes as ameaças feitas pelos dirigentes das organizações de bairros e sindicais deste povoado, o mais indígena da região, fundado durante a Conquista. “Que se atrevam a passar por aqui! Vamos arrebentá-los”, “se nós os pegarmos, vamos pendurá-los”; “aqui não entrarão estas mulas, que sigam por onde indicamos”. São alguns dos gritos exaltados dos moradores e dirigentes de organizações sociais, simpáticos ao Movimento ao Socialismo (MAS), que têm expressado apoio à iniciativa presidencial de construir um caminho entre Beni e Cochabamba, atravessando o Território Indígena do Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS).

Parte dos mais veementes defensores do projeto são pecuaristas, comerciantes e transportadores que, com o financiamento brasileiro, se assentaram no lugar após emigrar do altiplano. Grupos radicais fecharam as ruas de acesso ao centro de San Ignacio com cercas de arame, utilizadas pelos pecuaristas para delimitar suas pastagens, no intuito de obstruir os indígenas que passaram pelo povoado.

A imagem da cerca evidencia um retrocesso de séculos, “quando se negava ao índio o acesso à praça e seu trânsito pelas ruas, nos espaços urbanos”, destacou o sociólogo beniano Ismael Guzmán. “A história da luta pela terra, em Beni, é marcada pelo arame de pua: o traço de cada novo alambrado significava, para os povos originários, uma nova perda por meio do despejo”.

Na Bolívia está vigente uma lei contra a discriminação e o racismo que pune estes tipos de expressões, mas, aparentemente, não se iniciaram ações de ofício neste caso.

Na localidade de Yucumo, os indígenas tiveram que passar pelas ruas em silêncio, e de madrugada, para não incomodar os moradores. Ali, os sindicatos, cocaleiros e camponeses apoiam o projeto do TIPNIS.

Os insultos têm sido anotados num documento de denúncia, elaborado pela coluna de caminhantes, para expressar “quão desamparados” se sentiram diante do "abuso e a prepotência das autoridades, incluindo o prefeito Basilio Nolvani, que convocou, em caráter obrigatório, todos os funcionários públicos para bloquear a passagem da marcha”.

“A CIDOB vai levantar uma queixa quando terminar a nona marcha, porém não esperamos nada. O que podemos esperar se dentro da própria estrutura do Estado a lei é desconhecida e o racismo é estimulado. No país, o racismo tem se aprofundado, incitado a partir das fileiras do próprio governo”, disse Chávez, e com um ar de resignação faz notar que “o Ministério Público e os poderes do Judiciário, Legislativo e Executivo estão cooptados” pelo partido governamental.

Muito diferente tem sido a reação da Promotoria Geral, que processou a ex-prefeita de Chuquisaca, a quéchua Sabina Cuéller, o destituído prefeito Jaime Barrón e os perseguidos líderes de organizações civis, acusados de liderar, em maio de 2007, uma deplorável mostra de racismo contra camponeses, supostamente partidaristas, a quem castigaram na praça de armas de Sucre, resultando numa condenação geral. O processo ainda não foi concluído e os presumíveis autores têm suas liberdades restringidas.

Os indígenas caminham mais de 45 dias pelas passagens de terra. Suportam intensas chuvas que os obrigam a andar descalços na lama, mas também já houve alegrias durante esse tempo: a família aumentou com o nascimento de gêmeos e de outro menino, que foram primeiramente atendidos nos acampamentos e, depois, levados para centros médicos.

Esta é a nona marcha dos indígenas no intuito de reivindicar, em La Paz, a paralisação do projeto TIPNIS. As anteriores contaram com duros enfrentamentos da polícia do presidente indígena Evo Morales.

Em Caranavi, o apoio dos moradores à causa indígena foi claro e contundente. Apesar dos cocaleiros, sindicatos camponeses e mulheres camponesas tentarem encerrar a caminhada dos manifestantes, no intuito de impedir sua entrada na cidade, após algumas contendas, golpes e discussões, os moradores escoltaram a coluna até o alojamento que foi preparado para recebê-los e protegê-los até partirem para La Paz.

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