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O combate aos abusos sexuais. Os renovadores ganharam

Há alguns dias, ocorreu o simpósio Rumo à cura e à renovação, uma grande reunião de cúpula internacional sobre a crise dos abusos sexuais organizada pela universidade jesuíta Gregoriana, de Roma, e copromovida por diversos departamentos vaticanos. O evento reuniu cerca de 100 bispos e superiores religiosos de todo o mundo antes do prazo final, em maio, para que as conferências episcopais submetam à revisão da Congregação para a Doutrina da Fé as suas políticas antiabusos.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 10-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Embora muito do que foi dito era familiar às pessoas que tem convivido com a crise na última década, a ideia era compartilhar essa experiência com o restante do mundo católico, especialmente lugares onde a crise dos abusos sexuais ainda não explodiu, na esperança de que, por uma vez, as lideranças eclesiais possam desarmar a bomba antes que ela exploda.

Aqui, vou traçar o grande quadro que surgiu da cúpula e que eu expressaria desta forma: o Vaticano usou a religião contra a crise dos abusos sexuais.

Quando os escândalos estouraram nos Estados Unidos há uma década, a reação no Vaticano ficou claramente dividida entre o que se pode chamar vagamente de "reformadores" e "negacionistas". O que parece indiscutível no rastro do evento dos últimos dias, embora ele não tenha sido de forma alguma preconcebido há 10 anos, é que os reformadores estão na dianteira agora.

Na realidade, a "reforma" segundo os padrões do Vaticano está muito longe da revisão radical exaltada por alguns críticos. Não se trata de desconstruir a natureza hierárquica da Igreja, revogar o status vaticano como Estado soberano, eliminar o celibato, ordenar mulheres ou reescrever a moral sexual católica. Essas coisas nunca estiveram nas cartas.

Ao contrário, as linhas de falha no Vaticano há uma década romperam em termos deste tipo de debates:

  • A crise é, em grande parte, um frenesi midiático e jurídico, ou um verdadeiro câncer?
  • A Igreja deve cooperar plenamente com as autoridades civis, incluindo a polícia e os procuradores, ou isso significaria renunciar à autonomia que a Igreja travou batalhas titânicas ao longo dos séculos para defender?
  • A Igreja deve abraçar o uso da psicologia na seleção de candidatos ao sacerdócio, ou isso seria assumir uma mentalidade secular ao invés dos tradicionais princípios espirituais de formação?
  • A Igreja deve apoiar programas agressivos de prevenção e detecção dos abusos, ou isso correria o risco de "sexualizar" as crianças ao longo das linhas de educação sexual secular?
  • A crise é verdadeiramente um fenômeno global, ou é fruto de um "pânico moral" em grande parte restrito ao Ocidente?
  • Vaticano deve assinar embaixo de políticas de "tolerância zero", ou isso romperia a relação paterna que supostamente existe entre um bispo e seus padres?

Naquela época, era uma grande dúvida saber quais respostas prevaleceriam, e ainda não está totalmente qual é a posição reformadora.

Em certo sentido, o resultado provavelmente foi escrito nas estrelas quando o paladino da reforma durante os últimos anos de João Paulo II, o então cardeal Joseph Ratzinger, foi eleito papa em 2005. O que a reunião de cúpula dos últimos dias mostra, no entanto, é como ele se tornou totalmente um senso comum no Vaticano.

Vimos o cardeal canadense Marc Ouellet, prefeito da poderosa Congregação para os Bispos, presidindo uma liturgia de arrependimento – efetivamente, simbolizando que a crise não tem a ver apenas com padres rebeldes, mas também inclui falhas por parte da hierarquia. Ouvimos o cardeal norte-americano William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, admitindo que grande parte do que tem sido feito até hoje se deve à pressão da mídia, insistindo em uma abordagem "mais proativa".

O Papa Bento XVI despachou uma mensagem ao simpósio, endossando o esforço para construir "uma vigorosa cultura de salvaguarda eficaz e de apoio às vítimas".

O principais procurador vaticano em termos de abusos sexuais, o monsenhor maltês Charles Scicluna, disse sem rodeios que "é inaceitável" que bispos ignorem os protocolos antiabusos e pediu abertamente que se imponham sanções de acordo com a lei da Igreja sobre aqueles bispos que deixaram a bola cair. Ao fornecer uma plataforma aos arquitetos dos inovadores programas de prevenção e detecção de abusos como o Protecting God's Children nos Estados Unidos, a cúpula efetivamente exaltou tais programas como modelos globais.

Os negadores, é claro, não desapareceram. Algumas autoridades do Vaticano resmungaram privadamente que toda a cúpula sobre os abusos sexuais foi uma má ideia, porque tudo o que ela conseguiu foi reavivar uma história negativa para a Igreja. A diferença entre 10 anos e hoje, no entanto, é que os negadores entraram amplamente na clandestinidade, e são os reformadores que dão o tom.

O Vaticano tem um talento inigualável para reescrever a história, fingindo que o complexo resultado de uma contundente luta interna sempre foi a sua posição fixa. Em pouco tempo, poderá ser difícil lembrar que já houve um tempo em que a equipe do Vaticano não estava dizendo e fazendo esse tipo de coisas – mas houve, e não há muito tempo.

Na realidade, simplesmente mudar o tom em Roma não transforma automaticamente a Igreja na base.

Ainda esta semana, o veterano jornalista Jonathan Luxmoore publicou um artigo no National Catholic Reporter sobre a Polônia, contando a história de um bispo polonês que reinstalou um padre, mesmo depois de ele ter sido criminalmente condenado por abusar de uma menina. Nos Estados Unidos, o cardeal aposentado Edward Egan, de Nova York, recentemente deu uma entrevista em que pareceu se retratar de um pedido de desculpas anterior pela crise e lançou dúvidas sobre a obrigação da Igreja de denunciar os abusos.

Como disse o cardeal Reinhard Marx, de Munique, Alemanha, naquilo que equivale a um grande candidato para o eufemismo da vida católica recente: "O trabalho de lidar com a crise dos abusos está longe do fim".

No entanto, assim que o Vaticano assume uma posição plena, decidida e fechada sobre uma questão, ele geralmente estimula os bispos e outras lideranças da Igreja ao redor do mundo a entrar em ação.

Monsenhor Stephen Rossetti, ex-diretor do St. Luke's Institute, em Silver Spring, Maryland, fez uma avaliação sóbria, mas otimista em última análise, do que essa evolução prognostica.

A Igreja Católica se move lentamente, disse ele, e, para aqueles que sofreram e que continuam sofrendo como resultado das falhas da Igreja, esse é um "triste estado das coisas". No entanto, assim que a Igreja dobra a esquina, argumentou Rossetti, sua força é basicamente irresistível.

"Quando a Igreja finalmente perceber isso, e eu acho que está começando a perceber, ela será uma força poderosa para a mudança".

* * *

Sobre a questão das coisas que estiveram em foco esta semana, parece cada vez mais claro que a próxima fronteira para os reformadores provavelmente será a responsabilização episcopal, ou seja, a disciplina para os bispos que falham ao implementar as políticas de combate ao abusos.

Pistas desse movimento estiveram no ar. Nos últimos meses, entrevistei alguns dos maiores nomes da Conferência dos Bispos dos EUA, incluindo o cardeal Francis George, de Chicago, o futuro cardeal de Nova York, Timothy Dolan, e o arcebispo Charles Chaput, da Filadélfia, todos os quais disseram que apoiariam novos mecanismos para responsabilizar os bispos.

Suas posições refletem uma verdade básica: ninguém está mais frustrado quando um colapso de alto nível ocorre – como aqueles dos Estados Unidos, tanto na Filadélfia, quanto em Kansas City, Missouri – do que os bispos que trabalharam duro para fazer as coisas direito. Eles sabem que um fracasso desse tipo em um lugar põe em xeque a integridade do esforço de todos, incluindo o seu próprio.

Isso foi aludido novamente em uma entrevista com o bispo Daniel Conlon, de Joliet, Illinois, que preside a Comissão para a Proteção às Crianças e Jovens da Conferência dos Bispos dos EUA. Ele chamou o debate acerca da responsabilização de "uma questão e uma preocupação legítimas", acrescentando que algum novo mecanismo para supervisionar os bispos "pode ser um passo que deva ser tomado".

A cúpula foi um lembrete de como a questão é visceral a partir das observações feitas pela leiga Marie Collins, da Irlanda, a única vítima a discursar no encontro.

"Desculpar-se pelas ações dos padres abusadores não é suficiente", disse ela. "Deve haver reconhecimento e responsabilização pelos danos e pela destruição que tem foram feitos à vida das vítimas e de suas famílias, pelo acobertamento muitas vezes deliberado e pelos maus tratos dados aos casos pelos seus superiores, antes que eu ou outras vítimas possamos encontrar a verdadeira paz e cura".

Uma linguagem igualmente forte foi usada dentro do próprio Vaticano, na forma dos comentários de Sciculna aos repórteres.

Scicluna disse sem rodeios que é simplesmente "inaceitável" que os bispos ignorem os protocolos antiabusos estabelecidos pelo Vaticano ou por suas conferências episcopais. Ele disse que a Igreja na Irlanda, para citar um exemplo, "pagou um preço muito alto pelos erros de alguns de seus pastores".

Scicluna disse que já existem disposições na lei da Igreja para sancionar os bispos por "negligência e malícia no exercício de seus deveres", sugerindo que essa disposição deveria ser aplicada mais vigorosamente (ele parecia estar se referindo ao cânone 128 do Código de Direito Canônico, que diz: "Quem ilegitimamente causar dano a outrem com um ato jurídico, e mesmo com qualquer outro ato realizado com dolo ou culpa, tem obrigação de reparar o dano causado").

Scicluna também observou que, quando o direito canônico especifica as penalidades que podem ser impostas sobre o "clero", isso inclui bispos assim como padres e diáconos – embora, segundo ele, o fato de também se aplicar aos bispos é "ignorado" às vezes.

"A responsabilização eclesial deve ser mais desenvolvida", disse ele. "Eu concordo com vocês acerca disso".

Simplesmente falar sobre responsabilização, é claro, não resolve. Ela precisa ser cumprida, e ainda resta saber se as sanções canônicas às quais Scicluna se referiu serão exercidas de alguma forma visível e eficaz.

No entanto, em assuntos católicos, a capacidade de dizer em voz alta que algo é possível, muitas vezes, é o primeiro passo para realmente fazê-lo. Com relação a uma maior responsabilização episcopal, parece seguro dizer que a página retórica já foi virada.

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