Conjuntura da Semana. Crise política amplia derrotas do movimento social

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29 Maio 2011

A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das "Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU.   A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos - IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT - com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Sumário:

Crise política e derrotas do movimento social
- Código Florestal. Bancada ruralista comemora
- Forças políticas. Concepções, ideologia e pragmatismo
- Kit anti-homofobia. Recuo causa perplexidade
- Governo em crise se torna presa fácil dos lobbies
- Lula entra em cena
Conjuntura da Semana em frases

Eis a análise.

Crise política e derrotas do movimento social

O movimento social acumulou duas derrotas na semana que se encerrou. Na mesma semana presenciou a derrota na votação do Código Florestal e assistiu ao recuo do governo na política de combate a homofobia.  Na mesma semana ainda, o movimento social recebeu a notícia do assassinato do casal José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo que lutava contra a devastação florestal e a exploração ilegal de madeira no entorno da comunidade de Maçaranduba, município de Nova Ipixuna, sudeste do Pará.

Como bem destacou o Greenpeace, no dia 25 de maio, o Brasil acordou de luto. "Luto duplo: pela morte de Zé Cláudio e pelo fim da proteção das florestas". Foi uma semana de derrotas em temas importantes: ambiental e de gênero. Derrotas dos novos movimentos sociais que tem protagonizado e postado nessa virada de século novas agendas e novas lutas sociais.

As derrotas do movimento social articulam-se com a crise política que envolve o governo de Dilma Rousseff. As derrotas na votação do Código Florestal e no recuo ao combate a homofobia se deram em um contexto de crise tendo como epicentro as denúncias contra o ministro da Casa Civil Antonio Palocci.

Setores conservadores como a bancada ruralista e a bancada evangélica usaram a crise envolvendo Palocci como "moeda de troca" para avançar em seus interesses corporativos.

A semana foi difícil também para Dilma Rousseff que enfrenta o seu pior momento desde que assumiu. A situação se agravou com a sua ausência no debate sobre as polêmicas. A distância da presidenta teria sido  motivada, em parte, por problemas de saúde, são poucas as informações sobre a real situação de sua saúde.

Por outro lado, a entrada e intervenção de Lula na conjuntura nacional, também é ruim para Dilma. Passou a imagem de uma presidenta fraca, sem força de reação e articulação. Quatro meses depois de deixar o poder, Lula reaparece para "tomar as rédeas" do descontrole do governo em contornar a crise.

Somente após a aparição de Lula por Brasília e após conversa com o ex-presidente, Dilma tomou a iniciativa de aproximar-se da imprensa para comentar as denúncias envolvendo Palocci, a votação do Código Florestal e a desistência do governo em encaminhar para as escolas públicas o chamado kit anti-homofobia.

A crise política talvez não tenha sido decisiva para as derrotas do movimento social, mas certamente contribuiu. A crise revela também que com o governo fragilizado aumenta o poder de barganha dos grupos corporativos.

Código Florestal. Bancada ruralista comemora

A derrota na votação do Código florestal se confirmou. A vitória dos ruralistas foi ainda maior do previsto, como se pode observar na comemoração da senadora e presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária - CNA Kátia Abreu. Segundo ela, "o texto traz avanços enormes".

O mesmo texto da reforma do Código Florestal que Kátia Abreu considera um avanço, o movimento ambientalista considera um desastre. Segundo Paulo Adário, diretor da Campanha Amazônia do Greenpeace, "o texto é um desastre para o Brasil". Segundo ele, "numa visão geral, o texto reduz a proteção ambiental no país todo".

Na opinião do advogado Raul Silva Telles do Valle do Instituto Socioambiental - ISA, "o texto é recheado de "pegadinhas’, que tornam o novo Código, na verdade, um retrocesso. Seria, sob o ponto de vista do desenvolvimento sustentável, pior do que a legislação atual, de 1965". Segundo ele, "nossas florestas vão estar menos protegidas do que em 1934, quando foi aprovado o primeiro código florestal brasileiro".

O advogado do ISA cita a inclusão da expressão "atividades agrossilvopastoris", que permite, por exemplo, se plantar cana, eucalipto ou se criar gado nas chamadas Áreas de Preservação Permanente, as APPs, que são topos de morro, margens de rio e estão no centro da controvérsia sobre o Código. Raul Valle considera que, na prática, a emenda extingue as APPs no país.

Na opinião do movimento ambientalista Greenpeace,  "o projeto que passou na Câmara produziu o milagre de transformar uma legislação escrita para defender as florestas brasileiras em lei de incentivo à expansão desenfreada da agricultura e da pecuária. Ele premia o desmatamento, propondo a anistia a desmatadores, e incentiva a expansão sobre o que resta ao Brasil de matas nativas, reduzindo as exigências para que fazendas mantenham um percentual de seus terrenos com vegetação original e enfraquecendo a capacidade do governo central de gerir o patrimônio ambiental brasileiro".

O Greenpeace chama a atenção ainda para o fato de que com a aprovação do novo Código Florestal, "compromissos internacionais do Brasil estão ameaçados". Na análise da organização ambientalista, a reforma do Código "põe em dúvida a capacidade do Brasil de manter seus compromissos de redução de emissões de gases do efeito-estufa assumidos durante a conferência  do clima de Copenhague, em dezembro de 2009".

O Greenpeace alerta que a decisão dos deputados de atropelar os compromissos do governo federal colocam em questão a credibilidade do país para sediar, no ano que vem, a Rio + 20.  "A capacidade do Brasil de liderar uma ação global contra o desmatamento e as mudanças climáticas está sob sérias dúvidas", diz Paulo Adario.  "Se Dilma não agir para influenciar as decisões do Congresso no sentido de manter a proteção à nossa biodiversidade, seu governo terá sucumbido aos interesses do agronegócio, comprometendo a posição internacional do país". A esse propósito, comentou Rubens Ricupero, ex-ministro do Meio Ambiente ex-diretor geral da UNCTAD: "Aprovar o texto dará um argumento extraordinário para países que defenderão que a nossa agricultura só é capaz de concorrer por uma razão desleal, por atentar contra a biodiversidade".

À péssima repercussão internacional da aprovação do Código Floresta somou-se na mesma semana, a notícias do assassinato do casal de extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, um casal que lutava contra a devastação florestal e a exploração ilegal de madeira no entorno da comunidade de Maçaranduba, sudeste do Pará. A Comissão da Pastoral da Terra – CPT, destaca que "esta é mais uma das ações do agrobanditismo e mais uma das mortes anunciadas. O casal já vinha recebendo ameaças de morte. O nome deles constava da lista de ameaçados de morte registrada e divulgada pela CPT".

O retalhamento do Código Florestal e o assassinato dos ambientalistas repercutiram internacionalmente. Segundo a jornalista Daniela Chiaretti, "a leitura da imprensa internacional é a pior possível. Jornais e sites noticiaram o assassinato do líder extrativista José Claudio Ribeiro da Silva e de sua mulher Maria do Espírito Santo, mortos na terça em uma emboscada no Pará, e citaram a votação do Código Florestal. Alguns textos listam os ativistas, juízes, padres, freiras e trabalhadores rurais assassinados na Amazônia e relacionam os crimes aos agentes do desmatamento".

Retomando o debate sobre o Código Florestal, dentre os pontos que mais irritaram o movimento ambientalista e o próprio governo encontra-se a anistia aos desmatadores. Por 273 votos a favor, 182 contra e 2 abstenções foi aprovado com o apoio de boa parte da base governista, a inclusão no Código de concessão de anistia aos produtores que desmataram Áreas de Preservação Permanente (APPs) às margens dos rios e encostas até 2008. A presidente Dilma considera essa emenda uma vergonha para o Brasil e deve vetar se não for alterada pelo Senado.

A irritação aumentou ainda mais na medida em que ficou evidente que o aumento do ritmo desmatamento na Amazônia nas últimas semanas se relaciona com as expectativas da reforma do Código Florestal. Ofício assinado pelo secretário do Meio Ambiente de Mato Grosso, Alexander Torres Maia, relata que o Código Florestal criou a expectativa entre proprietários de terra de que não seriam concedidas novas autorizações para desmatamento. Outra expectativa criada foi de que os responsáveis seriam anistiados. "Não há como negar a forte vinculação entre o desmatamento e os processos de discussão da legislação ambiental", diz o ofício.

A anistia a desmatadores e a flexibilização das regras para que os Estados participem de regularização ambiental podem ser alteradas no Senado, onde o governo tem maioria mais sólida. É o que vem indicando o governo: "É evidente que não ficamos satisfeitos com a votação final do código. Mas não jogamos a toalha", disse o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho.

Forças políticas. Concepções, ideologia e pragmatismo

A votação do Código Florestal é ainda ilustrativa de como agem as forças políticas no Congresso e a partir de que interesses e concepções ideológicas. Na análise de Fabiano Santos, cientista político e professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, "o caso do conflito em torno da votação do novo Código Florestal é ainda mais rico naquilo que expressa a lógica implacável da política brasileira contemporânea".

A votação da flexibilização do Código Florestal permitiu uma aliança considerada absurda por muitos como a que ocorreu entre o PCdoB e o DEM. Na opinião de Fabiano Santos, "a essência da atuação do PCdoB é clara e evidente: preservar a soberania nacional sobre o solo pátrio, permitindo aos setores do capital e do trabalho boas condições de utilização de nossos recursos na geração de riqueza. A coalizão com os ruralistas vem daí". A concepção marxista do PCdoB aproxima-se dessa forma do liberalismo do DEM – ambos fundamentam-se numa racionalidade produtivista que vêem a natureza como fonte de crescimento econômico.

É nessa perspectiva que se entende os ataques de Aldo Rebelo (PCdoB) ao movimento ambientalista. Segundo o deputado comunista, "o lobby ambientalista internacional instalado no Brasil se habituou durante 20 anos a usurpar o direito da Câmara de legislar". O deputado acusou parte dos pesquisadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC de serem financiados por organizações como Greenpeace e WWF.

Na opinião de Carlos Eduardo Young, economista da UFRJ, a argumentação do PCdoB e de ruralistas de que as mudanças no Código Florestal permitirão mais desenvolvimento é falaciosa. Segundo ele, "as evidências vão em sentido contrário". Para o economista, "a análise combinada dos dados de desmatamento e dos censos agropecuário e demográfico prova que o Índice de Desenvolvimento Humano não aumenta com mais desmate. O Brasil possui uma imensa riqueza florestal. Usar esses recursos no longo prazo, lembrando que os ativos naturais estão cada vez mais valorizados no tempo, é uma estratégia mais correta do que destruí-los em troca de retornos de curto prazo", afirma.

Curiosa é a posição do PT na votação do Código Florestal. O PT dividiu-se na votação do Código – dos 80 petistas, 35 votaram contra. O cientista político Fabiano Santos, tendo como referência o PT, diz que "não é exagero dizer que o governo de Lula promove o encontro do PT com a questão nacional ao formular estratégia de expansão do capitalismo brasileiro em bases mais humanas e organizadas do que aquelas que observamos durante o período militar e até mesmo durante o desenvolvimentismo".

Nesta perspectiva, PT e PCdoB não estariam distantes um do outro. A posição do PT refratária às reformas e parte dele em apoio as posições do movimento social, se explicaria segundo o cientista político pela necessidade do PT recompor sua base eleitoral da classe média, principalmente em São Paulo. Diz ele:  "A questão nacional para o PT pós-Lula transforma-se unicamente na perspectiva de derrotar os tucanos em solo bandeirante. Aqui entra então o endurecimento na negociação do Código Florestal. O que vemos, na verdade, é a tentativa de resgatar para o seio do partido parcelas da classe média perdida e que dão o voto de minerva em eleitorados como o de São Paulo. Se o namoro com os verdes e com os eleitores de Marina Silva adquire agora inteligibilidade, nada mais longe dos interesses envoltos na expansão do capitalismo brasileiro e das possibilidades de aprofundamento de uma agenda trabalhista. Namoro que na ótica da esquerda nacionalista significa tão somente recepcionar uma agenda ecológica de inspiração exógena" destaca Fabiano Santos.

A posição de contrariedade de Dilma Rousseff ao que foi aprovado no Código Florestal, em que pese sua postura nacionalista e desenvolvimentista, também poderia estar sendo influenciado por esta visão pragmatica político-eleitoral. Nessa análise, a possibilidade de veto de parte do Código dependendo do que saia do Senado poderia se configuar em um aceno da presidente à classe média urbana, uma parcela crescente do eleitorado com preocupações ambientais, e com a qual a presidente conta para uma eventual reeleição em 2014.  "Eu não sou a favor da consolidação dos desmatamentos, da anistia aos desmatamentos", disse a presidente em seu primeiro contato com a imprensa pós votação do Código.

O PMDB – de composição fragmentada – por sua vez, teria se aproveitado da votação do Código para manifestar todo o seu descontentamento com o governo. Quem fez o alerta é Lula que em sua passagem por Brasília teria colhido queixas e críticas ao fato de a presidente ter descuidado da relação com o Congresso. Segundo a imprensa, ao pedir a opinião dos líderes sobre a administração Dilma, Lula ouviu queixas unânimes de que não há articulação política e que a relação com o Congresso está negligenciada pelo governo.

Kit anti-homofobia. Recuo causa perplexidade

Outra derrota do movimento social na semana foi o recuo do governo no combate à homofobia. O kit homofobia, como vem sendo chamado, foi elaborado por entidades de defesa dos direitos humanos e da população LGBT – lésbicas, gays, bissexuais e travestis, a partir do diagnóstico de que falta material adequado e preparo dos professores para tratar do tema.

O material – formado por vídeos, guia de orientação para o professor e cartilhas – que recebeu o aval Unesco e do Conselho Federal de Psicologia foi suspenso pelo Ministério da Educação. A decisão partiu do governo após forte pressão das bancadas católicas e evangélicas. Na cidade de Curitiba – bastião do conservadorismo nacional – a Marcha para Jesus, organizadas pelas igrejas evangélicas neopentecostais já havia protestado conta o kit anti-homofobia.

A justificativa da presidenta foi evasiva: Dilma disse que não gostou do conteúdo de alguns materiais que seriam enviados às escolas. "O governo defende a educação e também a luta contra práticas homofóbicas. No entanto, não vai ser permitido a nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais", disse ela.

As últimas notícias dão conta de que uma frase que consta em um dos vídeos do kit anti-homofobia foi uma das razões que levou a presidente Dilma Rousseff a pedir a suspensão do material. O vídeo em questão, denominado Probabilidade, trata do tema bissexualidade e tem as seguintes declarações: "Gostando dos dois (garotos e garotas), a probabilidade de encontrar alguém por quem sentisse atração era quase 50% maior" e "Tinha duas vezes mais chance de encontrar alguém". O ministro da Educação Fernando Haddad, disse concordar com a posição da presidente. "Isso não tem a ver com probabilidade. Ela (Dilma) disse que (a frase) é inadequada porque sugere que é uma coisa boa e nós não estamos entrando no mérito disso", disse. "Estamos dizendo que as pessoas têm direito e não podem ser discriminadas".

As entidades que defendem os direitos dos homossexuais reagiram com "perplexidade", "consternação" e "indignação" à decisão do governo de suspender a distribuição do material nas escolas. Em nota, a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT, que reúne 237 organizações, e as associações de lésbicas, transexuais e travestis dizem que a ação macula a imagem internacional do país sobre direitos humanos e fere o Estado laico.

O texto também critica a ascendência da bancada religiosa sobre o governo. "Um princípio básico do Estado republicano está sendo ameaçado pela chantagem praticada hoje contra o governo federal pela bancada religiosa fundamentalista e seus apoiadores no Congresso Nacional", diz o texto.

O recuo do governo supreendeu, sobretudo porque se deu dias após a decisão do Supremo Tribunal Federal – STF reconhecer por unanimidade que uniões homoafetiva passam a ser tratadas como um tipo de família.

O ministro Carlos Ayres Britto, relator da ação que resultou na equiparação dos direitos ao dos casais homossexuais com os casais heterossexuais, disse, ao final da sessão do STF, que partir de agora "todos os direitos dos heterossexuais valem para os homossexuais. A equiparação é completa". Homossexuais passam a ter direito de receber pensão alimentícia, herança e serem incluídos em plano de saúde do companheiro, além de poder adotar filhos, fazer inseminação e registrá-los em seu nome.

A decisão foi considerada histórica pela comunidade LGBT. O presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais – ABLGT, Tony Reis, definiu a votação do STF como uma conquista da cidadania. "É um momento de muito alegria de perceber que a justiça esta sendo feita. Isso pra gente nos dá uma segurança juridica como cidadãos. Ninguém está saindo com vitória ou derrota. É o Brasil que ganha", destacou. É nesse contexto que o recuo do governo sobre o "kit homofobia’ surpreendeu.

Governo em crise se torna presa fácil dos lobbies

A derrota do governo na votação do código florestal e o recuo no caso "kit homofobia’, compreendem-se melhor a partir da crise política que vive o governo envolvendo um dos seus principais ministros, Antonio Palocci. A preservação de Palocci foi utilizada pelas bancadas ruralista e evangélica como "moeda de troca" para atingir os seus objetivos. Palocci, um dos principais articuladores do Planalto nocauteado pelas denúncias, tornou-se presa fácil nas mãos dessas bancadas.

As notícias da imprensa e dos movimentos sociais que acompanham a crise dão conta de que o governo aceitou votar e fazer concessões no Código Florestal para evitar a convocação de Palocci no Congresso. O mesmo aconteceu no caso do "kit homofobia’.

O deputado Anthony Garotinho, articulador da banca evangélica afirmou que uma reunião dos evangélicos resultou em três decisões caso o governo não recuasse na sua campanha contra a homofobia: colaborar para que o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, fosse convocado para depor sobre sua evolução patrimonial; obstruir as votações na Câmara dos Deputados e apresentar o pedido de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar a contratação organizações não governamentais (ONGs) pelo Ministério da Educação (MEC).

O parlamentar disse que as medidas foram suspensas depois da reunião como o ministro Gilberto Carvalho. "O ministro nos telefonou e pediu que fizéssemos uma intervenção com as bancadas católica e evangélica para que não levássemos adiante o que deliberamos ontem após o ministro [Haddad] ter descumprido sua palavra", disse o deputado. "Em reunião com Gilberto Carvalho, deputados evangélicos pediram a cabeça de Haddad, e ouviram do secretário-geral: "Como cristãos, vocês precisam perdoar o ministro". Resposta: "Perdoamos, mas ele tem que se retratar!".

No dia seguinte a governo suspendeu o projeto de distribuição do "kit anti-homofobia’ para escolas. Julio Moreira, do Grupo Arco-Íris, protestou: "É um tremendo retrocesso para as políticas públicas o projeto ser usado como moeda de troca com setores mais conservadores", disse. "Tempo das trevas!", afirmou Maria do Pilar Lacerda, secretária de Educação Básica do MEC, cometando, no Twitter, a decisão da presidenta de retirar o kit-antihomofóbico.

Lula entra em cena

Com o articulador político do governo junto ao Congresso enfraquecido e Dilma "ausente" dos embates, quem entrou em cena foi Lula.

Registre-se que os problemas de saúde de Dilma não está claro. Dilma nas últimas semanas cancelou reuniões e viagens internacionais – Paraguai e Uruguai em função da saúde. Sobre isso comenta o experiente jornalista Elio Gaspari:  "Tudo ficaria melhor se um assunto desse tamanho (a saúde da presidente Dilma) fosse administrado publicamente, com médicos que só falam de medicina, em notas oficiais (responsabilizando-se profissionalmente), e por autoridades da Presidência da República que, de medicina, não falam. Assim, protegem-se os médicos, o governo e, sobretudo, os pacientes".

Com as dificuldades de Dilma, o ex-presidente Lula depois de menos cinco meses ressurgiu no centro do debate político do país. Calejado e experiente em crises políticos, passou a dar conselhos. "Ele tem olfato", destacou 
um PhD em Lula, sobre a intensa atividade política do ex-presidente em Brasília. "Estão testando a Dilma. Se tirar o Palocci, o governo dela vai se arrastar até o final", teria dito Lula aos senadores petistas.

A entrada de Lula na articulação política do governo Dilma servirá, na opinião dos aliados, para "politizar o Planalto", algo que não ocorreu ao longo dos primeiros cinco meses do governo Dilma. Na opinião de auxiliares da presidente, não existe nenhum problema em Dilma tentar imprimir uma marca administrativa e de gestão em seu mandato - até mesmo como uma forma de diferenciá-la do seu antecessor. Mas governar é também fazer política, lembram.

A entrada de Lula em cena teria produzido resultados. A presidente passou a falar mais com a imprensa, saiu a público para defender o  ministro Antonio Palocci, reagiu à votação do Código Florestal anunciando veto à Emenda 164, que consolida ocupação de margens de rio e comunicou a desistência do governo em encaminhar para as escolas públicas o chamado kit anti-homofobia. Além falar sobre os temas polêmicos, a presidente recebeu em almoço, no Palácio da Alvorada, a bancada do PT no Senado, disposta a melhorar a relação com a base aliada no Congresso.

A reação do governo não superou a crise Palocci que deverá se estender por muito tempo. Nada garante a permanência do ministro. Especula-se quem teria interesse na queda do ministro. Notícias dão conta que o Planalto identifica interesse petista na crise. O enfraquecimento de Palocci interessaria mais a setores do PT do que a outros aliados. Esses setores, seriam identificados com os grupos dos deputados João Paulo Cunha (SP) e Ricardo Berzoini (SP) e com o ex-ministro José Dirceu, teriam perdido espaço no governo com a eleição de Dilma. Ao formar sua equipe, a presidente diminuiu de forma sensível a presença de petistas ligados a esses grupos. Demitiu-os, por exemplo, da cúpula do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.

Por essa análise, o enfraquecimento ou a saída de Palocci do governo obrigaria a presidente, segundo assessores, a compor com os setores do partido insatisfeitos com o tamanho de sua presença na máquina estatal. "Não é o PMDB que ganha com o enfraquecimento de Palocci, mas o PT. A relação dos pemedebistas com o ministro é excelente", conta um assessor graduado do governo, segundo reportagem do jornalista Cristiano Romero.

A tese de que o poder de Palocci se deve a sua umbilical relação com o mercado financeiro é relativizada pelo jornalista Vinícius Torres Freire. Segundo ele, "a renovada embora ingrata fama de Antonio Palocci suscitou comentários ficcionais sobre os poderes do ministro da Casa Civil e sobre o seu papel de representante das preocupações do "PIB’ (grande capital) e da "racionalidade econômica’".

Pergunta ele: "Qual a influência real do ministro, em particular depois da primeira queda (caso do caseiro) e no governo Dilma"? O jornalista relativiza o poder de Palocci afirmando que, "a política de controle da inflação é heterodoxa (...) Dilma quer tocar obras paraestatais gigantescas como o trem-bala. Quer promover o crescimento de estatais como Correios e Eletrobras. Quase matou a privatização dos aeroportos. Vai promover um serviço semiestatal de difusão da internet. Segue e aprofunda o programa luliano de integração empresa-Estado em grandes negócios (...) Empreiteiras, petroquímicas, algumas teles, frigoríficos, alguns bancos médios restantes, por exemplo, parecem aceitar de bom grado a sociedade estatal ou paraestatal".

O jornalista conclui: "Forte, Palocci poderia ter o papel de "oposição da casa", contida, em matéria de economia, talvez como inspirador de uma ou outra mudança que incrementasse a eficiência da economia. Caso a política econômica naufragasse, poderia virar "sombra" na área. Agora, está radioativo demais, terá de ficar de quarentena e, mesmo saindo vivo do tiroteio, estará avariado, sempre sob a ameaça de vazamentos extras de papelada comprometedora".

Conjuntura da Semana em frases

Balanço

"Código Florestal, assassinato de ambientalistas, crise na base, protagonismos extemporâneos... a semana não termina bem!" - Delcídio Amaral,  senador - PT-MS - Folha de S. Paulo, 28-05-2011.

Chama a atenção!

"Se foi ganho dentro de um trabalho normal, é mérito dele (Antonio Palocci), mas chama a atenção, em um ano de consultoria, ganhar R$ 20 milhões. Todo mundo se surpreende, porque é um rendimento muito grande. Chama a atenção, como chamou a atenção o apartamento dele" - Jaques Wagner, governador da Bahia – PT – Folha de S. Paulo, 28-05-2011.

Tráfico de influência

"Trata-se evidentemente de um caso clássico de tráfico de influência. Palocci pode até não tê-lo praticado, mas que as empresas queriam usar os contatos dele no governo para obter facilidades e/ou negócios, só o mais tolo dos tolos pode duvidar" – Clóvis Rossi, jornalista – Folha de S. Paulo, 22-05-2011.

Complô?

"Não tem nada de complô. Ele simplesmente não se emenda, não aprende. Imagine você numa situação dessas, faz todo tipo de estripulia e, na véspera de assumir uma posição central, ainda compra um apartamento de R$ 6,6 milhões. Palocci perdeu o pudor, acha que pode tudo. É um misto de arrogância com certo amadorismo" - Lucia Hippolito,  cientista política – Zero Hora, 22-05-2011.

Meu Deus!

"Meu Deus do céu, se você for selecionar empresas no Brasil que têm negócios com o governo vai observar que são praticamente todas" - Gilberto Carvalho, ministro do governo Dilma - O Estado de S. Paulo, 21-05-2011.

"Nós vamos dar toda a força para Palocci enfrentar essa luta. É claro que há desgaste e temos preocupação com os desdobramentos, mas a recomendação é para que ninguém pare de trabalhar" - Gilberto Carvalho, ministro do governo Dilma - O Estado de S. Paulo, 21-05-2011.

Contaminação

"Apesar de a declaração ter sido recebida em toda a blogosfera como "defesa", digamos que defender mesmo, no duro, Dilma defendeu o ministro da Fazenda. No caso do chefe da Casa Civil, ela foi protocolar, evasiva, cuidadosa. A presidente não quis se contaminar com uma crise que tratou como "dele", não do governo e muito menos dela" – Eliane Cantanhêde,  jornalista – Folha de S. Paulo, 27-05-2011.

Darling

"O establishment não quer a queda de seu "darling". Palocci é o homem que faz a interlocução com o mercado, o articulador político, o eixo de gravidade e o selo de garantia do governo" - Fernando de Barros e Silva,  jornalista – Folha de S. Paulo, 25-05-2011.

Sagacidade

"A julgar pela deterioração da situação política na semana, o caso Palocci não irá embora tão cedo. Na hipótese de agravar-se, quem tem mais a perder não é o ministro, mas Dilma -como parece ter intuído, rapidamente, o sempre sagaz ex-presidente Lula" – editorial  "Lula e Dilma" – Folha de S. Paulo, 28-05-2011.

Hiper, hipo, hiper

"E então é isto: o patrimônio do Palocci sofre de hipertireoidismo, o Ronaldo sofre de hipopotismo e o Sarney de hipernepotismo!" - José Simão, humorista - Folha de S. Paulo, 27-05-2011.

A pior

"É a pior formulação florestal da História do Brasil. As implicações são devastadoras. Está aberta a porta para novos desmatamentos" - Marcio Santilli, coordenador de Política e de Direito do Instituto Socioambiental (ISA) - Valor, 26-05-2011.

Inacreditável

"É inacreditável. Todo mundo perde com o que aconteceu. Foi um dia de vergonha" - Carlos Rittl, coordenador do programa de mudanças climáticas e energia do WWF - Valor, 26-05-2011.

Espeto

"Cara, vamos votar de uma vez! Logo, logo vai faltar boi para o churrasco" - deputado petista convencendo um colega de bancada da necessidade de aprovar sem demora o código - Folha de S. Paulo, 25-05-2011.

Foice e o martelo?

"Aldo conseguiu a proeza de modernizar o PC do B levando a motosserra à bandeira do partido, no lugar da foice do martelo" - Domingos Dutra, deputado federal - PT-MA - Folha de S. Paulo, 25-05-2011.

Homofobia

"Do mesmo jeito que a escola desenvolve conteúdo de educação para o tráfico, para o trânsito, precisa ter um material de combate à homofobia" - Silvia Colello, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) -  O Estado de S. Paulo, 27-05-2011.

"Não dá para o Estado se colocar na posição de pai, tatando o povo como filho imaturo. Não é seu papel influir na cultura de um povo e dizer que tem a verdade, independentemente de qual seja ela" - Ari Rehfeld, psicoterapeuta e professor da Faculdade de Psicologia da PUC - O Estado de S. Paulo, 27-05-2011.

Balança

"Ontem,  o pai da vítima (Sandra Gomide, assassinada em agosto de 2000, pelo jornalista Pimenta Neves) dizia: "A Justiça no Brasil não funciona como balança. Me senti na parte de baixo da balança desequilibrada. Quem tem dinheiro está em cima". Algum magistrado se oferece para contestá-lo?" – Fernando de Barros e Silva, jornalista – Folha de S. Paulo, 28-05-2011.

Classe média

"O que caracteriza o espírito da classe média é pensar mais de si mesma do que ela é. Já que não tem nada, mas não morre de fome, fabrica de si mesma uma história de grandeza que não existe" - Luiz Felipe Pondé,  professor de filosofia – Folha de S. Paulo, 23-05-2011.

Ruazinha

"Nada mais típico do espírito da classe média do que citar um restaurante numa ruazinha em Paris para mostrar que conhece a cidade" - Luiz Felipe Pondé, professor de filosofia – Folha de S. Paulo, 23-05-2011.

Avareza espiritual

"A classe média adora ter uma família de pobres como "amigos" para exibir por aí. Enfim, a classe média sofre de vareza espiritual" - Luiz Felipe Pondé,  professor de filosofia – Folha de S. Paulo, 23-05-2011.

Peido

"Eu nunca serei mais engraçado do que o peido. Ninguém será. Nunca" – Rafinha Bastos, da equipe do CQC – O Estado de S. Paulo, 23-05-2011.

"Não sou diferente. SOU SENSACIONAL... apenas isso. O trabalho que faço na web me orgulha muito. Tenho seguidores muito antes de existir o Twitter e até mesmo o YouTube. Sinto que este link honesto com o meu público é o que me levou a ganhar o tal título de mais influente do mundo no Twitter pelo NY Times" – Rafinha Bastos, da equipe do CQC – O Estado de S. Paulo, 23-05-2011.

20 vezes!

"Uma amiga minha disse que o marido dela tá igual ao Palofi: em quatro anos a barriga aumentou 20 vezes!" – José Simão,  humorista – Folha de S. Paulo, 25-05-2011.

Nota 10

"Tiririca vai pedir revisão de prova àquele promotor que duvidava de seus conhecimentos da língua portuguesa. Está certo de que, pelas novas normas gramaticais adotadas pelo MEC, dificilmente o Ministério Público encontrará erros em seu texto" - Tutty Vasques,  humorista - O Estado de S. Paulo, 22-05-2011.

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Instituto Humanitas Unisinos - IHU - Conjuntura da Semana. Crise política amplia derrotas do movimento social