O que a dor nos ensina. Artigo de Corrado Augias

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25 Novembro 2020

"Eis como esses 50.000 mortos na Itália (No Brasil já são de 170 mil - Nota do Instituto Humanitas Unisinos - IHU), sem mais olhos nem voz podem nos ajudar: fazer com que entendamos realmente o que está acontecendo, qual é o lugar de cada um de nós", escreve Corrado Augias, jornalista, escritor italiano e ex-deputado do Parlamento Europeu, em artigo publicado por La Repubblica, 24-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Pois bem, ultrapassamos o limiar de 50.000 mortes de Covid, um número impressionante, digno de grandes catástrofes, de batalhas oitocentistas, mais que o dobro de Austerlitz, uma planície imensa coberta de cadáveres. Como devemos avaliar esse número, além da obrigatória piedade humana, o que devemos fazer com ele, que benefício coletivo estes 50 mil de nossos compatriotas sem mais olhos nem voz ainda podem dar a nós, sobreviventes? As possíveis culpas do governo, dos gestores locais, de todos nós, da nossa imprudência, do desejo de nos comportarmos como se a praga não existisse, se chocam com esse número.

A única verdadeira culpa, a maior, é não perceber que o vírus está à espreita entre nós e que pretender normalidade em uma situação tão anormal e doente é imperdoável. Nem quero falar dos negacionistas, dos que falam de ambulâncias vazias com sirenes ululantes para apavorar os mais assustados - pura maldosa estupidez.

Falo de todos nós, tentados a esquecer as circunstâncias em que nos encontramos porque prejudicam os nossos hábitos consolidados, os pequenos ou grandes confortos que uma civilização como a nossa, entre inúmeras carências, concedeu a um número de pessoas de dimensões nunca alcançadas por nenhuma cultura anterior. Somos nós, sonâmbulos despreocupados, os melhores aliados da praga, aqueles que tiram a máscara porque incomoda, aqueles que se abraçam porque os abraços nos alegram. Quando o flagelo explodiu na primavera passada, gritamos feito doidos dois slogans até das varandas. O primeiro era "tudo vai ficar bem".

Uma frase certa para se dizer, o golpe havia sido duro, era preciso ter coragem, ter confiança porque coragem e confiança poderiam ajudar a encontrar uma saída - assim foi. Junto com o slogan da coragem, havia outro: "Sairemos mudados da epidemia". De repente, parecia que os italianos haviam se tornado um povo disciplinado onde todos (a maioria) se comportavam como se estivessem cientes da própria responsabilidade para com os outros. O primeiro slogan estava certo, o segundo era ilusório. Não era um sentido de responsabilidade, mas sim de medo; de fato, com o primeiro sol de verão e a redução da curva dos contágios o medo acabou, jantares, festas, discotecas retomaram seu lugar e também o dinheiro que a sociabilidade põe para circular.

O dinheiro é importante, muito importante, mas a vida vem primeiro, os mortos não se gastam. Na Suíça, as pessoas se perguntam o que fazer quando as internações excedem a capacidade de atendimento dos hospitais, escolhas difíceis desde os tempos de guerra; nos Estados Unidos o número de mortes impõe valas comuns como no século XVIII, quem no Natal de 2019, há apenas um ano, nos tivesse dito que em poucos meses teríamos nos encontrado fazendo essas escolhas, teria sido tratado como um agourento ou um louco. Em vez disso, é assim que as coisas estão indo, a vida de cada um ou de um povo, pode mudar repentinamente, apresentando a conta de circunstâncias inesperadas. Perguntar hoje se daqui a um mês poderemos ou não fazer a ceia de Natal, se poderemos soprar trombetas para soltar um pew-pew é uma pergunta complicada diante de 50.000 vítimas e das outras que podem vir a se somar.

Eis como esses 50.000 mortos sem mais olhos nem voz podem nos ajudar: fazer com que entendamos realmente o que está acontecendo, qual é o lugar de cada um de nós.

 

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