Papa Francisco, a rede EWTN e as mídias católicas. Editorial do The Pillar

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23 Setembro 2021

 

“O The Pillar, via de regra, não publica editoriais – reservamos a expressão das nossas opiniões aos nossos boletins informativos bissemanais. Mas os comentários do Papa Francisco publicados no dia 21 de setembro e a reação católica a eles mereceram a atenção editorial. Dada a nossa proximidade com o assunto, pareceu razoável cobri-los apenas reconhecendo e expressando o nosso próprio ponto de vista sobre o estado da mídia católica e o seu impacto sobre a Igreja. Fazemos isso abaixo.”

Essa é a opinião dos editores do The PillarJ. D. Flynn, Ed Condon e Michelle La Rosa –, que anteriormente eram funcionários da rede EWTN. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Em declarações publicadas nesta semana em uma revista jesuíta, o Papa Francisco chamou a atenção pelos seus comentários sobre “um grande canal de televisão católica que continuamente fala mal do papa” – uma rede de televisão entendida em grande parte como sendo a EWTN.

Pelo menos entre as figuras midiáticas católica, o comentário gerou muita conversa, até mesmo porque a EWTN é o maior conglomerado midiático católico e também o mais polêmico.

É claro, é um tanto estranho quando a mídia cobre a própria mídia; é difícil reivindicar objetividade quando se está escrevendo sobre outras pessoas que trabalham no mesmo espaço. E é especialmente estranho escrever sobre a rede para a qual trabalhamos.

Mas as divergências sobre a EWTN – e o seu suposto modo de “falar mal” do Papa Francisco – apontam para os desafios levantados pelo cenário midiático católico para os católicos estadunidenses – e para a vida e o ministério da Igreja.

Os problemas da mídia católica são os problemas da mídia institucional em pequena escala. As mídias mais antigas, durante décadas e ao longo de vários pontificados, cultivaram um grande público e um ponto de vista aos qual eles agradam.

Quer venha na forma de comentários pomposos na TV ou editoriais estridentes, a cobertura eclesiástica polarizou-se exatamente ao lado dos veículos seculares aos quais ela aspira a imitar, sejam eles a Fox News ou o New York Times.

Ao longo do caminho, figuras midiáticas católicas dividiram a Igreja – leitores, escritores, bispos e até mesmo papas – entre “os nossos” e “os outros”, com conteúdo e comentários distorcidos para se ajustar a essa divisão.

Dentro do microclima do mundo midiático católico, essa abordagem leva a extremos às vezes cômicos: o Raymond Arroyo Show exibindo cáusticas conversas por celular com o arcebispo Viganò, apesar da reputação pública desacreditada do arcebispo e da hostilidade aberta ao próprio conceito do Vaticano II, ou o National Catholic Reporter fazendo contorções editoriais heroicas para evitar reconhecer as repetidas denúncias do Papa Francisco contra o aborto legal ou as rejeições ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

As polêmicas bombásticas são rentáveis e sempre serão. Essa é a razão pela qual muitas mídias católicas passaram a depender delas – há sempre uma base de doadores a saciar levando as coisas até ao extremo. As polêmicas geram cliques. Quem não vai nessa direção tende a virar na direção da previsibilidade “segura”, higienizada, institucional – é por isso que um dos maiores meios de comunicação católicos dos Estados Unidos é a mídia oficial da Conferência dos Bispos do país.

Nenhuma dessas abordagens tende a recompensar o fato de dizer a verdade. Não há dinheiro nem segurança nisso, e os fatos raramente têm uma “tribo”.

A checagem de fatos, supostamente a espinha dorsal do processo editorial, perde em um cálculo de plausibilidade – ou de negação plausível, se necessário –, permitindo muitas vezes “reportagens” ou rumores de terceiros junto a fontes terceirizadas.

A “narrativa” na mídia dirige o engajamento do consumidor, mas também sufoca o esforço jornalístico, já que a realidade raramente, ou nunca, está em conformidade com as preferências do repórter ou do leitor. Isso leva a uma cobertura aduladora e deferencial, na fronteira com o endosso explícito, para candidatos políticos de qualquer um dos partidos, como ficou manifesto nas mídias católicas durante a última eleição. E, ao longo do caminho, isso frustra ou sufoca o trabalho e as aspirações dos bons jovens jornalistas que se esforçam para praticar a sua fé e a sua profissão com integridade, e visam a cobrir a Igreja de modo justo.

E a inclinação pela “narrativa” sobre o fato faz com que os jornalistas ignorem as histórias intencionalmente, como lemos no Relatório McCarrick do ano passado, por medo de ofender os patrocinadores da sua própria tribo ou de perder a permissão institucional para estar na sala onde as coisas ocorrem.

Mais importante, a “narrativa” tende a servir e a ser servida pela divisão, que – sem nenhuma surpresa – nunca serve à unidade da Igreja.

Embora o Twitter e outras plataformas de mídia social favoreçam os bispos que querem falar direta e publicamente sobre qualquer assunto de sua escolha, muitos valorizam a capacidade de falar para a “audiência” específica oferecida por um meio de comunicação ou outro, e com o endosso implícito que vem com isso.

O problema é que, mesmo quando os bispos clamam por unidade e catolicidade, o meio se torna a sua própria mensagem pré-definida de divisão.

Francisco lamentou o nivelamento entre “insultos” e “ataques”. Infelizmente, não é difícil encontrar exemplos do que ele está falando, a partir do lugar que ele está falando. O papa também foi franco sobre a sua abertura às críticas legítimas à política e frequentemente recomendou aos jornalistas que “façam seu trabalho” quando questionado sobre os escândalos.

As distinções entre “ataque”, “crítica” e “investigação” se perdem facilmente quando todos são abordados com uma mentalidade partidária, e o dano provocado é real.

Quando a mídia católica não consegue articular uma conversa honesta sobre questões claras, como sobre aquilo que o papa diz em público sobre o aborto, há pouca esperança de um debate matizado sobre questões polêmicas como o acordo Vaticano-China – sem falar de uma análise cuidadosa sobre questões teológicas e de governo mais amplas na vida da Igreja.

O conteúdo honesto vem com um custo alto – ele não tende, por exemplo, a atrair patrocinadores atraídos por elogios ou consumidores que procuram tendências de confirmação. Mas a missão da Igreja – e por extensão da mídia católica – é anunciar primeiro a verdade. Todo o resto é entretenimento.

 

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