“Este século será difícil e é preciso se organizar”, avalia Pablo Servigne

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17 Setembro 2020

Nos últimos meses, muitos se viram protagonizando seu próprio filme de ficção científica: um vírus que se espalha pelo mundo, causando uma pandemia, crise em cadeia e o abismo do desconhecido. Outros, há anos anunciam que algo assim pode acontecer ao mundo. Hoje é uma pandemia, mas poderia ter sido uma crise do sistema petroleiro a faísca a acender a chama, só para dar um exemplo.

A reportagem é de Paula Estañol, publicada por RFI, 16-09-2020. A tradução é do Cepat.

Pablo Servigne é um desses que se adiantam. Engenheiro agrônomo de profissão, este francês de 42 anos é um dos principais teóricos da colapsologia, uma corrente que estuda os riscos de colapso de nossa civilização. Seu livro, Comment tout peut s’effondrer (Seuil, 2015), coescrito com o especialista em transição ecológica Raphaël Stevens, sai em versão espanhola, nesta quarta-feira, 16 de setembro, com o título Colapsologia (Arpa). Servigne explica esta corrente como “uma tentativa de racionalizar o colapso”.

Uma racionalização necessária, disse, para uma crise como a atual. “Poderíamos ter nos preparado melhor (para a pandemia), mas não fizemos isto. É exatamente o que tentamos fazer com a colapsologia: informar as pessoas, para nos preparar para um mundo, um século, de desastres. O que está acontecendo agora com a pandemia é o que irá acontecer”.

Uma corrente multidisciplinar, que seus detratores qualificam como pseudociência, e que encontra sua gênese, entre outras coisas, no Relatório Meadows, de 1972, no qual pesquisadores do MIT alertavam sobre os riscos que um crescimento demográfico e econômico exponencial teriam sobre um planeta com recursos limitados. Apresentando dados, diferentes variáveis, em um computador, os pesquisadores concluíram que o colapso chegaria no ano 2030. Alarmistas foi o rótulo mais suave que receberam.

Globalizados, interconectados, ultravulneráveis

A Covid-19 deixou um saldo de quase 500.000 mortos e mais de 9 milhões de contagiados no mundo. “Os cientistas nos alertaram”, disse Servigne na hora de analisar os alcances de um vírus que conseguiu se expandir como azeite em um mundo ultraglobalizado.

“Vejo a pandemia de coronavírus como uma etapa de um possível colapso sistêmico geral de nossa civilização, de nossas sociedades”, disse Servigne. “Esta pandemia é um exercício de preparação para este século, no qual veremos outras pandemias, outras catástrofes e riscos. Acontecerão muitos e de diferentes tipos: climáticos, poluição, guerras, etc. Vejo isso como um exercício geral e, ao mesmo tempo, pode ser uma etapa de algo mais grave”, acrescenta.

Ou seja, uma crise encadearia outra, assim como a pandemia de coronavírus começou sendo uma crise sanitária, para passar rapidamente a uma crise alimentar e econômica, da que ainda não conhecemos os alcances. Os textos de Servigne abordam justamente isso: como sistemas interdependentes encadearão uma sucessão de crises, até desembocar em um colapso do sistema global, tal e como o conhecemos até agora.

“Também há muitos riscos políticos”, comenta Servigne. “Vejo com preocupação o aumento de sistemas de controle generalizado, de governos autoritários. Isso é um risco maior, é uma das etapas da derrocada das civilizações”.

Esses riscos marcariam uma clara diferença na hora de falar de respostas políticas à crise. Segundo o pesquisador, países com um melhor colchão na área social são os que melhor poderiam resistir as crises: “o colapso não será igual para todos. Não deve ser visto como algo homogêneo ou que durará um dia, conforme as religiões o descrevem. É algo que durará anos e será diferente para cada região, para cada cultura. Há dinâmicas diferentes”.

As sociedades serão desestabilizadas por crises que podem vir de todas as áreas e que serão cada vez mais graves. Isso é o que se deduz das análises da colapsologia. Um cenário onde os Estados desempenharão um papel maior, caso consigam evitar a sedução do autoritarismo: “é preciso caminhar para um Estado que garanta direitos, que coordene, mas não a um Estado de controle, de dominação ou um Estado forte. Isso é um grande risco. Acredito que essa será a luta dos próximos meses ou anos”.

Claro que uma política pública forte não garantirá uma mudança profunda, o suficiente para frear a sucessão de choques e crises que a colapsologia aborda e que estão sendo produzidas nesse exato momento.

A pandemia pode ser o início, mas o colapso é o único final?

Segundo Servigne a resposta estaria na resiliência. Ou seja, a capacidade de um ser vivo se adaptar às situações adversas. “O que é preciso compreender é que os sistemas locais geram resiliência aos desastres globais. Então, é preciso reforçar o local. Aqui na França, durante a quarentena, os supermercados tiveram que comprar os produtos locais. Foi muito interessante isso”, comenta Servigne, que ao mesmo tempo também considera que há riscos nesta desglobalização: “Os sistemas globais produzem resiliência aos desastres locais. Por exemplo, se uma região tem seca, pode contar com seus vizinhos. É importante entender isso e não ver o local como única solução, cada um por si, uma autarquia vista como um desdobramento sobre si mesmo”.

A pergunta está em nossas sociedades industrializadas, interconectadas, globalizadas e altamente competitivas, se poderão ou desejarão se adaptar a estas mudanças. “É muito tóxico em nossas sociedades – disse o também coautor de “Une autre fin de monde est posible” (“Outro fim de mundo é possível”, Seuil, 2018) – esta mitologia da lei da selva, que nos diz que na natureza só há concorrência e agressividade. Isto é falso. Na natureza, há solidariedade. É tóxica esta maneira de ver o mundo, acaba destruindo os povos, os indivíduos e a natureza. É preciso mudar esta crença e é o que me ensinou (eu sou biólogo) a teoria da evolução, que diz que os que sobrevivem não são os mais fortes, mas o que se ajudam”.

Servigne reconhece não saber se será possível reverter a tendência: mudar a dependência energética, desacelerar o consumo, preservar os ecossistemas atualmente ameaçados. “Não é questão de ser pessimistas ou otimistas”, disse. “Eu vejo as más notícias e digo que é preciso se organizar para atravessar a tempestade. Este século será difícil e é preciso se organizar, não existe outra forma. Não é pessimismo, nem otimismo, é realismo”.

 

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