Um dicionário de teologia de acordo com a sensibilidade contemporânea. Artigo de Gianfranco Ravasi

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18 Fevereiro 2020

“Se eu tivesse que escrever um tratado de moral, ele teria 100 páginas, das quais 99 absolutamente em branco. Na última, eu escreveria: ‘Conheço um único dever, e é amar.” Assim, anotava nos seus “Cadernos” Albert Camus, que morreu há 60 anos, com 47 anos de idade incompletos, e ele continuava afirmando em outro lugar que “não ser amado é um infortúnio; não saber amar é uma tragédia”.

O comentário é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado em Il Sole 24 Ore, 09-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Agnóstico, mas espiritualmente muito vigilante, na prática, ele reiterava a advertência de Cristo sobre o “maior e primeiro dos mandamentos... Amarás...” (veja-se Mateus 22,36-40). Se é verdade que o preceito do amor é o elo sólido que une em si o sistema moral cristão, também é verdade que a sua ramificação e conjugação existencial são complexas.

Assim, é justo que os quatro coordenadores e os mais de 80 autores do novo dicionário de teologia moral*– o último de uma longa série oferecida pela editora San Paolo – tenham escolhido não deixar em branco 1.266 páginas desse imponente volume para imprimir, na última, a 1.267, o único mandato evangélico do amor.

Isso, no entanto, não impede que haja o verbete “Amor”, mas o leque temático já se expande de modo impressionante e chega a territórios que até alguns anos atrás eram desconhecidos ou quase.

Apenas para fazer compreender como é indispensável ter preenchido aquelas centenas de páginas, gostaríamos somente de citar um verbete que vibra de acordo com a sensibilidade contemporânea: pensamos nas “neurociências” ou na “pesquisa e experimentação biológica”, nas “ciências humanas” ou na “transexualidade”, nos “vícios” e até mesmo no enhancement, voltando-se para o inglês porque o nosso “aprimoramento” não abrange totalmente o seu horizonte temático subjacente.

Essa abertura aos novos caminhos parece ainda mais acentuada se levarmos em conta o fato de que o dicionário tem como base um instrumento anterior que desenvolvia a tradicional sequência dos assuntos da moral cristã.

De fato, é um fato evidente que o decálogo, a ética sexual, o pecado, o furto, a solidariedade, as virtudes, a opção fundamental e assim por diante estavam nas listas do texto anterior e que ainda são repropostos. Como observava o diretor polonês Kieslowski, autor de uma extraordinária “exegese” fílmica dos Dez Mandamentos, violamos esses preceitos todos os dias, mas eles sempre estão lá, afixados no céu da moral de todos, crentes e não crentes, como uma estrela-guia para uma existência autenticamente humana.

Esses mesmos mandamentos, no entanto, exigem nos nossos tempos, uma atualização inédita, por serem cercados de interrogações inesperadas. Dito de acordo com outra perspectiva, a moral fundamental clássica, cuja estrutura esquelética deve permanecer, viu tecer-se sobre si uma nova carne, órgãos surpreendentes e, naturalmente, até excrescências e deformações.

Sempre exemplificando: a bioética envolve constantemente as questões sobre a sexualidade, a corporeidade, a vida, mas vê uma irradiação de corolários decisivos e até agora pouco ou nada explorados, como a engenharia genética, a procriação medicamente assistida, os vícios, as deficiências, a ecologia e até o esporte, todos verbetes tratados com finesse e sem hesitação nesse dicionário.

Continuando a exemplificação, a moral social se sustenta sempre sobre os pilares da política justa, da participação, da paz, do bem comum e assim por diante, procedendo de acordo com a doutrina social tradicional da Igreja. Mas já surgem novas interrogações frequentemente dilacerantes: apenas para citar algumas (todas cobertas por verbetes bem calibrados), as migrações, a ética profissional e dos negócios, a economia em todas as suas variantes, as tecnologias da informação que criaram uma inédita infosfera e muito mais.

As mutações de paradigma sociocultural que estamos testemunhando e das quais também somos atores avançam com uma aceleração frenética e, portanto, exigem que o discurso seja capaz de isolar certamente alguns perímetros éticos estáveis, mas também de marcá-los com fronteiras não rígidas, mas sim móveis e abertas.

Então, é preciso ser capaz de identificar os nós temáticos, conscientes, porém, de que as respectivas cordas são ininterruptamente puxadas rumo a outros ganchos. Fora de metáfora, a afirmação de uma objetividade ética fundamentada não pode se cristalizar em uma autorreferencialidade exclusiva. Por isso, seria interessante, a esse propósito, fazer uma comparação sobre alguns verbetes desse volume.

Por um lado, leia-se o verbete “Teologia moral – conteúdos essenciais” ou aquele dedicado à “Teologia Moral – questões teóricas e metodológicas” e se encontrará, embora com uma linguagem obviamente atualizada, a filigrana teórica tradicional e permanente.

Por outro lado, siga-se a lista dos verbetes que começam com a palavra “Ética”, e eis florescer uma série de especificações com nuances inesperadas, mas relevantes na contemporaneidade: “ética aplicada, profissional, feminina, global, inter-religiosa, ortodoxa, protestante, narrativa, normativa, estética, dos negócios...”.

Sob essa luz, entende-se como é delicado o trabalho do teólogo moralista, cujo ferramentário deve incluir necessariamente instrumentos pouco praticados no passado ou totalmente ausentes, como os elaborados precisamente pela ciência, pela tecnologia, pela psicologia, pela pesquisa, pela informática, pela ecologia, pela antropologia cultural e por outras disciplinas.

As mesmas questões que despertavam o interesse dos moralistas de poucas décadas atrás (além dos do passado), como, por exemplo, a educação sexual, o erotismo, a eutanásia, a identidade sexual, a homossexualidade, a convivência more uxorio, a pornografia, o suicídio, os transplantes, postulam hoje uma complexa redefinição, mesmo na permanência de algumas diretrizes orientadoras.

Nesse sentido, é emblemática a reescrita do verbete “Lei natural”, na consciência de que – em comparação com a tradição codificada – o mesmo conceito hoje não registra mais um compartilhamento geral. De fato, no pensamento filosófico moderno, desapareceu – como se escreve no dicionário – “a possibilidade da referência a uma natureza comum entre as pessoas”, porque “a importância assumida pela cultura no âmbito das ciências humanas, dando ênfase exclusiva à dimensão da historicidade, destitui de significado todo apelo a um dado ontológico, considerado como imutável”.

A citação, sozinha, é suficiente para fazer compreender como são fundamentais esse dicionário e o esforço dos seus artífices – começando pelos quatro organizadores, figuras de primeiro plano no estudo da moral católica – para conseguir conservar a alma profunda, nobre e fecunda da ética cristã, não a trancando em estereótipos ou em oásis protegidos, unicamente apologéticos, que ignoram a pressão externa da cultura atual.

Uma nota marginal. Sabe-se que dicionários temáticos, por sua natureza, não são lidos na sequência, como um tratado ou um romance. No entanto, quando bem construídos, é possível uma leitura sistemática seguindo não o alfabeto, mas sim um mapa conceitual. Pois bem, esse exercício é claramente proposto neste dicionário, precisamente mediante uma “proposta de leitura sistemática” inicial.

Nota do IHU:

O Dizionario di teologia morale, comentado neste artigo por Gianfranco Ravasi, será publicado pela Editora Unisinos.

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