Nunca se viu no Brasil um governo tão abençoado pelas igrejas

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19 Setembro 2020

O governo Bolsonaro tem, desde o começo da sua caminhada até a chegada à presidência da República, o apoio de parte da ala religiosa, desde eleitores a políticos, que, em alguns casos, participam ativamente de ministérios do governo. O apoio religioso ao presidente não aconteceu por acaso. Sua campanha, desde quando era vereador, tinha fortes ligações com mais de uma igreja. Bolsonaro é católico, mas casado com uma evangélica que frequentava a igreja de Edir Macedo e que hoje é ligada a igrejas protestantes. O presidente criou vínculos com esses três segmentos religiosos e com os principais nomes dessas igrejas: Silas Malafaia, Marco Feliciano e o já citado Macedo fazem campanha e reverberam em suas igrejas a devoção ao presidente.

A reportagem é de André Martins, estagiário do Curso de Jornalismo da Unisinos.

O Prof. Dr. Fábio Py, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), participou do evento organizado pelo Instituto Humanitas Uisinos – IHU, intitulado “Os fundamentos teológicos do bolsonarismo”, nesta quinta-feira, 17-09-2020, e destrinchou como Jair Bolsonaro consolidou esse amplo apoio da ala religiosa, utilizando as igrejas para ampliar o seu poder e implementar suas ideias conservadoras no Brasil.

Bolsonaro, criado dentro do catolicismo, não frequentava a Igreja tão assiduamente, mas após começar sua trajetória como político, criou vínculos fortes com a religião católica, evocando seu principal ideal que hoje controla o Brasil, o conservadorismo. Py entende que o catolicismo do presidente está, por definição, ligado às tradições coloniais e genocidas das diásporas indígenas no país, ainda no período colonial. “Bolsonaro está articulado a partir de um grupo de católicos conservadores que evocam o processo de civilização do colonialismo brasileiro e está veiculado aos atos diaspóricos dos índios no país e ao genocídio nos tempos coloniais”, diz. O pesquisador entende que em algum momento de seu governo, Bolsonaro utilizará o catolicismo colonial contra povos que hoje ele critica em seus discursos, como indígenas e LGBT’S.

Os grupos católicos conservadores que dão base para Bolsonaro estão ligados a fundamentos teológicos que versam sobre uma ideia de Jesus como um homem europeu, hétero, que vê o homem à frente da reprodução social, resgatando a ideia de que o catolicismo veio trazer esclarecimentos para o mundo.

A igreja evangélica

Seguindo os passos da Igreja Católica, Bolsonaro também tem o apoio das igrejas pentecostais, ligadas a pastores com forte presença em setores empresariais e apelo midiático, como Edir Macedo e Silas Malafaia. Py explica que as igrejas pentecostais têm forte presença americana no Brasil e que se fizeram presente no país em três “ondas”: em 1910, com a chegada da Assembleia de Deus e missionários fazendo um trabalho de proliferação da palavra evangélica; em 1930, com apoio de magnatas americanos, missionários fizeram um trabalho de disseminação da palavra e evangelização do povo brasileiro por toda a América do Sul – movimento ao qual Py entende estar ligado ao imperialismo americano –; e, por último, nos anos 1970, quando missionários trouxeram para o Brasil a teologia da prosperidade, argumentando que na Terra os fiéis já contavam com a ajuda de Deus e, portanto, poderiam ficar ricos com a bênção Dele.

Hoje, Feliciano, Malafaia e Macedo transmitem a teologia da prosperidade para seus devotos e são donos de muitas empresas, tendo um forte apelo midiático. Fábio Py entende que a ligação de Bolsonaro com as igrejas pentecostais está conectada também com essa forte presença americana nessas três caminhadas evangélicas que ocorreram no Brasil. “O Projeto de Bolsonaro é nacionalista, mas dependente das decisões dos americanos”, comenta.

Apoio dos protestantes

Fábio explica que as igrejas tradicionais protestantes, os presbiterianos e o batistas, compõem o apoio religioso que o Bolsonaro tem. Membros dessas duas religiões inclusive fazem parte do governo assiduamente, como no caso dos presbiterianos que comandam os ministérios da Educação e Justiça, além de outros que comandam a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Essas duas igrejas são conhecidas pela discrição e pela intelectualidade nos estudos teológicos, o que, para o pesquisador, indica que os pastores podem ser os intelectuais por trás dos trabalhos de Bolsonaro no poder. “Essas pessoas dão uma maior discrição ao trabalho dos ministérios, como no caso da Educação, onde muito pouco se fala, mas o maquinário está funcionando”, diz. Segundo Py, o projeto de Bolsonaro ficou claro durante a pandemia, e contou com o forte trabalho dos pastores protestantes na defesa do governo, como no caso da comemoração da vitória contra a Covid-19, disseminando ideias favoráveis a ações governamentais durante a pandemia.

Para Fábio Py, essas três grandes matrizes religiosas complexificam o governo Bolsonaro e são fundamentais para garantir o poder que o governo mantém hoje. Fica claro que o presidente mantém estrategicamente esses vínculos religiosos. “Nunca se viu no Brasil um governo tão abençoado nas frentes das igrejas como o governo Bolsonaro”, ironiza. Para ele, Bolsonaro é bastante inteligente para manter um cenário tão favorável a seu favor junto com a ala religiosa. Algo que ainda não tinha se visto politicamente no Brasil está sendo feito pelo governo do presidente e essas três matrizes religiosas.

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