Um debate sobre o imperialismo norte-americano hoje. Análise dos artigos “Imperium” e “Consilium”, de Perry Anderson

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Por: Caroline | 09 Junho 2014

“A discussão sobre o estado real do imperialismo norte-americano, a principal força da reação e a contrarrevolução a nível mundial, é de fundamental importância. Evitando tanto a subestimação como a superestimação de sua fortaleza” é o que analisa Esteban Mercatante, em artigo publicado por Punto de Desequilibrio, 06-06-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Fonte: http://goo.gl/lCjMI5

No número 83 do New Left Review (set/out 2013), Perry Anderson foca sua análise para a política exterior norte-americana e examina as propostas dos principais expoentes intelectuais ligados a sua elaboração estratégica. A revista é inteiramente dedicada a dois artigos de Anderson, um sucesso com apenas três precedentes: em 1972 com Tom Nairn ao tratar da Europa; em 1982 com Anthony Barnett sobre a Guerra das Malvinas e, em 1998, com Robert Brenner sobre “A economia da turbulência global”. O primeiro artigo, “Imperium”, analisa os objetivos e os resultados da política exterior até o presente, e analisa os debates intelectuais que acabaram por gerar a formação do “império”, percorrendo todo o seu arco ideológico. O segundo texto, “Consilium”, revisa as posições da literatura mais relevantes produzidas na atualidade sobre o rol dos EUA no mundo e as diferentes alternativas elaboradas pelos principais expoentes das linhas estratégicas da política exterior para reforçar a posição internacional dos EUA, ou a “nação indispensável” como é chamada por Madeleine Albright (secretária de Estado no segundo mandato de Clinton), ponto supostamente colocado fora de questão por todos os autores resenhados por Anderson. Este número especial está estreitamente relacionado com “Homeland”, artigo do NLR 81, de maio-junho, que analisa a situação do regime político norte-americano. Nos números 6 e 8 de Ideas de Izquierda, resenhamos as proposta do autor e trazemos algumas das polêmica envoltas nas teses deste extenso trabalho. Na primeira é possível ler “O império contra-ataca”, e na segunda “EUA: jogador solitário em um grande tabuleiro global?”.

Chamativo para um marxista do porte de Anderson, nestes ensaios ele “observa apenas uma mesa de arena, onde as diretrizes geopolíticas parecem feitas e desfeitas à vontade hegemônica”. É notória a desatenção pela “análise das condições objetivas do capitalismo norte-americano, que condicionam a capacidade da potência imperialista para dispor de sua vontade”. Não é que não haja referências a respeito, aqui e acolá, sobre a decadência das bases materiais sobre as quais assentou-se o poder norte-americano. Nas últimas páginas de “Imperium” elas aparecem.

Nessas assinala-se o modo com que a partir do êxito norte-americano em criar uma ordem liberal, surgiram novas contradições. Esta ordem começou a escapar aos “desígnios de seus arquitetos”. Com a emergência da China como um poder econômico não apenas mais dinâmico, mas pronto se comparado em sua magnitude, que fornece as reservas financeiras que os EUA necessita, sendo assim capitalista “a seu modo”, porém distante de ser liberal, “a lógica de longo prazo da grande estratégia norte-americana se vê ameaçada pelo voltar-se contra si mesma”. O império, que não parou de crescer está, todavia, se tornando “desarticulado da ordem que procurava estabelecer. A primazia norte-americana não é o corolário da civilização do capital (...) Uma reconciliação, nunca perfeita, do universal com o particular foi uma condição constitutiva da hegemonia norte-americana. Hoje está se separando”. Em outros termos, a contradição entre a internacionalização das forças produtivas e o sistema internacional de Estados através da qual se articulam as relações de produção, emerge novamente como um aspecto perturbado frente aos limites crescentes enfrentados pela hegemonia norte-americana, ainda que hoje não haja quem possa se propor a disputa-la.

Como argumentamos em “EUA: jogador...”: “O exagero das fortalezas do poder norte-americano e de suas conquistas, assim como a subestimação dos efeitos de seus erros e o que uma crítica do NLR 83 considerou uma apresentação dos EUA como um “Estado Imperial onisciente” (David Allen, “A world made safe for capitalism”, Prospect, 11/12/2013) por parte de Anderson, não pode fazer nada além do que servir para reconfirmar seu cepticismo a respeito da possibilidade de que a classe trabalhadora possa em algum futuro próximo desafiar o domínio capitalista”.

O cepticismo que ilustra que não há mudanças no paradigma do “pessimismo histórico” (como foi chamado por Gilbert Achcar) enunciado no “Renewans” (NRL 1, Segunda Época), quando afirmava que “o capitalismo norte-americano restabeleceu sonoramente sua primazia em todos os campos – econômico, político, militar e cultural”. Ainda que sua crítica aos estrategistas norte-americanos assinale que um ponto central é sua desatenção as causas subjacentes “a desaceleração do crescimento do PIB, a renda per capita e a produtividade, e o aumento concomitante da dívida pública, corporativa e dos lugares, não apenas nos EUA, mas no conjunto do mundo capitalista avançado”, no caso de Anderson o que chama a atenção é o alcance limitado que dá aos efeitos da crise atual, que, ainda com as políticas de contenção aplicadas, segue como o mais difundido e apreensivo desde a Grande Depressão. É chamativo que não entrem em consideração os impactos para a ideologia que sustenta a capacidade de influencia do “modelo” norte-americano (um componente central da hegemonia), considerando que para alguns economistas “os próprios critérios de eficácia do capitalismo estão questionados”.

Mais surpreendente se torna se considerarmos que, quando escreveu “Renovaciones”, Anderson tinha como hipótese que uma profunda crise econômica no Ocidente era um dos elementos que podia começar a mudar o clima ideológico. As manifestações juvenis, a resistência dos trabalhadores aos ataques ocasionados pela crise, não aparecem alterar o prognóstico do começo do milênio. Na leitura de Anderson, mesmo a primavera árabe ajudou a fortalecer a posição norte-americana no Oriente Médio, debilitando um adversário como Assad sem que surgisse no Egito “um regime capaz de ter maior independência em relação a Washington”, e levando a um “fortalecimento em relação ao peso e a influencia das dinastias petroleiras da península árabe”, aliadas a Washington, ainda que agora estejam inquietas com o acordo com o Irã.

Anderson comenta, com ironia, que se torna chamativa “a natureza fantástica das construções” com as que os estrategistas norte-americanos buscam enfrentam uma realidade com sinais de adversidade. “Grandes reajustes no tabuleiro de xadrez da Eurásia, vastos países movidos com tantos castelos ou peões através deste, extensões da OTAN ao Estreito de Bering”. Parece que a única forma de pensar o reestabelecimento da liderança norte-americana “seria imaginar um mundo totalmente diferente”. Parece, lendo a Anderson, que o mesmo poderia ser feito se aspirarmos em pensar em um futuro com oportunidades revolucionárias, ainda que sobre ele nem se possa especular a respeito.

A discussão sobre o estado real do imperialismo norte-americano, a principal força da reação e a contrarrevolução a nível mundial, é de fundamental importância. Evitando tanto a subestimação como a superestimação de sua fortaleza. Convidamos a todos a ler estes artigos no IDZ.

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