Lei sobre o Holocausto na Polônia. A grande traição de Varsóvia com Israel

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03 Fevereiro 2018

Pensar que menos de um mês atrás, Benjamin Netanyahu tinha felicitado seu colega de Varsóvia pela decisão "corajosa" apresentada pela Polônia na ONU de não seguir a Europa ‘pró-palestina’ em dizer não à decisão sobre Jerusalém feita pelos EUA.

A reportagem é de Umberto De Giovannangeli, publicada por The Huffington Post, 01-02-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Vinte e cinco dos vinte e sete países da UE (mais o Reino Unido, em saída) votaram "sim" a uma moção que censurava a decisão dos EUA de transferir sua embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, reconhecendo esta como capital "eterna e indivisível" do Estado judeu. Naquela ocasião, a Polônia se absteve, como, aliás, também fez a Hungria de Viktor Orban. A Polônia e a Hungria, dois dos países do Leste europeu, onde sopra um forte vento antissemita.

Menos de um mês depois, Benjamin Netanyahu passou da apreciação para a indignação. O Senado da Polônia aprovou a controversa lei sobre o Holocausto, que visa defender a imagem do país no exterior, mas provocou uma crise diplomática com Israel.

A lei, que já foi aprovada pela Câmara e agora precisa da assinatura do presidente - Andrzej Duda, membro do partido de direita nacionalista Direito e Justiça - define uma pena máxima de três anos de prisão para qualquer um, polonês ou estrangeiro, que acuse a Polônia de cumplicidade com os crimes nazistas ou faça referências aos campos de extermínio nazistas chamando-os de poloneses. O Senado aprovou as medidas por 57 votos a favor, 23 contra e duas abstenções.

Israel havia solicitado para abandonar o projeto de lei, considerando-o uma tentativa de negar o envolvimento polonês no extermínio dos judeus pelos nazistas. "Nós não temos nenhuma tolerância com a distorção da verdade e a reescrita da história, nem com a negação do Holocausto", trovejou Netanyahu. Até mesmo o ministro israelense para a construção e casas, Yoav Gallant, manifestou-se sobre o assunto: "Nós não vamos deixar que a decisão do Senado polonês passe sem reações. O antissemitismo polonês alimentou o Holocausto e isso é uma negação de fato do Holocausto".

Ao protesto da comunidade judaica se juntaram personalidades proeminentes da cultura, da arte e da política polonesa, incluindo a diretora de cinema Agnieszka Holland e o ex-presidente da República Aleksander Kwasniewski. O Presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, escolheu o caminho intermediário de definir como "calúnia desprezível" a expressão ‘campo de concentração polonês’ e criticar a norma. Também a ex-ministra israelense das Relações Exteriores, Tizpi Livni, atacou Varsóvia: "Eles cuspiram na cara de Israel duas vezes", ela afirma, lembrando que tinha sido acertado um acordo entre o primeiro-ministro polonês e o israelense para rever o texto da lei e que isso "foi ignorado".

Um dos testemunhos mais significativos é de Efraim Zuroff, o historiador norte-americano que dirige o "Wiesenthal Center" e lançou a campanha Operation Last Chance, que desde 2001 levou aos tribunais e à condenação 41 criminosos, três dos quais na Alemanha. Ele é o caçador mais determinado, após a morte de Simon Wiesenthal. "O que foi feito pelo Senado polonês é um ato gravíssimo que diz respeito ao presente, e não só uma negação da história que avilta a memória dos milhões de judeus exterminados em campos de concentração nazistas - declarou Zuroff contatado por telefone em seu escritório de Jerusalém.

O problema é que hoje existe a tendência de apagar aquela memória, gerando uma autoabsolvição, enquanto na Europa, não só no Leste, mas também em países como a França, são profanados cemitérios judaicos ou adolescentes são agredidos apenas porque usam o quipá. A política - acrescenta Zuroff - tem suas próprias regras e seus compromissos, mas não a ponto de aprovar o negacionismo, embora motivado. Se quiserem, eu poderia refrescar a memória dos senadores poloneses com a história de alguns dos piores criminosos nazistas nascidos naquele país".

Criminosos como Jakob Palij: nascido na Polônia, acusado de crimes cometidos na Polônia. Guarda da SS no campo de concentração de Trawniki, onde mais de 6.000 judeus foram mortos, Palij é acusado de impedir a fuga dos presos e de ter "contribuído diretamente para a sua execução". Refugiado nos Estados Unidos, graças ao trabalho do Centro Wiesenthal, os EUA decidiram extraditá-lo, mas nenhum dos três países europeus que poderiam solicitar a sua extradição tomou tal atitude. Entre esses países, está a Polônia.

O antissemitismo sobreviveu à aniquilação dos judeus poloneses no Holocausto, e está hoje sob a superfície da vida civil e cultural da nação. Anota Roberto Reale em uma análise documentada no PoloniCult, o blog italiano da cultura polonesa: "Polska jest krajem antysemickim. A Polônia é um país antissemita". Seco, sem deixar espaço para desculpas, sem tentar suavizar os termos, é o enunciado que abre o ensaio de Stefan Zgliczyński, Antysemityzm po polsku (Antissemitismo na Polônia, Książka i Prasa, 2007). O resto do livro é dedicado à comprovação dessa afirmação. O quanto uma declaração desse tipo – argumenta Reale – possa incidir sobre uma sensibilizada consciência nacional, toda empenhada no desenvolvimento de uma vulgata "de Estado" direcionada a excluir tanto quanto possível toda responsabilidade polonesa no Holocausto e que se declara ofendida pela simples junção das palavras ‘campo de concentração’ e ‘polonês’, pode ser facilmente imaginado.

Especialmente pelo fato que o ensaio de Zgliczyński não é uma pesquisa histórica, mas uma reportagem: em primeiro lugar, está se falando do antissemitismo que envenena a realidade cotidiana, aqui e agora, não daquele histórico que levou à emigração ou a eliminação do 3,25 milhões judeus poloneses nos campos de extermínio. E se o antissemitismo histórico, por mais hediondo que tenha sido nos resultados, é muito mais fácil de ser abandonado à remoção, atribuindo sua inteira responsabilidade aos nazistas (desde que se esqueçam as atrocidades cometidas com a colaboração de voluntários poloneses, como o pogrom de Jedwabne, de 10 de julho de 1941, ou inteiramente por mãos polonesas, como o pogrom de Kielce, de 4 de julho de 1946, depois da guerra), é muito mais difícil fingir que não existam as palavras, as atitudes, os programas políticos que pertencem à trama do presente e que nos falam de um ódio ainda hoje vivo, disseminado, subterrâneo mas implicitamente admitido apesar da vulgata; de um ódio que atravessa toda a história da nação, concretizando-se em formas de pensamento, em tradições e em consciência, e que se torna lastro da identidade nacional, desembocando na realidade do dia-a-dia...". E nessa realidade, triste e perturbadora, que se enquadra plenamente o voto negacionista do Senado de Varsóvia.

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