Dia Internacional da Memória do Holocausto. Os nós entre o passado e o presente

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26 Janeiro 2018

É o décimo sétimo ano de celebração do Dia da Memória: dia dedicado a lembrar quando, em 1945, as tropas o Exército vermelho libertaram o campo de extermínio Auschwitz. O massacre dos judeus e dos outros presos nos campos não parou naquele dia: para por fim ao massacre foi necessário chegar à primavera. E alguns meses depois, em pleno verão, também chegou ao final a Segunda Guerra Mundial.

A reportagem é de Lia Tagliacozzo, publicada por Il manifesto, 25-01-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Se naquele dia de 27 de janeiro de 1945 no território italiano não aconteceu nenhum evento assumido como data de comemoração pública, mesmo assim o dia 27 de janeiro foi escolhido pelo Parlamento para lembrar "o Holocausto (extermínio do povo judeu), as leis raciais, a perseguição italiana de cidadãos judeus, os italianos que sofreram a deportação, a prisão, a morte, e aqueles que, mesmo em campos e lados distintos, se opuseram ao projeto de extermínio, e com o risco de suas vidas salvaram outras vidas e protegeram os perseguidos".

Um grande leque de eventos e assuntos a serem lembrados, mas é assim que a lei descreve o evento.

Este ano marca o octogésimo aniversário de promulgação das leis raciais: instauradas pelo fascismo e referendadas por Vittorio Emanuele de Savoia, cujo corpo recentemente voltou para a Itália acompanhado por acaloradas polêmicas.

No entanto, este ano, mais do que nos anteriores, parece que passado e presente se entrelacem em uma ignorância sem memória e arrogante. O discurso público parece, cada vez mais, abdicar de valores que se acreditavam compartilhados. É justamente o entrelaçamento entre palavras do passado e nós do presente que preocupa: como se tivesse desmoronado uma represa e o racismo tivesse se transformado em moeda corrente e legítima que transborda dos estádios até a política, dos meios sociais até a linguagem do dia-a-dia. Isso causa medo.

Uma posição muito firme, no entanto, é apresentada pela nova senadora vitalícia Liliana Segre, sobrevivente dos campos de extermínio de Auschwitz e Ravensbruck:

"Quem me nomeou, espera que eu continue a minha missão de testemunha - afirmou em suas primeiras declarações - em um tempo, este nosso, em que o mar se fecha sobre dezenas de pessoas que permanecem desconhecidas, sem um nome, assim como foram aqueles que eu vi ir para as câmaras de gás".

Isso não significa, é claro, que o Mediterrâneo das barcaças e dos migrantes, tenha se transformado em um novo Auschwitz, mas que aquelas mortes de desconhecidos anônimos nos dizem respeito da mesma forma que, nos anos de poder do nazismo e do fascismo, deveriam ter dito respeito aos concidadãos de então as mortes dos judeus, dos homossexuais, das testemunhas de Jeová, das pessoas com deficiências, dos oponentes políticos. E o nó entre passado e presente aperta-se ainda mais porque, como um eco às palavras de Liliana Segre, Milão foi vandalizada por outra pedra da memória: um daqueles pequenos paralelepípedos dourados colocados pelo artista alemão Gunter Demnig em frente à casa da qual as pessoas foram deportadas e que traz gravado o nome, a data de nascimento e, quase sempre, de morte. Uma "pedra no caminho" em que o que tropeça é - deveria ser - a atenção de uma cidadania consciente.

Em vez disso, até mesmo as palavras públicas perdem a memória: Attilio Fontana, candidato do centro-direita para a Região da Lombardia, não ficou envergonhado ao louvar a "raça branca". O próprio candidato, depois de ter tentado desculpas esfarrapadas, acrescentou: "A raça branca? Trouxe-me fama e consensos". Um absurdo difícil de acreditar. E com o qual teremos que nos medir após as eleições.

O artigo 2 da Lei de instituição continua: "Por ocasião do Dia da Memória serão organizadas cerimônias, iniciativas, encontros e momentos comum de narração dos fatos e de reflexão, especialmente nas escolas de todos os níveis".

Todo o ambiente escolar, nem sempre, mas frequentemente apaixonado e participativo, nos últimos anos leu, representou, refletiu mesmo quando, paradoxalmente, as horas de estudo de história diminuíram. Justamente as escolas sejam, talvez, o lugar onde o dia da Memória parece menos "ritualizado": cada aluno e cada classe sugerem recomeçar tudo de novo, ler novos livros, inventar novos trabalhos. E cada criança ou estudante formula novas questões.

A lista de perguntas levantadas hoje pela celebração do dia da Memória é infinita, as que seguem, são apenas algumas: a relação entre história e memória, o papel da arte ao lado do papel do testemunho, o desaparecimento das últimas testemunhas, a formação dos professores, a necessidade de incluir o Holocausto na história ocidental e não torná-lo um mausoléu separado, descontextualizado dos eventos do século XX, a necessidade de não deixar o dever da memória do nazi-fascismo às suas vítimas, a reflexão sobre a singularidade o Holocausto e sobre os outros extermínios que a humanidade não poupou a si mesma. E depois a necessidade de encontrar um novo equilíbrio entre a ritualização das instituições e a exposição na mídia.

Também parece cada vez mais urgente perguntar-se se a memória realmente traz consigo algo de bom ou se, ao contrário, corre o risco de se tornar uma planta venenosa mesmo diante de uma certeza: sem o dia da Memória a consciência do Holocausto neste país seria menor. Assim foi, de fato, na reflexão coletiva até o momento da sua instituição.

Mesmo assim, encarregar-se de uma memória tão dolorosa só faz sentido se for possível integrar em seu relato que existiu até naquela época, durante a guerra e sob o domínio totalitário, a possibilidade de escolha: a escolha de estar ao lado dos perseguidos ou dos perseguidores, dos que não sabiam ou dos amigos, dos que socorreram ou dos delatores.

Precisamente por este motivo, impõe-se uma cuidadosa reflexão, capaz de definir os ódios de ontem e de hoje. Trata-se, de um lado, de rejeitar equiparações impossíveis e, pelo outro, lembrar o que escrevia, com trágica lucidez, Primo Levi: "Para muitos, indivíduos ou povos, pode acontecer de acreditar que 'todo estrangeiro é um inimigo'. Em geral esta convicção está no fundo dos corações como uma infecção latente. Mas, quando o dogma tácito se torna a premissa maior de um silogismo, então, no final da cadeia, iremos encontrar sempre o campo de extermínio".

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