Mosquito transgênico: jogar os insetos nos ecossistemas não resolve casos de zika e dengue. Entrevista especial com Silvia Ribeiro

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09 Março 2016

“A Oxitec é uma empresa comercial e vê a produção de insetos transgênicos como negócio, não como beneficência. É evidente que eles aproveitaram a emergência do Zika Vírus para vender, ainda que os resultados de seus experimentos sejam extremamente pobres e negativos, quando se considera o contexto da doença”, afirma a mexicana, coordenadora de programas do Grupo ETC.

Imagem: Brasil Escola

A produção de mosquitos transgênicos para combater a proliferação de algumas doenças como a dengue e a zika, a exemplo dos experimentos feitos pela empresa britânica Oxitec, não demonstram evidências de redução da dengue e do zika vírus, diz Silvia Ribeiro à IHU On-Line.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, a pesquisadora defende que em relação aos mosquitos transgênicos, “existe muita propaganda superficial, sem conteúdo sério, e parece haver bastante dinheiro de empresas de biotecnologia, entre outras instituições, para pagar por esta propaganda, como por exemplo, a Fundação Bill e Melinda Gates”.

De outro lado, diz, parte dos cientistas e pesquisadores são céticos com relação à “modificação genética de insetos, pelo papel onipresente de jogar os insetos nos ecossistemas, assim como a modificação genética de animais, como o salmão transgênico, que se pretende agora introduzir no Brasil”.

Coordenadora de programas do Grupo ETC, grupo de pesquisa sobre novas tecnologias e comunidades rurais, com sede no México, Silvia frisa que o Aedes aegypti “não é o único transmissor da dengue e de outras doenças. Seu deslocamento poderia favorecer a entrada do Aedes albopictus, um mosquito rival, mais difícil de combater. O vírus também poderia fazer mutação para conseguir outras formas de infecção”. Segundo ela, “se se comprovar, tal como já anunciaram pesquisadores da Fiocruz, que também o mosquito comum (Culex) pode transmitir o vírus da zika, todo o trabalho da Oxitec cai pelo peso de sua própria inutilidade, mostrando a ineficiência desta estratégia de ‘guerra’ a uma espécie”.

Na avaliação de Silvia Ribeiro, a melhor maneira de conter a proliferação de dengue e zika é “buscar um enfoque amplo para tratar o tema das doenças de forma participativa, preventiva e fundamentada na atenção primária à saúde, juntamente às comunidades – de bairros, da zona rural e incluindo epidemiologistas e outros profissionais críticos no diagnóstico e na discussão de medidas a tomar – é o melhor e quem sabe o único realmente efetivo”.

Silvia Ribeiro é pesquisadora e coordenadora de programas do Grupo ETC, grupo de pesquisa sobre novas tecnologias e comunidades rurais, com sede no México. Ela tem ampla bagagem como jornalista e ativista ambiental no Uruguai, Brasil e Suécia. Silvia também produziu uma série de artigos sobre transgênicos, novas tecnologias, concentração empresarial, propriedade intelectual, indígenas e direitos dos agricultores, que têm sido publicados em países latino-americanos, europeus e norte-americanos, em revistas e jornais, bem como vários capítulos de livros. Ela é membro da comissão editorial da Revista Latino-Americana Biodiversidad, sustento y culturas, e do jornal espanhol Ecología Política, entre outros.

Confira a entrevista. 

Foto: www.etcgroup.org

IHU On-Line - Como estão sendo desenvolvidos os mosquitos transgênicos? Quando, onde e em que contexto os mosquitos transgênicos começaram a ser desenvolvidos?

Silvia Ribeiro - A iniciativa de fazer mosquitos transgênicos foi da Oxitec, uma empresa britânica criada em 2002 a partir de um programa da Universidade de Oxford, no Reino Unido. A partir de 2006, a Oxitec começou a trabalhar em equipe com a transnacional Syngenta, que entre outras coisas financiou a investigação de Luke Alphey, cofundador da Oxitec, na Universidade de Oxford. Quase todos os diretores da Oxitec eram antes empregados da Syngenta.

Em meados de 2015, a empresa estadunidense Intrexon, cujos focos são a biologia sintética e animais transgênicos, comprou a Oxitec. A diretoria da Intrexon é formada por vários ex-diretores de empresas multinacionais, entre eles Robert Shapiro, ex-diretor executivo global da Monsanto.

Edward Hammond, da Rede do terceiro Mundo, conta que a Oxitec solicitou, desde 2004, 12 patentes para fazer insetos transgênicos e mutações de DNA que podem estar relacionadas a estes, registradas nos escritórios de patentes da Europa, Estados Unidos e outros países.

A técnica utilizada pela Oxitec se baseia em produzir mosquitos transgênicos que precisam estar na presença do antibiótico tetraciclina para se desenvolverem. Teoricamente, se as larvas deste mosquito não encontrarem tetraciclina, morrem. A Oxitec nomeia esta técnica de RIDL, do inglês Release of Insects with Dominant Lethality, que significa Liberação de Insetos Carregando Gene Letal Dominante. Todos os experimentos da Oxitec têm utilizado a família OX513A do mosquito Aedes aegypti, que contém uma construção genética de mortalidade condicional e um marcador genético vermelho fluorescente.

A Oxitec cria mosquitos com essas características em laboratório, e então seleciona manualmente os machos, que são liberados para cruzarem com fêmeas silvestres. O que se supõe é que as larvas resultantes desses cruzamentos não encontrarão tetraciclina e morrerão, mas o que acontece na prática pode acarretar muitos problemas. A Oxitec começou a fazer experimentos de liberação desses mosquitos desde 2009 nas Ilhas Cayman e, em 2010, na Malásia. A partir de 2011 a empresa começou a fazer estes experimentos no Panamá e no Brasil.

Todos os experimentos foram suspensos e, atualmente, só seguem em funcionamento no Brasil, ainda que a Oxitec aspire iniciá-los em outros países da Ásia e, inclusive, nos Estados Unidos, na Flórida.

“A Oxitec está considerando apenas o mosquito, que é um vetor das doenças, mas ignora a relação dinâmica entre os vírus que provocam tais doenças, as condições das pessoas infectadas e as populações de mosquitos com outros em seu entorno

IHU On-Line - Que experimentos foram realizados com os mosquitos transgênicos para evitar a propagação do Zika vírus? Os experimentos realizados pela empresa Oxitec nas Ilhas Cayman, Malásia, Panamá e Brasil são os mesmos, semelhantes ou diferentes? Como foram feitos esses experimentos nos diferentes países?

Silvia Ribeiro - Não foi feito nenhum experimento para evitar a propagação do Zika. A Oxitec está considerando apenas o mosquito, que é um vetor das doenças, mas ignora a relação dinâmica entre os vírus que provocam tais doenças, as condições das pessoas infectadas e as populações de mosquitos com outros em seu entorno.

Segundo a Oxitec, os experimentos feitos com mosquitos transgênicos servem para o controle da dengue. Como o Aedes aegypti é também um transmissor do Zika Vírus, a Oxitec aproveitou a declaração de emergência internacional para afirmar que o controle desse vetor teria efeito para o Zika também. No entanto, não existem evidências de que algum dos experimentos feitos em diversos países tenha tido efeitos de redução da dengue, muito menos do Zika Vírus.

Os experimentos da Oxitec tiveram muitas irregularidades, como a exportação de ovos de mosquitos transgênicos do Reino Unido, que violou regras britânicas e internacionais, como o Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança.

Falta de informação às populações locais

Além disso, a empresa não informou às populações locais sobre os experimentos e/ou sobre os riscos intrínsecos à liberação de mosquitos transgênicos. Nas Ilhas Cayman não foi divulgada nenhuma informação à população, e no Panamá o Instituto Gorgas, empresa sócia da Oxitec no experimento, fez apenas uma avaliação do risco para liberação “confinada” dos mosquitos transgênicos. Em ambos os países os experimentos foram suspensos. Na Malásia, o governo suspendeu os experimentos assim que recebeu críticas de especialistas independentes. No Brasil, no melhor dos casos, foi entregue apenas conteúdo propagandístico à população e não foram realizadas pesquisas de consulta prévia e informada. Em nenhum dos casos as avaliações de riscos cumprem com os padrões europeus da sede da empresa.

Todos os experimentos realizados consistiram em liberar, em uma determinada localidade, milhões de mosquitos transgênicos criados em laboratório, onde estes haviam recebido tetraciclina. Num segundo momento foram selecionados os machos, que são liberados para cruzarem com as fêmeas silvestres. Para conseguir tais cruzamentos, uma grande quantidade de mosquitos transgênicos teve de ser liberada, múltiplas vezes maior que a população já existente. Por exemplo, nas Ilhas Cayman 2,8 milhões de mosquitos foram liberados por semana, para uma população estimada de 20 mil mosquitos silvestres (10 mil fêmeas).

É crucial que não sejam liberadas as fêmeas, pois são elas que picam as pessoas, visto que necessitam de sangue para alimentar os ovos. Sendo os mosquitos transgênicos ou não, se as pessoas forem picadas e adquirirem doenças, elas também as transmitirão. No entanto, a seleção é manual, a Oxitec reconhece que sempre há uma porcentagem de fêmeas que são liberadas. Nas Ilhas Cayman, foi estimado que 5 mil fêmeas tenham sido liberadas para cada milhão de machos. No Brasil, a Oxitec informou que 0,02% dos mosquitos soltos eram fêmeas acidentalmente liberadas, numa proporção de 200 fêmeas por milhão de machos.

Logo após os experimentos, a Oxitec informou que houve reduções de 80% a 90% das populações de mosquitos, dependendo da região. Apesar disso, não significa que haja uma diminuição permanente e tampouco se sabe se os mosquitos silvestres apenas migraram para zonas vizinhas, o que aconteceu em zonas adjacentes às dos experimentos nas Ilhas Cayman.

Sempre são dados da própria empresa, que são difíceis de corroborar, porque em geral não existe linha de base (quantos mosquitos havia em determinada região antes do experimento) e a Oxitec tem uma história comprovada de falta de transparência.

No Brasil, a Oxitec instalou uma fábrica de mosquitos transgênicos em 2014, em Campinas, a qual tem colaboração de investigadores da Universidade de São Paulo. Têm sido feitos experimentos na Bahia — junto à sócia Moscamed — mesmo antes de ter permissão da CTNBio, e depois, em Piracicaba.

Somente no Brasil eles conseguiram manter os experimentos, com a anuência da CTNBio, com uma avaliação muito deficiente, que nega o princípio da precaução. A Anvisa não autorizou a comercialização.

“É crucial que não sejam liberadas as fêmeas, pois são elas que picam as pessoas, pois necessitam de sangue para alimentar os ovos

  

IHU On-Line - É possível vislumbrar quais são os efeitos ou consequências destes experimentos?

Silvia Ribeiro - Segundo reporta a Dra. Helen Wallace, da organização britânica independente de investigação GeneWatch, que acompanha os experimentos da Oxitec desde seu início, a liberação dos mosquitos transgênicos poderia causar o agravamento da dengue, devido a vários fatores.

Em zonas de dengue endêmica, a eliminação dos mosquitos por um período de tempo pode provocar a perda da resistência adquirida pelas pessoas a todos os serótipos da dengue, favorecendo o aumento de suas formas mais agressivas, como a dengue hemorrágica.

O Aedes aegypti não é o único transmissor da dengue e de outras doenças. Seu deslocamento poderia favorecer a entrada do Aedes albopictus, um mosquito rival, mais difícil de combater. O vírus também poderia fazer mutação para conseguir outras formas de infecção. O recente anúncio de pesquisadores da Fiocruz que encontraram o vírus do zika no mosquito Culex, que é o mais comum, aumenta esta preocupação de que o vírus se adapte a outros vetores e que outros mosquitos muito mais difundidos ocupem o nicho do Aedes Aegypti.

Já citamos previamente a liberação de mosquitos fêmeas que em determinadas circunstâncias poderiam inclusive aumentar a população de mosquitos picadores. A isto há de se considerar que, por um lado, a técnica da Oxitec não é infalível, pois nos laboratórios, de 3% a 4% das larvas que não deveriam se desenvolver, chegam à idade adulta.

Além disso, a técnica da Oxitec presume que os mosquitos não encontrarão tetraciclina no ambiente, argumento absurdo, pois a tetraciclina é um antibiótico amplamente usado em aplicações médicas e na criação industrial de animais (aves, suínos e bovinos). O Brasil é um dos maiores produtores de animais em confinamento do mundo e usa enormes quantidades de tetraciclina durante a criação. Segundo um informativo da OCDE, publicado em 26 de fevereiro de 2015, o Brasil está em terceiro lugar em nível mundial no uso de antibióticos na criação de gados.

Parte da tetraciclina escorre diretamente para as fontes de água, onde não é assimilada. Além disso, os animais de criação industrial contêm resíduos significativos de tetraciclina e outros antibióticos, e estes detritos se espalham por todos os lugares. Antes se supunha que o Aedes aegypti necessitava de água limpa para que seus ovos se desenvolvessem, mas agora se sabe que o mosquito se adaptou às águas com detritos, lixo etc.

A própria Oxitec, em uma ocasião, deu ração de gatos para as larvas de mosquito e 18% sobreviveram devido à presença de tetraciclina no alimento. A Oxitec sempre diz que há uma redução da população de mosquitos, mas não há nenhuma prova de que este método seja efetivo no controle das doenças.

Em Jacobina, Bahia, onde a Moscamed, uma sócia da Oxitec, liberou seus mosquitos transgênicos, a dengue aumentou de tal maneira que o município declarou emergência no ano seguinte. (Isto foi referido pela ASPTA e outras organizações em 2014).

IHU On-Line - Por que se diz que a produção de mosquitos transgênicos se desenvolveu como um “negócio” e não uma “solução” para tratar de combater o Aedes aegypti, por exemplo? Há a possibilidade de que esse seja um novo ramo de negócios transgênicos?

Silvia Ribeiro - A Oxitec é uma empresa comercial e vê a produção de insetos transgênicos como negócio, não como beneficência. É evidente que eles aproveitaram a emergência do Zika Vírus para vender, ainda que os resultados de seus experimentos sejam extremamente pobres e negativos, quando se considera o contexto da doença. Não esqueçamos que o problema são as doenças, não os mosquitos.

Com os mosquitos transgênicos, o negócio é conseguir mercados cativos, de onde se supõe que a população de mosquitos baixou, mas para que isso se mantenha, haveria de seguir sempre liberando mosquitos. Os únicos que poderiam pagar por isso seriam as instituições públicas, como já está acontecendo com o município de Piracicaba. A gravidade disso é que são desviados recursos que seriam da saúde, das soluções reais de atenção integral à população, incluindo formas coletivas sem obtenção de lucro para controlar a população de mosquitos, com melhor saneamento, telas para mosquitos, eliminação do lixo, entre outras.

Além disso, na diretoria da Oxitec estão ex-diretores e empregados do alto escalão de empresas como a Syngenta e Monsanto, empresas que têm demonstrado claramente ao mundo que seus negócios e ganâncias estão sempre antes do bem público, do meio ambiente ou da saúde.

IHU On-Line – Que outras críticas e objeções têm sido feitas aos mosquitos transgênicos?

Silvia Ribeiro - Além de todas as mencionadas, obviamente estamos falando de um animal transgênico liberado ao ambiente de forma impossível de se limitar. Há que se levar em conta que a Oxitec disse que eles morrerão por conta do gene letal condicional, mesmo que isso não aconteça em porcentagens significativas e que os mosquitos possam crescer e fazer mutações. Isto pode ter impactos imprevisíveis no meio ambiente, nesses, em outros mosquitos e em outras espécies que interagem com eles.

O fato de a Intrexon, uma empresa de biologia sintética que também trabalha no ramo de produção e venda de outros tipos de insetos e animais transgênicos, ter comprado a Oxitec aumenta o risco.

IHU On-Line - Em artigo recente, você chamou a atenção sobre a existência de ensaios para a mudança de insetos, feitos de maneira confinada, em universidades dos Estados Unidos. Isto gerou a advertência de cientistas sobre os altos riscos dessa tecnologia, inclusive no que diz respeito ao uso como arma biológica em potencial. Quais são os riscos e como esta questão está sendo debatida atualmente?

Silvia Ribeiro - É o caso da modificação de insetos com a tecnologia de biologia sintética CRISPR/Cas9, que se referia a modificações de mosquitos para combater a malária. Uma das preocupações manifestadas por cientistas da Universidade da Califórnia, em San Diego, é que a tecnologia demonstrou ter uma eficácia muito alta para se propagar (97% contra 33% das outras técnicas). Após ser aplicada em apenas uma ou duas gerações, já havia modificado geneticamente toda uma população de mosquitos em uma área, sem ficarem claros os efeitos secundários não previstos desta transformação, nem nos mosquitos, nem no ambiente, ou nas mudanças em outros agentes da própria doença que transmitem.

Por sua alta efetividade e acesso da tecnologia, haveria quem poderia usá-la como arma biológica, caso se modifiquem insetos para transmitir toxinas etc. Em geral, o tema da liberação de animais transgênicos é uma nova temática de discussão com implicações que vão além da discussão relacionada às plantas, que já é um grave problema de intervenção invasiva com a evolução das espécies e o ambiente.

  

“Há muito poucos cientistas que considerem os mosquitos da Oxitec como viáveis

IHU On-Line - Como o mundo está vendo a tecnologia dos mosquitos transgênicos, sejam as autoridades sanitárias, sejam os cientistas ou os críticos? Existe uma pressão para que os mosquitos transgênicos sejam utilizados em vista do Zika Vírus? Quem pressiona pelo uso da tecnologia?

Silvia Ribeiro - Existe muita propaganda superficial, sem conteúdo sério, e parece haver bastante dinheiro de empresas de biotecnologia, entre outras instituições, para pagar por esta propaganda, como por exemplo, a Fundação Bill e Melinda Gates. Há muito poucos cientistas que consideram os mosquitos da Oxitec como viáveis. Na realidade, é um experimento com tantas falhas e riscos que deveria ser suspenso totalmente. Se se comprovar, tal como já anunciaram pesquisadores da Fiocruz, que também o mosquito comum (Culex) pode transmitir o vírus da zika, todo o trabalho da Oxitec cai pelo peso de sua própria inutilidade, mostrando a ineficiência desta estratégia de “guerra” a uma espécie.

Também há ceticismo, alarde e prudência da maioria dos cientistas com a modificação genética de insetos, pelo papel onipresente de jogar os insetos nos ecossistemas, assim como a modificação genética de animais, como o salmão transgênico, que se pretende agora introduzir no Brasil. Esse salmão justamente é da AquaBounty, outra empresa da Intrexon, a mesma dona da Oxitec.

A Organização Mundial da Saúde, que sempre manteve um enfoque no vetor, anunciou, em 17 de fevereiro de 2016, que estava analisando a opção de utilizar os mosquitos transgênicos, dentre diversas outras formas, para combater os mosquitos vetores. Mas seu grupo de especialistas disse que eram necessárias avaliações de risco e testes para saber se realmente haveria incidência da doença e não recomendou agora o uso desta ferramenta.

Com essa declaração da Organização Mundial da Saúde - OMS, coloca-se em discussão a paupérrima valorização dos riscos que tiveram os experimentos feitos no Brasil — pior inclusive que em outros países onde os mesmos experimentos foram realizados — e que a decisão da CTNBio de permiti-los foi arbitrária (e posterior à liberação de mosquitos transgênicos da Oxitec na Bahia pela Moscamed).

A Oxitec não conta com a permissão da Anvisa, mas agora está usando a suposta emergência do Zika Vírus para pressionar a sua liberação, à qual é importante estarmos atentos e nos opormos.

IHU On-Line - Como você avalia o estado da Associação Brasileira de Saúde Coletiva - Abrasco, que relaciona o aumento da microcefalia com o uso de inseticidas e larvicidas colocados na água potável?

Silvia Ribeiro - Creio que a contribuição e a nota técnica explicativa da Abrasco são excelentes e falam do verdadeiro centro dos problemas. A microcefalia é uma anomalia que pode ter um amplo espectro de causas. É absurdo descartar a priori os fatores que levam à alta incidência da doença na saúde da população de onde saem 98% dos casos de microcefalia, como por exemplo, a exposição das pessoas a inseticidas de alta periculosidade e larvicidas na água potável, além de outros fatores citados desde 2014, salientados na nota técnica.

 

Saiba mais sobre o Aedes Aegypti

Ilustração: Portal EBC
IHU On-Line - Qual seria uma maneira adequada de combater o Aedes aegypti sem recorrer ao uso dos mosquitos transgênicos?

Silvia Ribeiro - É totalmente errôneo enfocar no vetor das doenças, o que lamentavelmente é feito pela OMS e entre muitos governos do continente, o que ajuda a piorar a situação das mesmas doenças e vulnerabilidades ao invés de enfrentá-las. A Oxitec é um exemplo extremo de empresa que se foca apenas em um aspecto, que é o que lhe dá lucro.

Como expressou Lia Giraldo da Silva Augusto em entrevista à IHU On-Line, “estão em jogo três ecologias que são interdependentes: a dos vírus, a do vetor e a dos humanos, e estas precisam ser abordadas conjuntamente”.

A proposta de uso dos mosquitos transgênicos se baseia em ignorar essas três ecologias e suas condições, ainda que modifiquem geneticamente para sempre uma espécie que vai intervir e interagir com todas as outras espécies e ecologias, o que pode resultar em problemas muito maiores que os que já existiam.

Creio que buscar um enfoque amplo para tratar o tema das doenças de forma participativa, preventiva e fundamentada na atenção primária à saúde, juntamente às comunidades — de bairros, da zona rural e incluindo epidemiologistas e outros profissionais críticos no diagnóstico e na discussão de medidas a tomar —, é o melhor e quem sabe o único realmente efetivo. Isto possibilita tomar consciência sobre as condições de vida, que incluem a pobreza, a má alimentação, a falta de serviços sanitários e de água potável — ou envenenamento de água potável com larvicidas — que em muitos casos são o pano de fundo que provoca o aumento dos mosquitos. Faz falta discutir nas comunidades, junto com as pessoas, quais medidas são necessárias e como podem ser feitas, o que demandar ao setor público e também qual organização é necessária e possível para mudar a situação.

IHU On-Line - Você gostaria de comentar mais alguma coisa?

Silvia Ribeiro - É fundamental opor-se aos mosquitos transgênicos, que não apenas pioram o problema que dizem combater, mas também drenam recursos públicos, mas, além disso, se baseiam na mesma mentalidade das empresas biotecnológicas que converteram o Brasil no maior usuário mundial de agrotóxicos, biocidas e outros venenos, em um país onde muitas crianças tomam água com veneno e muitas mães têm resíduos de agrotóxicos no leite materno, entre outros efeitos dos transgênicos. E agora querem avançar com insetos e animais transgênicos, que trarão toda uma nova série de impactos na saúde e no ambiente.

Aqui, indico algumas das fontes citadas e materiais para maior aprofundamento na temática:

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