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29 Janeiro 2016

Enquanto no cenário nacional país "perde feio", como admitiu o ministro da Saúde, há exemplos de iniciativas que vêm impondo reveses significativos ao mosquito. Mobilização social ainda é a principal arma.

A reportagem foi publicada por Deutsche Welle (DW), 27-01-2015.

As áreas em vermelho no mapa dos municípios de Goiás mostram os focos de criadouros do Aedes aegypti. Na central de comando, uma equipe da Secretaria Estadual de Saúde acompanha em tempo real os resultados das vistorias feitas pelos agentes de casa em casa.

Desde dezembro de 2015, quando o governo decretou situação de emergência sanitária no estado, cerca de 500 mil domicílios foram inspecionados. A meta do projeto "Goiás contra o Aedes" é varrer até o final deste mês todos os 3 milhões de imóveis dos 246 municípios goianos.

"À medida que os imóveis vão sendo visitados e inspecionados, recebemos informações sobre onde há ou não focos de criadouros do mosquito, o que foi feito para destruí-los e a orientação que foi dada aos moradores", explica à DW Brasil o secretário estadual de Saúde de Goiás, Leonardo Vilela. "O monitoramento permite voltar a imóveis que estavam fechados ou àqueles onde moradores não permitiram a entrada dos agentes."

A pedido do ministro da Saúde, Marcelo Castro, que admitiu que o país "perdeu feio" a batalha contra o mosquito, técnicos da pasta e da coordenação da Defesa Civil Nacional estão estudando a sala de comando e cogitam a possibilidade de implementação do software de georreferenciamento em todo o país.

"Isso está gerando uma base de dados importante para o controle epidemiológico e o planejamento das ações futuras", diz Vilela. Na primeira semana de janeiro, os casos de dengue caíram 28,5% em comparação com o mesmo período do ano passado, mas a redução já era esperada no estado devido ao período de festas. "Ainda é cedo para falar em resultados das novas ações", pondera o secretário.

Sinal verde

Uma iniciativa ainda mais simples livrou o município de Água Branca, no Piauí, do transmissor dos vírus da dengue, zika e chikungunya. Desde 2013, selos nas cores verde, amarela e vermelha fixados em cada residência classificam o risco de proliferação do Aedes aegypti. Após três anos de visitas e orientações contínuas à população, o vetor foi eliminado da cidade de 16 mil habitantes.

Em Marília, a 370 quilômetros de São Paulo, coordenadores de saúde, diretores de escolas e presidentes de associações comunitárias se reúnem semanalmente, desde novembro de 2015, para estabelecer uma agenda de estratégias, com o apoio de voluntários. Os comitês regionais, que estão distribuídos nos distritos da cidade, identificam locais de risco, organizam mutirões de limpeza e passeatas para pedir que moradores abram suas casas aos agentes de inspeção.

"A prefeitura já realizava ações de combate ao mosquito, mas a dificuldade maior era contar com a participação da população", diz o secretário municipal de Saúde de Marília, Danilo Bigeschi. "Os resultados mais significativos têm ocorrido por causa da mobilização social."

Desde o início do ano, a cidade de quase 200 mil habitantes registrou 14 casos de dengue. Em janeiro de 2015, foram cerca de 2 mil. "O fato de estar circulando o mesmo tipo viral evita novas infecções em pacientes que já tiveram a doença", explica Bigeschi. "E ainda com a criação dos comitês temos agora uma capacidade de resposta mais rápida ao mosquito."

O "beabá"

Um entrave para o monitoramento eficaz das residências é a recusa de moradores em receber os agentes de saúde. Em Goiás, foram cerca de mil impedimentos desde o início do projeto. Além disso, cerca de 30% dos imóveis visitados estavam fechados ou abandonados.

Vilela conta que a secretaria estadual de Saúde se inspirou na guerra travada contra o Aedes aegypti pelo sanitarista Osvaldo Cruz no Rio de Janeiro, no início do século passado. Com medidas duras que renderam a Cruz o apelido de "inimigo do povo", o mosquito, que na época transmitia a febre amarela urbana, chegou a ser erradicado em Goiás em 1939 e, 16 anos mais tarde, em todo o país.

"Com o apoio do Exército, ele conseguiu entrar em todas as casas e revirar todos os terrenos baldios. Ele isolou os doentes, usou todos os inseticidas disponíveis, inclusive o DDT, que hoje é proibido internacionalmente, e eliminou o uso de embalagens de lata", conta Carlos Fernando Salgueirosa, professor de Biologia da Unicamp. "Ele fez o 'beabá', três ou quatro coisas óbvias e simples, mas em larga escala."

"Apesar de ter ocorrido tantas décadas atrás, esse é o trabalho que ainda é o mais eficaz: destruir a fase de ovo e de larva não deixando água parada. Assim, interrompe-se o ciclo do mosquito", diz Vilela. Segundo Salgueirosa, as soluções mais efetivas são "as mais complicadas" de serem implantadas do ponto de vista social.

Assim como Cuba, Cingapura, considerada um exemplo bem-sucedido de combate ao mosquito, realiza inspeções diárias em residências, sem autorização judicial. Multas pesadas também são aplicadas aos cidadãos que mantêm focos do Aedes. Casos de negligência podem terminar em prisão.

A Agência Nacional de Meio Ambiente (NEA, na sigla em inglês) de Cingapura investe pesado em ações de combate e em novas tecnologias de controle da proliferação do mosquito, como o uso da bactéria wolbachia. No Brasil, a Fiocruz também realiza testes com o micro-organismo, que reduz a capacidade do mosquito de transmitir o vírus da dengue.