Informação, protagonismo social e políticas públicas na promoção de uma agricultura amigável. Entrevista especial com Leonardo Melgarejo

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23 Agosto 2015

"Não aos agrotóxicos, não aos transgênicos, não à comida que causa doenças", alerta o engenheiro agrônomo.

Foto: vivavistaalegre.com.br

O imaginário construído em torno das políticas agrícolas brasileiras reforça a ideia de que a única possibilidade de gerar produção suficiente para abastecer o país e o mercado de exportação é o modelo de monocultura de latifúndio, que é sustentado pelo uso de agrotóxicos. De acordo com Leonardo Melgarejo, a importância das discussões sobre esse tema é desconstruir esse pensamento e mostrar que não há base científica para a manutenção desse sistema agrícola dominante que causa profundos danos ao meio ambiente e à saúde. “A mudança é inexorável: não há razão técnica para que nossa sociedade continue induzindo mães a levarem para seus filhos comida com veneno”, ressaltou em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Munida de informação, a população tem a possibilidade de tomar decisões mais sustentáveis na escolha de seus alimentos e pressionar por mudanças. Assim, segundo o pesquisador, também “o debate sobre os agrotóxicos é importante, porque ajuda a construir consciências e formar cidadãos dispostos a ir além do papel de consumidores passivos”.

Leonardo Melgarejo é graduado em Engenharia Agronômica e mestre em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, e doutor em Engenharia de Produção pela Universidade de Santa Catarina - UFSC. Atualmente é engenheiro agrônomo da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural, membro do Grupo de Estudos em Agrobiodiversidade e coordenador do GT Agrotóxicos e Transgênicos da Associação Brasileira de Agroecologia.

Melgarejo estará nesta segunda-feira, 24 de Agosto, na Unisinos São Leopoldo, ministrando a palestra Políticas Públicas para redução no uso de agrotóxicos e participando do Lançamento do "Dossiê Abrasco: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde", durante o Seminário Agrotóxicos: Impactos na Saúde e no Ambiente, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU em parceria com o PPG em Saúde Coletiva da Unisinos.

A entrevista foi publicada, originalmente, na revista IHU On-Line, no. 470.

Confira a entrevista.

Foto: Jornal Brasil de Fato

IHU On-Line - Qual é a importância do debate sobre o uso de agrotóxicos?

Leonardo Melgarejo - A sociedade precisa de informações para atuar de forma consciente, para exercer com eficácia seu poder de influência sobre as políticas públicas e sobre as alternativas apresentadas pelos mercados. As decisões de compra, mesmo em suas opções individuais mais simples, quando em conjunto, assumem enorme peso político. Atitudes coletivas, sociais, de rejeição a riscos podem alterar a oferta de produtos que causam problemas para a saúde. E os agrotóxicos se enquadram nesta moldura.

O Brasil é o campeão mundial no uso de venenos agrícolas que causam diversos tipos de doenças, em boa parte do tipo incurável, apenas porque as pessoas acometidas pelas doenças não sabem que isso poderia ter sido evitado. E aqueles venenos também causam problemas sociais, incluindo-se entre as causas da crise financeira, porque passam pelo Sistema de Saúde Pública. Os produtores são afetados, o ambiente é afetado e os consumidores são afetados.

Os mais jovens e os mais velhos são as grandes vítimas e isso fragiliza a base estrutural de milhares de famílias rurais e urbanas. Embora seja verdade que estes venenos facilitam o manejo das grandes lavouras, não é real a crença de que nossa agricultura não pode viver sem eles, e que os pequenos agricultores se beneficiam de seu uso. Quem ganha mesmo com isso são as indústrias de veneno, as empresas de propaganda e as redes de comunicação. E todos estes, de forma muito natural se empenham em ocultar informações que ajudariam a reduzir os problemas. Afinal, por que agiriam de outra forma, se existem pelo objetivo de maximizar lucros? Então, o debate sobre os agrotóxicos é importante porque ajuda a construir consciências e formar cidadãos dispostos a ir além do papel de consumidores passivos. Este debate constrói pontes e passagens que permitem ultrapassar o bloqueio imposto pela grande mídia, apontando as fragilidades da mitologia que dá sustentação ao modelo agrícola dominante, que é viciado em agrotóxicos.

O debate também possui efeito pedagógico na medida em que revela ao cidadão comum seu poder real, anunciando que ele cresce quando é orientado para necessidades coletivas, quando se soma aos interesses da maioria. No debate dos agrotóxicos o interesse da maioria é fugir dos venenos. E as empresas se preocupam ao perceber que nos últimos anos a indignação da sociedade já vence o medo de passar fome. A sociedade sabe que vem sendo enganada e orientada a agir contra seus próprios interesses. Até o Papa faz alertas neste sentido, pedindo mudanças de comportamento individual, para que o mundo se altere. Para isso, basta que a sociedade se assenhore de um fato básico: isto não precisa ser assim! Podemos produzir comida sem veneno e ela não precisa custar mais caro do que a comida envenenada que hoje encontramos em todos os supermercados. Para que isso mude, basta que a sociedade diga “não”. Não aos agrotóxicos, não aos transgênicos, não à comida que causa doenças. Estamos avançando neste rumo e os debates têm sido fundamentais neste sentido.

Podemos produzir comida sem veneno e ela não precisa custar mais caro do que a comida envenenada que hoje encontramos em todos os supermercados

IHU On-Line - O Brasil, desde 2008, é o maior consumidor de agrotóxicos no mundo. Que significado tem essa marca? Quais são as dificuldades de sair dessa posição?

Leonardo Melgarejo - Mais de 60% dos agrotóxicos jogados no território brasileiro caem sobre lavouras transgênicas de soja, milho e algodão. Estas lavouras são fonte de ganhos milionários para seis empresas que detêm patentes das sementes modificadas. A elas não interessa qualquer mudança, e elas influenciam sobre o que se decide nas assembleias legislativas, na câmara federal e no senado. Elas também influenciam sobre órgãos de fiscalização e agentes de governo. E pagam por campanhas milionárias, voltadas à formação de uma opinião pública favorável ao chamado “agronegócio”.

Existem ainda outros interesses internacionais que motivam agentes que operam a seu serviço, em nosso país. Estes, em conjunto, estão levando o Brasil rumo à “alternativa” de se consolidar como colônia exportadora de matérias simples, não transformadas. Um novo ciclo de exploração, como tantos que já vivemos no passado, onde a economia depende dos minérios aos grãos e de quase nada mais além disso. Para aqueles interesses, no que diz respeito à agricultura, as grandes lavouras, as monoculturas se revelam como principal alternativa para ocupação do território nacional, esvaziando o campo para implantar blocos uniformes que agridem a natureza, criam necessidades ampliadas para o uso de venenos. Sua proposta é de conter as reações da natureza em operações de guerra. Guerra química.

Só de glifosato, na safra de 2003 foram utilizados 187 milhões de litros, em sua maior parte jogados de avião. Conforme o Instituto Nacional do Câncer – INCA, neste caso (do glifosato), assim como em outros, estamos jogando de avião algo que causa câncer. Apenas uma terça parte do que os aviões agrícolas derramam no nosso território alcança o alvo. O resto envenena solos, águas, animais e pessoas. Quando falamos em câncer causado pelo consumo de um veneno que está no grão de milho, nos referimos apenas a uma pequeníssima quantidade daquela parcela da calda tóxica jogada de avião, que atingiu o alvo. Imaginem o resto.

A dificuldade para sair desta situação reside na ausência de políticas públicas que estimulem de forma relevante a transição de modelos produtivos e levem à expansão na oferta de alimentos limpos. Isso se dá desta forma porque a sociedade é mal informada e ainda não se fez consciente de que suas decisões de compra mudarão o que ocorre no Brasil. Este modelo agrícola foi criado com base em muitos anos de subsídios e estímulos, montanhas de recursos em créditos, pesquisas e apoio à comercialização. Com muito menos do que isso, com uma parcela daqueles esforços sociais, desde que orientados para a agroecologia, poderíamos construir uma agricultura pujante, amistosa com a natureza e eticamente responsável para com os consumidores dos produtos colhidos, onde alimentos deixariam de ser confundidos com mercadorias.

Acredito que a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica e o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos - Pronara apontam caminhos para mudanças radicais, que, se implementadas, poderão retirar o Brasil desta posição incômoda, de “maior consumidor de agrotóxicos”. Infelizmente, mesmo depois de anunciadas, estas iniciativas continuam em disputa dentro do governo. Elas se chocam com os interesses daquelas empresas e dos políticos comprometidos com seus interesses. Sua consolidação e avanço efetivo dependem do apoio da sociedade e, portanto, da disseminação de informações que estimulem o protagonismo social, na luta contra os agrotóxicos.

“Não precisamos de um balde de veneno para contrair moléstias incuráveis”

 

IHU On-Line – Pesquisas indicam que cada brasileiro consome por ano uma média de 7,3 litros de agrotóxicos. No Rio Grande do Sul a média chega a 8 litros por ano. Por que esse número é maior no Estado?

Leonardo Melgarejo - Estes cálculos são realizados dividindo o volume aplicado pela população residente na área em questão. Assim, a média nacional é afetada por regiões como a Amazônia, onde ainda são utilizados pequenos volumes de venenos agrícolas. Mas vale lembrar que o Rio Grande do Sul também apresenta heterogeneidades. Na região do Planalto, a média supera os 11 Kg per capita, e na região de Torres ela é inferior a sete.

Em outras palavras, quanto maior o avanço das lavouras transgênicas, quanto mais consolidado o agronegócio exportador de commodities, maior o uso de agrotóxicos, e quanto menor a densidade populacional, relativamente ao volume aplicado, maior a média de consumo.

Mas a situação é pior do que parece. Apesar de assustadores, estes números revelam algo ilusório, por pelo menos dois motivos. Primeiro porque o volume de contrabando não está considerado no cálculo do volume de venenos aplicados. E no Rio Grande do Sul ele é por demais expressivo. Então, talvez nossa média real supere os 12 litros. O segundo motivo está no fato de que não precisamos de um balde de veneno para contrair moléstias incuráveis. Basta uma “subdose”, algo muito inferior ao mensurável, para causar dano em uma célula e deflagrar, com o tempo, a emergência de tumores malignos.

IHU On-Line - O senhor poderia falar um pouco sobre o trabalho da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – Agapan?

Leonardo Melgarejo - A Agapan trabalha com acompanhamento de temas associados à preservação do ambiente natural e da qualidade de vida. Faz isso há mais de 40 anos, e vem construindo credibilidade por conta da consistência de suas posições. Estudamos os assuntos de nosso campo de interesse e estamos seguros de que nossas posições se alicerçam no conhecimento científico mais atualizado. Por isso nos sentimos à vontade para defender os argumentos que divulgamos, em qualquer instância. E como organização não governamental, sem fins lucrativos, fazemos isso com intuito de contribuir para o desenvolvimento da sociedade, levando em conta perspectivas de longo prazo. Nosso principal papel é este: estudar, compreender e informar para auxiliar a sociedade a interpretar e reagir a problemas que se avolumam, desde seu início, antes que se transformem em dramas coletivos ou crises sem solução.

IHU On-Line – De que forma o senhor avalia a atuação do Programa Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos - Pronara? O que representam os resultados obtidos?

Leonardo Melgarejo - O Pronara ainda está em disputa. O principal resultado obtido, até o momento, diz respeito à sua própria existência. Sua construção, como proposta, é fruto de ampla articulação envolvendo diversos ministérios e várias organizações sociais, do campo e da cidade. Para que se tenha uma ideia, até o Ministério da Agricultura e a Embrapa participaram de sua formulação. Neste sentido, o Pronara é exemplo de êxito em termos de formulação porque representa amplo acordo político, voltado ao possível, onde todas as partes abriram mão de expectativas idealizadas. Porém, e ainda assim, as reações se avolumam, inclusive dentro do próprio governo e com liderança do próprio ministério da agricultura. O Pronara deve ser defendido pela sociedade, ou não terá sobrevida e não será possível que alcancemos, como nação, os objetivos ali acordados.

 

“Não há razão técnica para que nossa sociedade continue induzindo mães a levarem para seus filhos comida com veneno”

IHU On-Line – De que maneira o senhor vê o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica? Como ele tem sido uma alternativa ao uso de agrotóxicos?

Leonardo Melgarejo - O Pronara, antes referido, se trata de uma condição necessária ao sucesso do Planapo. O plano prevê incentivos à produção orgânica, que são fundamentais para o sucesso da implantação de novos sistemas produtivos. São essenciais, mas não são suficientes. Quando se estimula produção de base agroecológica sem observar o que se passa no mundo das monoculturas sustentadas por uso massivo de sementes transgênicas e agrotóxicos, surgem contradições que exigem medidas específicas, para serem superadas.

Observemos o caso da pulverização aérea de agrotóxicos. Conforme as condições do vento e de umidade do ar, as partículas podem se deslocar por quilômetros... Observemos o caso das relações de evaporação e precipitação de agroquímicos, como o glifosato: sua aplicação massiva gera, por estes processos de evaporação-condensação e precipitação, verdadeiras chuvas de veneno que ameaçam qualquer tentativa de produção orgânica, independente das medidas de controle que venham a ser implementadas. Observemos o fato de que os agrotóxicos são isentos de impostos e têm sua utilização estimulada na maioria dos estados, enquanto produtos de base agroecológica e a liberação de insetos para controle biológico se mostram onerosos e dificultados. Observemos o amplo desconhecimento de produtores, consumidores e mesmo de legisladores e membros do judiciário, quanto a particularidades relacionadas aos venenos agrícolas e seu uso. Levemos em conta as facilidades de registro de agrotóxicos, o baixo custo e a quase ausência de reavaliações, e perceberemos um vasto emaranhado de condições e mecanismos que dão estímulo e suporte ao uso de agrotóxicos.

Portanto, o sucesso do Planapo exige enfrentamento àqueles mecanismos. E esta é a missão do Pronara: orientar medidas para a redução das facilidades que estimulam o uso de venenos e abrir espaço para o avanço da consciência social e das iniciativas que ampliarão a produção orgânica e de base agroecológica.

O Planapo precisa do Pronara, assim como este precisa do protagonismo social, que, por sua vez, depende do acesso a informações e dos debates sobre o uso de agrotóxicos e suas implicações. O papel do Instituto Humanitas Unisinos - IHU é muito relevante neste sentido, e tem sido desempenhado de acordo com a responsabilidade social e os valores éticos que o definem.

A Agapan reconhece este papel e lhe atribui enorme relevância. Acreditamos que a persistência do IHU e a ação dos cidadãos que aqui se formam farão a diferença nesta luta que é de todos, e que ainda se estenderá por décadas. Basta persistirmos. A mudança é inexorável: não há razão técnica para que nossa sociedade continue induzindo mães a levarem para seus filhos comida com veneno. Não há justificativa para que esta informação se mantenha oculta e não há razão para que, sendo conhecida, se faça ignorada.

Por Leslie Chaves

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