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Entrevistas

Ausência de coesão política impede projeto de desenvolvimento brasileiro. Entrevista especial com David Kupfer

“A questão da desindustrialização tem de ser colocada numa ótica estrutural; ela não é um fenômeno homogêneo que afeta inteiramente a indústria”, menciona o economista.

Foto: www.viamaxi.com.br
A “raiz de todos os problemas” brasileiros, da política à economia, é a “disputa imediatista” de diversos grupos da sociedade, que impedem a construção de um projeto de desenvolvimento. A tese é defendida por David Kupfer, em entrevista à IHU On-Line por telefone. “O Brasil não tem um projeto de desenvolvimento não porque não o considere importante, ou porque não o considere factível ou qualquer razão diretamente ligada a essa necessidade. Nós não temos um projeto por causa da ausência de coesão política na sociedade brasileira. Nós não conseguimos construir esse projeto porque estamos permanentemente atropelados por interesses de prazos muito curtos, imediatistas”, avalia.

David Kupfer esclarece que a economia brasileira passou por “períodos razoáveis de estabilidade desde o Plano Real”, além de “períodos com robustez macroeconômica e, portanto, teríamos condições de fazer um plano de voo, um planejamento da transformação da economia brasileira e persegui-lo como meta a ser obtida num horizonte de tempo maior”. Contudo, frisa, um projeto de desenvolvimento tem se tornado impossível porque “é difícil”, no país, “conduzir um processo de transformação estrutural a partir da estrutura preexistente”.

Especialista em economia industrial, Kupfer frisa que as condições gerais e políticas desenvolvidas no país empurram a economia de modo a “reforçar os setores que já estavam mais bem constituídos” e assim a economia reforça o “poder econômico, político e de voz dos setores líderes preexistentes”. “E como sempre digo, estamos diante de um desafio de longo prazo de mudança estrutural. O Brasil precisa mudar de forma radical o padrão de especialização produtiva da sua economia. (...) Só que tal mudança jamais poderá se concretizar em um intervalo de tempo menor do que 15 anos”, pontua.

David Kupfer é mestre em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e doutor em Economia pela mesma universidade. É Professor Associado do Instituto de Economia da UFRJ, onde também coordena o grupo de pesquisa em Indústria e Competitividade, e é editor da Revista de Economia Contemporânea.

Confira a entrevista.

Foto: http://migre.me/pamce
IHU On-Line - Como o senhor está analisando os primeiros três meses do governo Dilma e os ajustes anunciados pela presidente, logo após a sua reeleição?

David Kupfer – Os primeiros meses são nitidamente de uma transição que está sendo realizada com muita dificuldade em função de razões objetivas e de razões que vou considerar subjetivas. As razões objetivas estão relacionadas à profundidade da guinada na política econômica que está sendo promovida nesse novo governo. As razões subjetivas estariam relacionadas a equívocos praticados pelo governo nas formas de comunicação e convencimento da população sobre a finalidade dessas políticas. Então, o quadro sugere que estão sendo implantadas mudanças radicais sem uma preparação adequada no plano da defesa dessas medidas mais profundas e da justificativa da necessidade e urgência de fazê-las.

IHU On-Line - Por que há uma guinada da política econômica?

David Kupfer – Entendo que a política econômica do período do primeiro governo Dilma foi deliberadamente marcada por objetivos anticíclicos. A opção por praticar uma política anticíclica foi correta à época. Mas o problema não estava aí, e sim nos meios e nos métodos que foram utilizados para a implementação dessa política. Houve uma aposta da parte dos formuladores da política econômica na capacidade de resposta do sistema produtivo e da própria economia a estímulos de demanda que se mostrou, no mínimo, muito otimista, para não dizer simplista.

Infelizmente até hoje a economia brasileira ainda é uma economia reflexa, a despeito de todo o esforço e de tudo que caminhamos em décadas. Esse caráter reflexo da economia é evidenciado pelo fato de que repercutimos com muita rapidez os movimentos da economia internacional. A economia brasileira é muito sensível aos mercados internacionais de commodities; aos preços que são praticados e às quantidades que são comercializadas nesses mercados. Essa é uma das razões pelas quais se fizeram necessárias políticas anticíclicas. Só que além do quadro internacional pouco favorável, a economia brasileira também estava percorrendo um ciclo por razões internas. O padrão de expansão da economia, que foi bem-sucedido nos anos anteriores, também se deparava com a iminência de uma reversão cíclica ao final dos anos 2000. Por isso, outras políticas, mais estruturais, também se faziam igualmente necessárias. Tínhamos então um quadro bastante complexo e diversificado em termos da natureza e origem dos problemas. Mas o fato é que, de modo geral, a política anticíclica ali do imediato pós-crise, em 2008-2009, foi bem-sucedida.

IHU On-Line – Mas o que ocorreu? A política anticíclica passou do tempo?

David Kupfer – Parece claro, principalmente olhando a posteriori, que a estratégia de combate à crise em 2008/2010 se estendeu excessivamente no tempo. É uma visão lógica: se uma política anticíclica é duradoura demais, ela gera um ciclo também. Acho que havia espaço para lançar mão de determinadas reservas de política econômica que o Brasil detinha em função dos bons fundamentos macroeconômicos que o país vivenciava — e nesse caso falo não somente das reservas internacionais, mas das reservas de política econômica proporcionadas pelos bons parâmetros referentes à dívida interna, à dívida externa, aos saldos da conta de transações correntes e ainda à própria capacidade de acumulação de superávits primários. Enfim, havia realmente um espaço disponível para suportar alguma diminuição de certas incidências tributárias, alguma redução das taxas de juros, alguma ampliação do crédito público, etc. O importante é que ter ocupado esse espaço era correto. O problema é que essa política, muito devido aos seus meios e métodos, não devolveu crescimento econômico na intensidade esperada.

Então, na medida em que aquela política não estava produzindo o efeito desejado, é provável que tenha ficado nas mãos do governo uma decisão difícil: insistir ou desistir? Na ocasião, entendeu-se que era melhor insistir até que os efeitos viessem, mas isso foi provocando uma deterioração daquelas boas relações macroeconômicas do período inicial — porque na economia os processos são muito rápidos —, e chegamos a uma situação em que aquele equilíbrio se viu comprometido. Ainda por cima, isso se deu num contexto de ano eleitoral, como foi o ano passado, o que atrasou a tomada de decisões, atrasou a preparação dessa transição na mudança desse modelo de política econômica, e levou a uma situação ainda pior do quadro econômico.

Finalmente, a percepção de que algum ajuste teria de ser feito acabou conduzindo a esse processo em que estamos agora. O ajuste está sendo muito profundo, de forma muito rápida, com pouco espaço de negociação e com pouca preparação em termos das medidas legais necessárias. Isso caiu como mais lenha numa fogueira política que já tinha explodido no ano passado, particularmente na fase aguda do processo eleitoral. Saímos da eleição com uma fragilidade política muito grande, e esse contexto que descrevi nos levou a um impasse político com cheiro de crise política. Por ora, o Congresso Nacional, que deveria ser o bombeiro, está colocando mais combustível na fogueira. Ainda não é uma crise política para valer, mas podemos chegar lá, e isso é preocupante.

"A estratégia de combate à crise em 2008/2010 se estendeu excessivamente no tempo"

IHU On-Line - Em 2011, ao avaliar o início do governo Dilma, o senhor comentou que talvez o governo ainda não estivesse preparado para fazer escolhas que implicassem no crescimento e no desenvolvimento do país. Que escolhas não foram feitas? Agora parece haver uma surpresa em relação ao cenário atual, mas esse cenário já havia sido anunciado e foi se desenhando nos últimos anos.

David Kupfer – Em 2011, provavelmente o que estava em questão era a forma como a política econômica havia sido conduzida. Tenho de recuar para colocar isso numa moldura histórica adequada. O grande problema de fato surgiu em 2010, que foi um ano em que o Brasil apresentou um crescimento elevado ainda num contexto de crise internacional. Conforme o debate que vigorava à época, que vou chamar de “caligráfico”, a questão era diagnosticar se a crise seria em U, em V ou, como alguns já falavam, em W. O Brasil conseguiu um sucesso muito grande com as políticas anticíclicas ligadas a diversas ações de governo de ampliar a demanda, mas também de facilitar o acesso e reduzir o custo de capital e coisas desse gênero. Predominava por aqui uma convicção de que o Brasil tinha vivido uma crise em V. Quer dizer, a sensação de superação rápida da crise gerou um certo quadro de euforia no Brasil e sobre o Brasil. Essa euforia, simbolicamente, foi traduzida por uma revista inglesa com aquela famosa capa mostrando uma imagem do Cristo Redentor decolando. Isso delineou um contexto de formulação de política que era muito mais otimista do que a realidade veio a revelar.

E isso porque com o segundo mergulho de 2011, motivado principalmente pela encrenca da zona do Euro, a letra que melhor revelou a caligrafia da crise mundial foi mesmo o W. Diante dele, houve reações das políticas econômicas em diversos países, particularmente a reação americana de instituir novas rodadas do afrouxamento monetário, da injeção de liquidez da economia, da preocupação em evitar deflações e assim sucessivamente. Muitas moedas, mas não o real, se desvalorizaram, apreciando ainda mais a nossa taxa efetiva de câmbio. Pior, a China começou a desacelerar — e essa desaceleração chinesa é algo que tem um cheiro de uma mudança que não é conjuntural, mas uma mudança no comportamento da economia mundial de natureza mais estrutural.

Brasil e o timing perdido

Naquele momento, então, ficava claro que a estratégia brasileira não teria chance de dar certo. Mas a realidade é que o que era o projeto de política econômica, que era a tentativa de levar a economia brasileira para um “mix” macroeconômico radicalmente diferente e que estaria apoiado numa taxa de juro menor, ou seja, normal — que é obviamente louvável como objetivo de política, e tem que ser perseguida—, e uma taxa de câmbio competitiva que também tem de ser objetivo de política, foi posto em prática a despeito do contexto inadequado. Ou seja, houve um problema de inadequação do timing. Determinadas medidas demoraram demais para serem adotadas e outras foram postergadas. O timing da política econômica divergiu profundamente do andamento real da situação econômica.

Enfim, houve um contexto da elaboração da política que trabalhou com um diagnóstico e com uma visão prospectiva que não se revelou verdadeira. E isso fez com que surgisse uma ideia de que as medidas anticíclicas não funcionaram ainda, mas funcionariam no semestre seguinte. Mas aí virou o ano de 2012, e a melhora foi postergada para 2013, e assim foi se convivendo com o dilema de insistir ou recuar — e a decisão foi sempre por insistir. Talvez tenha faltado colocar explicitamente na mesa exigências de contrapartidas em termos de investimento em expansão ou pelo menos em modernização a serem cumpridas pelos beneficiários dessas políticas anticíclicas, porque somente se dedicar a sustentar a demanda efetiva nem sempre é suficiente, especialmente para economias que requerem mudanças mais estruturais.

IHU On-Line – Pelo que o senhor está relatando, é possível perceber como a economia brasileira é instável. Isso é consequência de o país não ter um projeto de nação, ou isso tem a ver com um contexto internacional no qual o Brasil tenta se mover?

David Kupfer – Não tenho dúvida em relação a isso. O Brasil não tem um projeto de desenvolvimento não porque não o considere importante, ou porque não o considere factível ou qualquer razão diretamente ligada a essa necessidade. Nós não temos um projeto por causa da ausência de coesão política na sociedade brasileira. Nós não conseguimos construir esse projeto porque estamos permanentemente atropelados por interesses de prazos muito curtos, imediatistas. Há uma disputa muito imediatista pelos diversos grupos — não vou falar classe, porque isso não é uma questão de classe — que de algum modo participam do poder. Por conta dessa disputa, não conseguimos dar direção transformadora à política econômica e essa é a raiz de todos os problemas. Fazendo uma analogia talvez trivial, estamos boiando no mar. Quando o mar está calmo, está tudo bem, vamos boiando confortavelmente. Quando o mar se torna revolto, vamos sendo jogados ao sabor das ondas. Falta, de fato, que a política econômica esteja posta em função de um objetivo de economia a longo prazo. Isso é essencialmente uma questão de natureza política, e não uma questão de natureza econômica.

 

"Ainda não é uma crise política para valer, mas podemos chegar lá, e isso é preocupante"

IHU On-Line – O Brasil teve oportunidade de elaborar e desenvolver um projeto de nação, considerando ao menos os oito anos de governo FHC e 12 anos de governo Lula/Dilma?

David Kupfer – A oportunidade de pensar, sem dúvida. O Brasil tinha uma interdição dessa possibilidade nos anos de hiperinflação e profunda desorganização da atividade econômica. Ali, de fato, a necessidade de sobrevivência não só justificava como tornava necessárias ações de caráter mais imediatistas. Vou dar um exemplo do contexto que estou pensando: em anos de hiperinflação comuns em fins dos anos 1980 e início dos anos 1990, aquele empresário ou sindicato que tomasse decisões estratégicas esperando resultado para os próximos cinco anos, literalmente morreria. Então, ali o imediatismo era diretamente associado à necessidade de sobrevivência. Mas a economia passou por períodos razoáveis de estabilidade desde o Plano Real. O Brasil teve primeiro a estabilidade monetária, que é a mãe de todas as estabilidades no capitalismo contemporâneo. A estabilidade da moeda é condição essencial para o funcionamento e para a expansão do sistema. Então, mal ou bem, apesar das oscilações que ocorrem, já faz 20 anos — desde 1994 — que a estabilidade monetária é crível e não está comprometida, porque a inflação agora está próxima de 8%. Não há nem cheiro no Brasil de um descontrole inflacionário na dimensão do que tem ocorrido em outros países. Então, a estabilidade monetária nós temos, e essa é a principal pré-condição para que se pudesse pensar esse projeto a longo prazo. Tivemos também mais do que estabilidade monetária: tivemos alguns períodos com robustez macroeconômica e, portanto, teríamos condições de fazer um plano de voo, um planejamento da transformação da economia brasileira e persegui-lo como meta a ser obtida num horizonte de tempo maior.

Só que isso não aconteceu porque é difícil, no caso do Brasil, conduzir um processo de transformação estrutural a partir da estrutura preexistente. Então, as condições gerais empurraram a nossa economia de modo a reforçar os setores que já estavam mais bem constituídos e, portanto, a economia andou no sentido de reforçar o poder econômico, político e de voz dos setores líderes preexistentes. E como sempre digo, estamos diante de um desafio de longo prazo de mudança estrutural. O Brasil precisa mudar de forma radical o padrão de especialização produtiva da sua economia. Temos de olhar a nossa composição atual do emprego, ou seja, onde está o emprego na economia brasileira, e precisamos transformar isso radicalmente, quer dizer, criar empregos em novas atividades mais compatíveis com uma economia de renda média. Só que tal mudança jamais poderá se concretizar em um intervalo de tempo menor do que 15 anos.

IHU On-Line – Como fazer isso no atual cenário?

David Kupfer – Agora temos de ver que a economia brasileira vai num stop and go, porque ela não consegue manter o crescimento sustentável por razões diversas. Acho absolutamente defensável a ideia que é muito repetida pelo governo de que houve uma crise internacional disruptiva. É claro que houve. Se não tivesse havido a crise de 2008, o ciclo de investimentos que era o mais intenso dos últimos 30 anos no Brasil — estávamos com um ritmo de investimento semelhante ao dos anos 1970 — não teria se reduzido tanto.

No entanto, temos que lembrar que a economia começou a ter um bom desempenho em 2004, mas os investimentos não vieram imediatamente. Isso é um comportamento normal porque os tomadores de decisão inicialmente esperam para verificar se aquela tendência de expansão do nível de atividade é para valer, quer dizer, gera realmente a necessidade de construir novas fábricas, ou se é uma tendência passageira. Quando os empresários começam a acreditar que é para valer, a economia funciona com a sua pujança porque a expansão de uma empresa traz a expansão de outras por conta do próprio processo competitivo. É nesse momento que o ciclo de investimentos se amplifica.

Então, quando a economia começou a ficar animada em 2004, os investimentos não vieram. E nem em 2005 nem tampouco em 2006. Finalmente em 2007 houve um grande salto, em 2008 a economia estava indo muito bem e aí veio a crise internacional e o crescimento foi abortado. Resultado: tivemos um miniciclo de investimentos que não durou sequer três anos. Dado que o problema econômico brasileiro ainda é fundamentalmente um problema de acumulação de capital, não desprezando, é claro, outros processos acumulacionistas, como, por exemplo, a capacitação tecnológica, a qualificação da mão de obra, que são formas de acumulação de intangíveis, a reversão do ciclo de investimentos pós-2008 obviamente traria problemas adiante.

Rigidez estrutural da economia brasileira

Uma economia que trabalha sempre num nível de utilização de capacidade muito alto — essa é uma característica defensiva da organização industrial brasileira —, quando se depara com uma situação de parada de investimento, tem como consequência um cenário em que a demanda adicional não tem como ser atendida adequadamente. E isso era parte do contexto da grande euforia de 2010: acreditava-se que o investimento voltaria, mas ele não voltou, porque o quadro era diferente e já não era tão positivo. A euforia foi um estado de enebriamento e não estava apoiada em elementos realmente sólidos que a justificassem.

Como o investimento não retomou, caímos nesse processo de stop and go e de tempos em tempos começa uma batalha entre os diversos setores para tentarem se apropriar e manter as suas rendas. Isso vai tornando todo esse jogo mais imediatista e voltado para a manutenção do status quo. Como resultado, vai se gerando uma grande resistência à mudança e enrijecendo a estrutura produtiva brasileira.

Nós precisamos de uma mudança estrutural, mas temos uma dinâmica que vai enrijecendo a nossa estrutura, o que chamo de a “tese da rigidez estrutural da economia brasileira”. Nós temos um paradoxo: quanto mais se busca mudar, mais o resultado é o enrijecimento, porque essa mudança não está pactuada de algum modo pelos grupos econômicos, sociais, em torno de um objetivo que será obtido lá na frente e que seria melhor para todos. O problema é maior ainda porque está havendo transformações pesadas do papel da tecnologia e da inovação e também das formas de organização internacional da produção na competição global. Estamos em um mundo em rápido movimento e o Brasil parece não conseguir acompanhar. O resultado é inevitável: a defasagem tecnológica da economia está aumentando. Estamos acumulando um baita problema.

Como os anteriores, o atual hiato muito provavelmente será resolvido à brasileira. Em algum momento de um futuro que não sei exatamente quando será, mas que pode estar não muito distante, virá uma onda concentrada de modernização. Significa que enfrentamos o problema aos soluços. Voltaremos para a nossa distância habitual em relação à fronteira internacional. Vou colocar um número que não tem significado quantitativo, mas é como se o lugar do Brasil fosse a 30% da fronteira e o stop and go da economia vai levando a que se acumule um atraso. Quando a distância chega a 50%, faz-se um esforço para correr mais rápido e voltamos para os 30%.

"A defasagem tecnológica da economia está aumentando. Estamos acumulando um baita problema"

IHU On-Line – Isso em termos de produtividade e crescimento ou somente crescimento?

David Kupfer – Em termos de produtividade, de adoção de tecnologia, de modernização. Isso não só em produtos, mas nas relações sociais, na forma como as pessoas vivem. É mais amplo do que exclusivamente essa dimensão macroeconômica. É algo num plano estrutural, na tecnologia num sentido amplo ligada aos produtos que circulam na economia, aos processos que elaboram esses produtos, à organização produtiva por trás desse sistema industrial e assim sucessivamente.

IHU On-Line – Essa corrida para se manter em 30% em relação à fronteira internacional não representa um projeto de nação.

David Kupfer – É como se a ausência de um projeto levasse o Brasil a acumular um atraso e, a partir de um certo nível de atraso, surgisse enfim um projeto mas que se resume simplesmente a voltar ao nível anterior. Não é sustentável nem é algo que esteja relacionado com as nossas forças produtivas nem com a nossa capacidade de transformação.

IHU On-Line – Uma das críticas aos empresários do setor industrial é a de que eles deixaram de investir no país e muitos viraram rentistas. Por que isso aconteceu se há estabilidade monetária, como o senhor disse? Essa dinâmica tem a ver com a crise internacional ou é uma tendência, ou o senhor ainda avalia isso de outro modo?

David Kupfer – Tenho um pensamento próprio a esse respeito, que me leva a colocar essa pergunta em um contexto diferente. Eu entendo esse processo como a essência do comportamento de busca de flexibilidade da empresa brasileira. A empresa brasileira a que me refiro não é exclusivamente a empresa de capital nacional, porque a multinacional, quando começa a operar no Brasil, rapidamente também passa a reproduzir esse padrão comportamental. Portanto, a busca de flexibilidade é algo que está no ambiente econômico brasileiro.

A busca de flexibilidade é como se a empresa operasse um hedge. Quer dizer, a empresa prefere estratégias que em conjunto fornecem uma proteção quanto aos riscos e incertezas futuras e preservam a capacidade de decidir em um momento posterior. O resultado da busca de flexibilidade, embora positivo em termos da capacidade individual de sobrevivência das empresas, é muito ruim em termos agregados porque leva à minimização de investimentos que, por sua vez, é o principal determinante da rigidez estrutural que mencionei anteriormente.

Três tipos de flexibilidade

São três os tipos de flexibilidade: a de receitas, no plano financeiro, a de sourcing, no plano produtivo e a de utilização de capacidade produtiva no plano patrimonial.

Um primeiro tipo dessas flexibilidades é a de receita. A empresa obtém receitas operacionais, ligadas à venda do bem ou serviço que produz, e também receitas não operacionais, originadas pelas aplicações financeiras que mantém. Isso faz um mecanismo de proteção porque normalmente quando as receitas operacionais não estão indo muito bem, as financeiras estão, e vice-versa, dada a relação inversa entre taxas de juros e demanda agregada. Ou seja, há uma tesouraria que está sempre com um nível alto de aplicações, significando que capital que poderia estar sendo direcionado para investimentos está represado na forma de títulos ou similares. Comportamento alternativo seria o de disparar um plano de investimentos visando incorporar novas tecnologias, crescer a produtividade, aumentar a competitividade, obter produtos melhores e mais baratos, conseguindo lá na frente um dinamismo muito maior da demanda que retornaria na forma de maiores receitas operacionais.

A essa flexibilidade financeira foi se somar outra flexibilidade que as empresas buscaram, desenvolveram e detêm, que é a flexibilidade de sourcing, que significa a compra de insumos produtivos no Brasil e no exterior em função da variação da taxa de câmbio. Essa flexibilidade que começou a ser buscada na década de 1990 foi a resposta de sobrevivência desse sistema industrial aos efeitos da abertura promovida no Brasil de forma mal planejada, num contexto de crise econômica aberta e crise política. Essa flexibilidade também funciona como hedge cambial visando a proteção dos custos de produção da empresa. Então, à medida que o real foi apreciando, nesse ciclo recente de 2004 até dois anos atrás, as empresas não desapareceram. Elas perderam um pouco de tamanho, de receita, mas se ajustaram ao mercado aumentando as importações de peças e componentes, algumas unidades industriais se tornaram quase que comercializadoras de bens importados, mas continuaram operando. Não perdemos a indústria, mas perdemos densidade industrial, interações tecnológicas nas cadeias produtivas, potencial de aprendizado e inovação e assim por diante.

As empresas desenvolveram ainda uma terceira flexibilidade que é a de capacidade produtiva: é a habilidade de operar sempre com elevado grau de utilização da capacidade. Para garantir essa operação sempre com baixa ociosidade, nas fases de retração as empresas aprenderam a manter linhas de produção como que “hibernando”. Quando a economia melhora, a linha de produção é retomada. É um excelente meio de minimizar investimentos mas conduz a um resultado agregado claramente indesejável.

 

"Não perdemos a indústria, mas perdemos densidade industrial, interações tecnológicas nas cadeias produtivas, potencial de aprendizado e inovação"

Risco de investimento e a reutilização da velha indústria

Quando a economia entra em crescimento, ao invés de surgirem fábricas novas, unidades produtivas novas, com tecnologias novas, esse comportamento minimizador de investimento leva a que se superutilize a capacidade existente para não correr o risco do investimento, para não assumir o risco da imobilização do capital. Pega-se uma máquina velha e a põe para funcionar, contrata-se mais gente e passa a operar em mais turnos, parte-se para processos de fusões e aquisições, ou seja, aumenta-se a taxa de utilização do estoque de capital existente. Assim, a resposta da oferta ao crescimento da demanda é freada por esse comportamento minimizador de investimentos. É como se tivéssemos uma trajetória de crescimento com custos crescentes ao invés de decrescentes como seria de se esperar.

Então, moral da história: não acho que a conotação adequada seja rotular o empresário brasileiro como rentista. Ele, de fato, é um minimizador de investimentos. No contato com o empresariado você percebe imediatamente que ele justifica isso com a instabilidade crônica e duradoura da economia brasileira. E isso não é uma ficção, é uma justificativa verdadeira. Ao mesmo tempo, a volatilidade da política econômica também estimula esse comportamento minimizador de investimentos. Por exemplo, toda a mudança que se fez nas taxas de juros e de câmbio em 2011/2012, que reverteu posteriormente. Situações como essa justificam esse comportamento, porque o pensamento do empresariado é o seguinte: “Se eu tivesse imobilizado o capital em função dessa mudança, eu teria perdido, porque ela não foi sustentável”.

Esse é uma característica da constituição desse sistema industrial e, essencialmente, um problema micro/macroeconômico: como o ambiente macroeconômico hostil transmite aos agentes microeconômicos um incentivo para um tipo de comportamento que produz um resultado macroeconômico negativo, tornando o ambiente mais hostil e assim por diante.

Agora novamente estamos passando por uma guinada na política econômica, a qual premia o comportamento de busca de flexibilidade. Então, vive bem no Brasil quem é flexível e não quem é ousado e aposta, no sentido positivo, na construção de ativos. A economia, mal ou bem, acaba premiando quem tem flexibilidade e não quem tem capacidade empreendedora.

IHU On-Line – Nesse novo cenário, quais os riscos de desindustrialização e como se manifesta nos setores?

David Kupfer – A questão da desindustrialização tem de ser colocada numa ótica estrutural; ela não é um fenômeno homogêneo que afeta inteiramente a indústria. Esse quadro negativo e hostil que descrevi, e que está vigorando nesse momento, é um quadro negativo para toda indústria, mas afeta de forma diferente os setores da indústria. A indústria de insumos básicos, principalmente a de commodities agrícolas e industriais, é bem desenvolvida no Brasil e conta com um núcleo de empresas com grande capacidade produtiva e disponibilidade de matéria-prima e, portanto, é um núcleo bem constituído que enfrenta um cenário ruim de média duração — não conjuntural, é mais amplo que isso —, mas que vai sobreviver e depois vai retomar. Os setores de siderurgia, petroquímica, celulose não estão desindustrializando, mas vivendo uma fase baixa de um ciclo.

A indústria que tem mais intensidade tecnológica, que vai desde a automobilística aos bens de capital, é muito heterogênea e particularmente em sua face eletrônica nunca foi bem constituída no país. Os setores de bens eletrônicos de consumo, eletrodomésticos e automobilístico são grandes e hoje contam com uma demanda interna muito robusta. Já os nichos de equipamentos elétricos e mecânicos, informática, material eletrônico se reestruturaram recorrendo às flexibilidades que eu mencionei, como um caminho de sobrevivência. Eles também não estão se desindustrializando — os dados mostram isso. Enfrentam sim o problema da perda de densidade industrial.

Miolo da indústria

O miolo da indústria, que é a parte onde está a maioria dos empregos industriais — que é a indústria tradicional, tais como têxtil, vestuário, calçados, móveis, artigos plásticos, a indústria que permite a produção em diversas escalas, com dispersão de território em quase todo o Brasil —, é que tem enfrentado, sim, um processo de desindustrialização e está perdendo peso de forma permanente. Não é um ciclo conjuntural, nem de médio prazo ou algo relacionado a uma retomada futura. Ela está perdendo peso porque a despeito dos custos de produção no Brasil serem muito altos, ela está sendo empurrada exatamente para um padrão de competição em custos no qual batem de frente com concorrentes chineses e de outros países da Ásia. É como se ela estivesse duelando com as armas do adversário; ela vai perder ou já está perdendo.

Aqui é o lugar da transformação estrutural que eu falava no início. Temos de olhar onde está a composição do emprego no Brasil e sair disso para algo completamente diferente.

É nesses setores que isso tem de acontecer, e não é pela busca de redução de custos que vamos fazer essa transformação. A indústria está sendo levada a uma armadilha pela ausência de um quadro macroeconômico mais favorável e pela ausência de uma política industrial efetiva que ajude as empresas a fazerem essa transformação. Temos de sair do baixo custo porque temos de abrir espaço para um aumento do valor criado pelo trabalho nessa indústria no Brasil. Isto significa que temos de abrir espaço para o crescimento do salário real usado por essa indústria, porque ela precisa encarecer e não baratear. Essa é a necessidade relacionada ao desenvolvimento econômico brasileiro: teríamos de ir para uma indústria de maior valor agregado para abrigar nesse maior valor os maiores custos relativos à Ásia que temos no Brasil.

"Vive bem no Brasil quem é flexível e não quem é ousado e aposta"

Estratégia industrial

A solução então tem de vir de uma estratégia industrial completamente contrária a que tem sido praticada. Não é enxugar gelo reduzindo custos obsessivamente, porque já estamos no osso. Há muito tempo a indústria brasileira opera no osso e não tem onde cortar custo. O que se faz agora, reduzindo as equipes drasticamente, superutilizando o parque fabril e outras iniciativas do gênero compromete a produtividade. E isso é um beco sem saída. É claro que as empresas individualmente não têm outra saída se não reduzirem custos para tentar atender a uma encomenda, para sobreviver. Essa saída tem de vir de uma reformulação da estrutura produtiva, que tem de estar apoiada num ambiente macroeconômico favorável e em políticas que favoreçam esse processo.

Esse quadro do início do primeiro governo significa que estamos em compasso de espera; 2015 não é um ano para introduzir medidas nessa direção. Ao contrário, o ambiente macroeconômico estará mais hostil porque os juros vão subir. A taxa de câmbio bem mais desvalorizada favorece o setor industrial, mas o custo de ajustamento da economia ao dólar caro vai cobrar um preço bastante alto na fase de transição, a qual alguns dizem que durará um ano, outros dizem que durará dois anos. Então, até meados do ano que vem os setores estarão diante não de uma reversão do processo, mas de um aprofundamento desse processo de desindustrialização. Mais uma vez é hora de sobreviver.

(Por Patricia Fachin)

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