A economia brasileira e um emaranhado de incertezas. Entrevista especial com Fernando Cardim de Carvalho

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16 Julho 2014

“Com o resto do mundo em crise, inclusive nossos vizinhos argentinos, manter-se em crescimento com câmbio sobrevalorizado tornou-se bem mais difícil, mesmo com o acúmulo de medidas mais ou menos ad hoc que o governo tem tomado”, pondera o economista.

 Foto: webnode.com.br

A crise econômica dos países desenvolvidos, “só comparável ao ocorrido nos anos 30 do século passado”, ainda gera uma série de “incertezas” e afeta, inclusive, os países em desenvolvimento. No caso do Brasil, diz Fernando Cardim de Carvalho, “pairam dúvidas profundas” e perguntas sem respostas, como, “por quanto tempo o Brasil vai patinar, alcançando taxas tão irrisórias de crescimento? As taxas verificadas nos últimos anos certamente nos manteriam subdesenvolvidos por muito tempo, mas estamos condenados a viver dentro de limites tão medíocres?”.

Segundo a estimativa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, o Brasil não terá condições de alcançar o nível de renda dos países desenvolvidos até 2050. Mas antes de ser um mapa de previsões em relação aos rumos da economia brasileira nos próximos 30 anos, os dados da OCDE apontam para uma reflexão acerca “do que está acontecendo agora” no país, diz o economista. Para ele, “esse tipo de relatório convida à reflexão sobre o presente e o futuro imediato, não sobre o que acontecerá daqui a 30 ou 40 anos”.

Especialista em desenvolvimento e crescimento econômico, Carvalho afirma que os “problemas a serem superados são óbvios. No campo macroeconômico, os juros são altos demais, o câmbio é sobrevalorizado, os impostos são altos e um tanto irracionais, a inflação tem se mostrado renitente às políticas que buscam sua redução. Mas há problemas estruturais com relativamente pouca ênfase sendo dada à definição das frentes futuras de expansão, para orientar investimentos, em favor de medidas de impacto imediato, como o estímulo ao mercado de automóveis, a baixa qualidade da educação no país, que prejudica a elevação da produtividade, a falta de investimentos públicos, especialmente em infraestrutura. A lista é familiar, com certeza”.

Entre as políticas de enfrentamento da pobreza e superação das desigualdades adotadas nos últimos anos, o economista salienta que o “esforço de redistribuição de renda é meritório, ainda que pareça estranho que governos liderados por partidos social-democratas, como o PSDB e o PT, não tenham se preocupado em tornar progressivos os impostos sobre rendas pessoais”. Em relação à política de acesso a universidades, contudo, adverte: “Tenho sérias dúvidas de que subsidiar a entrada em escolas privadas de segunda categoria, em cursos cuja necessidade para o país é duvidosa, seja uma política de alguma eficácia”.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, ele ainda comenta as políticas econômicas adotadas no Brasil e em outros países, e suas influências no desenvolvimento. Entre os economistas que veem com bons olhos as políticas keynesianas, ele é categórico: “O estado de bem-estar não falhou por razões econômicas, ele perdeu sua base de sustentação política quando do movimento Reagan/Thatcher. As políticas de pleno emprego e de administração de demanda agregada para defender níveis elevados de emprego não foram abandonadas porque não tiveram resultados, mas porque políticos conservadores, apoiados por economistas também conservadores, como Milton Friedman e seus herdeiros, convenceram o público de que fábulas como a da cigarra e a formiga tinham base factual. O próprio ex-presidente Lula gostava de repetir frases do tipo ‘o governo é como uma família’, que são totalmente desprovidas de sentido efetivo, mas parecem muito convincentes para eleitores”.

Fernando Cardim de Carvalho é mestre em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp e doutor em Economia pela Rutgers, State University of New Jersey. Atualmente é professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Economia da mesma universidade.

Confira a entrevista.

 Foto: www.ie.ufrj.br

IHU On-Line - Como o senhor interpreta o dado da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE, de que o Brasil não conseguirá atingir o nível de renda média dos países desenvolvidos até 2050?

Fernando Cardim de Carvalho - Projeções para prazos longos como esse não têm muito valor como projeção, porque o número de supostos incertos que se tem de aceitar é quase infinito. O valor desse tipo de análise não é o que diz do que vai acontecer daqui a 50 anos, mas o que diz do que está acontecendo agora.

Ou seja, o que ela propõe é que, a manterem-se certas tendências verificadas no presente, com alguns ajustes definidos a gosto do analista, a convergência levaria tanto ou tanto tempo para ser conseguida. Mas mesmo sobre o presente, há grande incerteza. Os países desenvolvidos passam por uma crise de grandes proporções, só comparável ao ocorrido nos anos 30 do século passado.

Crises como essa não contraem apenas a economia, elas mudam seus parâmetros. Algum dia a União Europeia vai voltar a crescer, provavelmente, mas a que taxas? Até mesmo sua sobrevivência está em dúvida. A China tenta reorientar seu padrão de crescimento, será que vai conseguir? Como? E a economia americana, vai manter sua posição de liderança? O dólar vai se manter como a moeda internacional? Tudo isso afeta as projeções para os países desenvolvidos. Mas também aqui para nós pairam dúvidas profundas. Por quanto tempo o Brasil vai patinar, alcançando taxas tão irrisórias de crescimento? As taxas verificadas nos últimos anos certamente nos manteriam subdesenvolvidos por muito tempo, mas estamos condenados a viver dentro de limites tão medíocres? Esse tipo de relatório convida à reflexão sobre o presente e o futuro imediato, não sobre o que acontecerá daqui a 30 ou 40 anos.

IHU On-Line - Muitos economistas apontam o Brasil como um país promissor econômica e socialmente no futuro, por conta dos seus “potenciais” e porque cresce minimamente, enquanto países desenvolvidos enfrentam algumas situações de crise. Contudo, apesar dessa expectativa, quais são as razões e as políticas econômicas adotadas hoje que possibilitam vislumbrar o resultado apontado pela pesquisa a longo prazo?

 

 “A pobreza pode ser combatida sem que as desigualdades sejam efetivamente combatidas, elevando o piso de renda, mas sem tocar nos picos”

Fernando Cardim de Carvalho - Não basta que existam recursos naturais, isso não é condição necessária (veja-se a Inglaterra ou o Japão), nem suficiente, como mostram os países africanos. Nós nos enredamos em dificuldades em parte herdadas do contexto de globalização, em que uma dose significativa de autonomia nacional é perdida, em parte em dificuldades criadas por nós mesmos, na definição da política macroeconômica, por exemplo, ou em políticas setoriais. Nossas possibilidades concretas de desenvolvimento e de superação das taxas de crescimento reduzidas que temos vivido dependem de nossa capacidade de aprendizado, especialmente dos que ocupam posições de responsabilidade como autoridades econômicas.

IHU On-Line - À época do governo Lula, os economistas divergiam acerca do crescimento brasileiro, quando o PIB chegou a 7%. Uns diziam que o crescimento estava relacionado com o bom desempenho da economia brasileira, enquanto outros alegavam que o alto crescimento era consequência da boa fase da economia internacional. Hoje, relaciona-se o baixo crescimento à situação econômica internacional. Considerando o cenário atual, quais são os impactos externos que interferem na economia brasileira e quais são os problemas internos que dificultam o crescimento brasileiro?

Fernando Cardim de Carvalho - Os famosos 7% de 2010 têm de ser tomados com muito cuidado. Eles não representavam uma tendência que de alguma forma não se conseguiu manter, eles representavam uma reação à política anticíclica adotada a partir do final de 2008 e à própria contração anterior. Ela não indicava uma nova estratégia de crescimento, apenas a eficácia de uma política de saída de uma contração. As dificuldades mais estruturais, como a tendência à participação declinante da indústria na economia, a sobrevalorização cambial, etc., se mantiveram. O impulso foi mantido graças à eficácia de políticas como a expansão do crédito, principalmente a consumidores, através de modalidades como o crédito consignado, e a manutenção de uma demanda elevada por importações por parte da China. O endividamento das famílias parece ter atingido seus limites, especialmente numa situação de juros mais altos, e a China mudou seu padrão de crescimento. Com o resto do mundo em crise, inclusive nossos vizinhos argentinos, manter-se em crescimento com câmbio sobrevalorizado tornou-se bem mais difícil, mesmo com o acúmulo de medidas mais ou menos ad hoc que o governo tem tomado.

IHU On-Line – Que medidas o Brasil precisa para equiparar a renda a dos países desenvolvidos?

Fernando Cardim de Carvalho - Essa é uma questão muito ampla, que precisaria de muito espaço para ser adequadamente discutida. Mas os problemas a serem superados são óbvios. No campo macroeconômico, os juros são altos demais, o câmbio é sobrevalorizado, os impostos são altos e um tanto irracionais, a inflação tem se mostrado renitente às políticas que buscam sua redução. Mas há problemas estruturais com relativamente pouca ênfase sendo dada à definição das frentes futuras de expansão, para orientar investimentos, em favor de medidas de impacto imediato, como o estímulo ao mercado de automóveis, a baixa qualidade da educação no país, que prejudica a elevação da produtividade, a falta de investimentos públicos, especialmente em infraestrutura. A lista é familiar, com certeza.

IHU On-Line - Considerando o quadro industrial brasileiro e as medidas sociais dos últimos governos (aumento do salário mínimo, acesso a crédito, acesso à universidade e programas de distribuição de renda), que análise é possível fazer acerca do desenvolvimento do país? Em termos de desenvolvimento, é possível perceber um avanço no Brasil?

 

 “Nós nos enredamos em dificuldades”

 

Fernando Cardim de Carvalho - O esforço de redistribuição de renda é meritório, ainda que me pareça estranho que governos liderados por partidos social-democratas, como o PSDB e o PT, não tenham se preocupado em tornar progressivos os impostos sobre rendas pessoais. Com relação à política de acesso a universidades, eu tenho sérias dúvidas de que subsidiar a entrada em escolas privadas de segunda categoria, em cursos cuja necessidade para o país é duvidosa, seja uma política de alguma eficácia. Mas não há dúvida que houve uma melhora em muitos aspectos, como a aposentadoria rural, por exemplo.

IHU On-Line - Segundo pesquisa recente do IBGE, referente a 2011, 82% dos empregados brasileiros recebem até três salários mínimos, sendo que 30% desses recebem até um salário mínimo. Como o senhor avalia, nesse sentido, o aumento progressivo do salário mínimo, mas o nivelamento por baixo da média salarial e o índice crescente de empregos no setor de serviços? Que modelo de desenvolvimento está se desenhando no país em relação ao trabalho?

Fernando Cardim de Carvalho - Esta é uma política que deve ser analisada com muito cuidado, para que aumentos de salários nominais não se esfumacem em altas de preços. Eu tenho a impressão de que essa política exige, para se tornar sustentável e eficaz, a adoção paralela de políticas de melhoria da produtividade, qualificação da mão de obra, abertura de novos mercados, etc.

IHU On-Line - Em que medida a diminuição da pobreza implica superação das desigualdades sociais? No Brasil, o foco de superação ainda está muito relacionado à pobreza?

Fernando Cardim de Carvalho - São dois problemas conectados, mas diferentes. A pobreza pode ser combatida sem que as desigualdades sejam efetivamente combatidas, elevando o piso de renda, mas sem tocar nos picos. Esquemas realmente redistributivos, de subsídios às rendas mais baixas, financiados por impostos sobre as rendas pessoais mais altas, foram eficazes de forma mais duradoura nos países escandinavos, por exemplo.

IHU On-Line - O livro do economista Thomas Piketty, Capital no século XXI, recolocou o debate acerca das desigualdades em cena. A partir de uma perspectiva econômica, como a questão das desigualdades deve ser abordada?

 

 “Os famosos 7% de 2010 têm de ser tomados com muito cuidado”

 

Fernando Cardim de Carvalho - Por enquanto, eu conheço o livro apenas por terceiras pessoas, pelos palpites dados por outros. Eu não costumo emitir opinião sobre a opinião de outros sobre a obra de outros. O livro está na minha estante, mas ainda espera que chegue sua vez.

IHU On-Line - Tem sentido relacionar as desigualdades e o atual quadro de desigualdades mundial com o desenvolvimento do capitalismo?

Fernando Cardim de Carvalho - Claro. A partir das revoluções neoliberais dos anos 70 e 80 do século passado, com Reagan e Thatcher à frente, firmou-se a ideia de que era preciso liberar as energias criativas dos mais ricos. Isso teve o resultado que se viu, com a crise de 2007/2008.

IHU On-Line - Políticas econômicas com base numa concepção keynesiana de economia ainda são eficientes para resolver os problemas de desigualdades de uma nação, considerando que o estado de bem-estar social Europeu falhou e que o Estado avança devagar na área social?

Fernando Cardim de Carvalho - O estado de bem-estar não falhou por razões econômicas, ele perdeu sua base de sustentação política quando do movimento Reagan/Thatcher. As políticas de pleno emprego e de administração de demanda agregada para defender níveis elevados de emprego não foram abandonadas porque não tiveram resultados, mas porque políticos conservadores, apoiados por economistas também conservadores, como Milton Friedman e seus herdeiros, convenceram o público de que fábulas como a da cigarra e a formiga tinham base factual. O próprio ex-presidente Lula gostava de repetir frases do tipo “o governo é como uma família”, que são totalmente desprovidas de sentido efetivo, mas parecem muito convincentes para eleitores.

IHU On-Line - Com a financeirização da economia e com as crises financeiras recentes, que políticas econômicas são urgentes para os dias de hoje? Ainda nesse sentido, que teoria econômica melhor se enquadra para explicar o mundo hoje?

Fernando Cardim de Carvalho - Isso seria assunto para outra conversa, também, mas a globalização financeira do presente e a liberalização de mercados que se desenvolveu em paralelo não são forças naturais, sua aceitação se deve a decisões políticas e podem ser limitadas por decisão política também.

(Por Patricia Fachin)