''A palavra 'esquerda' não serve mais. Quem a usa é conservador''. Entrevista com Massimo Cacciari

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01 Agosto 2013

Para o professor de filosofia italiano, ex-prefeito de Veneza, "continuar com os mesmos termos para se opor à direita ofusca a realidade. É urgente o 'fazer': resolver os problemas do país".

A reportagem é do jornal La Repubblica, 31-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Esquerda" é uma palavra desajeitada. Os jogos de palavras podem ser reveladores. A palavra esquerda é marcada pela insuficiência, condenada por um destino inscrito na sua própria etimologia latina: sinisteritas significa inaptidão, desleixo.

Quando Massimo Cacciari abriu com essas considerações um "escandaloso" congresso romano sobre "O conceito de esquerda", a sua ironia filológica parecia completamente fora de lugar: era 1981, a era Reagan-Thatcher estava no auge do seu cínico vigor, e parecia haver uma grande necessidade de esquerda no mundo.

Trinta anos depois, o filósofo de Veneza não mudou de ideia, ao contrário, é a história que parece ter dado razão às suas profecias lexicais: se a direita se endireitou bem ou mal, a esquerda parece cada vez mais esquerdeada. A tal ponto que "essa palavra não nos serve mais, está desossada, dessemantizada. Continuar a usá-la é prejudicial, ofusca a visão da realidade".

Eis a entrevista.

No entanto, professor, apesar daquela maldição etimológica, a palavra esquerda sobreviveu a muitos outros rótulos da política. Como o senhor explica isso?

Voltar à raiz latina da palavra esquerda, naquele congresso, foi mais do que uma diversão, mas a provocação servia para demonstrar que as palavras não são eternas ou neutras no seu significado. É verdade, a palavra esquerda não desapareceu, ao contrário, substituiu outros adjetivos que decaíram nas denominações de alguns partidos, mas se tornou cada vez mais porosa. No sentido de que absorve, todos os dias, significados e sucos diferentes, é uma palavra instável e, definitivamente, inútil.

Mas quando o senhor a declarou como tal, ela era decisivamente mais sólida, não?

Ela indicava algo de historicamente circunscrito. Já então nem todos se diziam "de  esquerda", à esquerda. Esquerda indicava social-democracia, bem-estar pós-keynesiano, redistribuição da renda. Os outros eram comunistas, era difícil que um comunista se definisse como "de esquerda". A palavra esquerda, então, tinha um forte conteúdo político, era uma distinção reconhecível, mesmo no plano de valores, mas tudo isso porque existia a direita, haviam os não democráticos, havia os fascistas. Mas, já então, quem queria entender, sabia que essa distinção não era universal, estava ligada a uma fase da história e já estava evaporando com ela.

Por que razão?

A oposição direita-esquerda é linear, bidimensional. Se faltar um dos termos, o outro também desmorona. Os últimos adversários de direita foram justamente Reagan e Thatcher, uma direita mundial aguerrida e muito clara nos seus princípios e muito inovadora nas suas técnicas. Essa foi a última grande ocasião de "fazer algo de esquerda", mas era preciso captá-la de um modo novo, renunciar ao keynesianismo, preparar-se para o futuro, nos programas e nos instrumentos. Ao invés, a resposta foi conservadora: reforçar as bases históricas e ideológicas de uma esquerda que se opõe aos "reacionários". Mas, para a ciência política, reacionário é quem quer girar para trás a roda da história, para antes da Revolução Francesa. E nem Thatcher, nem Reagan, nem nenhum outro que se via por aí propunham que se voltasse ao Rei Sol.

Nesse congresso, Paolo Flores d'Arcais, embora propondo uma refundação conceitual, defendia a palavra esquerda como "estenograma" dos valores da Revolução Francesa. Não pode ser ainda assim?

Mas, depois da Revolução Francesa, toda a política, não só a esquerda, teve que se mover no espaço prospectivo definida por aquelas palavras: liberdade, igualdade, fraternidade. Porém, para cada uma, foi necessário se perguntar: qual? De que modo? Igualdade como oportunidade ou como direito? Como ponto de partida ou de chegada? As respostas foram diferentes, historicamente nem todas definíveis como "de esquerda".

Nem mesmo Bobbio, dez anos depois, lhe convenceu a recuperar o conceito?

No seu esforço de definir as bases de um "tipo ideal" de esquerda, Bobbio recorreu à ideia-guia de igualdade. Mas era uma base desesperadamente pobre, não sustentava uma verdadeira dualidade, uma verdadeira oposição. Quem hoje promove a desigualdade? Quero dizer, quem a propõe abertamente como programa político? É claro que a desigualdade existe ou, melhor, está crescendo, mas não é uma ideologia, é um fato. A desigualdade não é o programa odioso de um adversário reconhecível; no máximo é a forma que a globalização assumiu, é o anônimo que assumiu o rosto do estado de natureza, do inevitável, e ninguém o contesta. Se, depois, quiserem dizer que combater as desigualdades é necessário, estamos de acordo; se quiserem dizer que esse é o sentido de estar à esquerda, sigam em frente, mas ainda estamos no início, ainda não definimos nada. Como se superam as desigualdades? Com quais instrumentos, instituições, agregações políticas?

Trinta anos atrás, o senhor se perguntava se fazia sentido tentar recuperar a palavra esquerda. Tem uma resposta hoje?

Sim: negativa. O que faz sentido hoje é redefinir uma política de mudança. As soluções não se colocam mais em um ponto preciso da escala que vai da direita à esquerda. As soluções não são encontradas na caixa específica. É preciso buscá-las nas transgressões da topografia política, na saída "catastrófica" do plano bidimensional. O elétron, diz-nos a ciência, não tem um lugar, é um feixe de ondas. Assim deve ser o pensamento político. Eu comecei a dialogar com os intelectuais de direita há 30 anos. Eles me amaldiçoaram por isso. Urgente é o fazer. Volta-se aos problemas. Perguntar-se o que é a Europa, o que é a nação, como se aborda a globalização. Não há um prontuário de esquerda para essas coisas, porque a disposição conceitual direita-esquerda é arcaica, linear, enquanto o mundo de hoje é multidimensional.

Soluções pragmáticas. E os valores? E a ética?

Os valores na política são os bons projetos. Dizemos que a política possa tornar o mundo mais justo nos comícios. Se você me perguntar, para mim, o mundo é um inferno e assim permanecerá até que haja um só homem que morra de fome. Mas, se eu faço política, a minha tarefa é buscar soluções viáveis e compatíveis para fazer morrer de fome um pouco menos de pessoas. Política é o calculemus de Leibniz.

Mas o conjunto desses cálculos pragmáticos também deverá ter uma coerência, e a coerência não pode ter um nome?

E por que deveria? Se o meu projeto político tem coerência, bem, chamemo-lo Geppetto ou Tonino, ou Partido Reformista, não é isso que importa... Em todo caso, se você quiser fazer algo novo, deve dizer algo novo, ou a sua linguagem irá obscurecer a realidade. Ensinaram-me que uma palavra tem sentido dentro de uma frase, não sozinha. Esquerda era uma palavra da frase keynesiana, democrático-antifascista, que não nos serve mais, não há mais fascistas, somos todos democráticos. Se eu insisto em dizer esquerda, trago sobre as costas uma dicotomia que é marcada pela história, me ancoro no passado. Quem se diz "de esquerda" hoje é um perfeito conservador, esconde-se atrás dos simulacros. É a palavra-refúgio dos aparatos. Eu sei bem por que a usam, porque não têm mais nada na cachola, é inércia pura.

E o militante? Ele tem uma exigência diferente, e sincera, de identidade, de autorreconhecimento.

O militante entenderia muito bem. O seu propósito é mudar o mundo, e não definir a si mesmo. Definir-se com uma palavra porosa e empobrecida o prejudica, deixa-o com uma bandeirinha a desfraldar e alguns comportamentos virtuosos banais que não são nada identitários. Talvez alguns à direita defendem que é preciso poluir ou desperdiçar os recursos da terra?

Mas o militante "de esquerda" continua se perguntando: o que eu sou? E por que sou o que sou?

Ser é fazer, política é actuositas. Os verdadeiros revolucionários sempre pensaram isto: eu sou o que eu faço. O outro lado da moeda – eu faço porque eu sou, eu faço o que eu sou – é a raiz do totalitarismo.

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