Além da moral dos bancos. Entrevista com Gaël Giraud

Revista ihu on-line

Gauchismo - A tradição inventada e as disputas pela memória

Edição: 493

Leia mais

Financeirização, Crise Sistêmica e Políticas Públicas

Edição: 492

Leia mais

SUS por um fio. De sistema público e universal de saúde a simples negócio

Edição: 491

Leia mais

Mais Lidos

  • Na China, “a problemática da ecologia, vista como um luxo, choca-se com a do emprego, que é vita

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

13 Janeiro 2012

"As regras de mercado são insalubres, é preciso mudá-las. E não basta mais que os financistas cristãos sejam honestos, senão redescobrirem o valor da ética coletiva", afirma o jesuíta e economista francês Gaël Giraud.

A reportagem é de Daniele Zappala, publicada no jornal dos bispos italianos, Avvenire, 28-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"A situação italiana, porém, não é de pânico: seus fundamentos são saudáveis, a dívida privada é baixa... O governo poderia lançar um empréstimo nacional, como esforço de solidariedade comum".

O coração do debate se situa "nos mercados e na recuperação dos déficits fiscais que os Estados europeus se infligiram, às vezes, sozinhos. Em todo caso, a situação europeia é politicamente reversível". O barulho das tempestades financeiras atuais não tirou do jesuíta francês Gaël Giraud, membro da prestigiosa Paris School of Economics e do CNRS [Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França], a firme vontade de se esquivar dos lugares comuns mais em voga para se concentrar, ao contrário, no núcleo dos problema.

Com o seu olhar original e às vezes contracorrente, o economista já tinha se estabelecido na França com um magistral ensaio sobre a teoria dos jogos, reimpresso muitas vezes pela editora Flammarion. Mas é sobretudo com a obra coletiva “20 propostas para reformar o capitalismo”, coeditado juntamente com Cécile Renouard, também pela Flammarion, que Giraud conseguiu inserir novas dimensões, a partir da moral, sobre os esquemas de análise mais convencionais sobre a crise.

Eis a entrevista.

Padre Giraud, para o senhor, as raízes da crise atual não são estritamente financeiras. Por quê?


Há 20 anos, encontramo-nos em uma configuração econômica muito desfavorável para a Europa. Estamos em concorrência com países emergentes que têm condições salariais muito diferentes das nossas. E nós mesmos, portanto, sofremos de uma compressão salarial muito forte. As famílias europeias, norte-americanas, japonesas não consumem mais o suficiente por causa de rendas muito frágeis. De repente, o único meio macroeconômico global que se encontrou para compensar essa fraqueza foi o crédito ao consumo, em meados dos anos 1990. É sobre esse crédito, especialmente nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na Espanha e na Austrália, que se desencadeou a bolha financeira do período 2001-2007, a dos subprimes. As dívidas públicas atuais estão ligadas, em grande parte, à transferência sob a forma pública de dívidas privadas, que tinham se tornado insuportáveis em 2008.

Podemos nos perguntar se é democrático que dívidas privadas se tornem públicas...

Em 2008, os Estados europeus fizeram bem em salvar os bancos. Isso era absolutamente indispensável. Mas hoje os mercados se vingam contra os Estados, criticando-os por estarem muito endividados, quando uma parte do endividamento está ligado justamente ao resgate dos bancos. Nesse ponto, eu compreendo o descontentamento popular, na Espanha e na Grécia, de quem diz que não é preciso, necessariamente, que sejam os desempregados que paguem pelos erros dos bancos. Isso é ainda mais verdadeiro se pensarmos que os planos de austeridade impostos hoje servirão  talvez para reduzir o déficit, mas não para diminuir a dívida pública, seja por causa das repercussões sobre o crescimento, seja porque as taxas de juros já estão muito altas.

As análises sobre a situação das contas italianas muitas vezes divergem muito. O que você pensa a respeito?

Trata-se de uma situação que, em certos aspectos, é melhor do que a francesa. Uma parte da dívida italiana é uma herança dos anos 1990. Mas, em geral, os fundamentos da economia italiana estão saudáveis. A dívida privada é muito frágil e boa parte da dívida pública é detida por italianos. Na Itália, não há razões para semear o pânico, mas os mercados financeiros hoje não são muito razoáveis.

A força da economia familiar italiana servirá de escudo no médio prazo?

Absolutamente, sim. Até se poderia especular que um governo forte decida se tornar mais independente dos mercados através de um grande empréstimo nacional italiano mal remunerado, digamos de 1% ou 2%, que faria parte de um esforço de solidariedade nacional. Em todo caso, isso seria muito mais fácil de se realizar do que na França, onde a situação do endividamento privado é muito mais delicado. Nos países anglo-saxões, no entanto, isso seria absolutamente impossível, por causa da fraca poupança do endividamento privado excessivo.

As relações entre França e Alemanha levantam discussões, entre temores de um novo diretório europeu a dois e – ao contrário – diagnósticos de ruptura. O que você acha?


Todo aparente diretório é provisório, já que a França estará em breve na mesma situação da Itália e da Espanha. A meu ver, nas atuais tratativas com a Alemanha, a França tem um papel ruim, já que parece querer proteger exclusivamente os seus bancos. A Alemanha, ao contrário, quer fazer avançar a questão do cancelamento pelo menos parcial das dívidas, ao custo de fazer com que os bancos paguem. Na Alemanha, existe um autêntico lobby industrial capaz de servir de contrapeso ao bancário. Na França, não. Ao mesmo tempo, pessoalmente, eu não compartilho a oposição da Alemanha a uma monetarização da dívida pública. Acredito que a dupla franco-alemã está mal e, além disso, é mal vista pelos outros países da União Europeia. Mas ela ainda pode fazer muito pela Europa, trabalhando na constituição de um verdadeiro governo econômico europeu e monetarizando uma parte das dívidas públicas dos países frágeis.

Como sair do túnel?

Há três caminhos. O primeiro, à qual a França se opõe, é o cancelamento parcial das dívidas, o que já está sendo feito com a Grécia e que, provavelmente, será feito com a Irlanda e Portugal. Talvez, também com a Espanha, Itália e França. Isso coloca a grande questão política do futuro dos bancos expostos ao risco de um acidente, em particular os franceses e os alemães. Certamente, será necessário nacionalizar alguns, pelo menos parcialmente, mas, em todo caso, será preciso escolher entre a opção islandesa, a de não pagar os bancos, os irlandeses, e a opção oposta irlandesa. No primeiro caso, os poupadores ricos pagarão a conta. No segundo, todos os contribuintes.

Qual é a alternativa?

A monetarização, ou seja, a autorização dada ao Banco Central Europeu de criar moeda para comprar as dívidas públicas. Mas aqui é a Alemanha que rema contra. Ainda resta uma terceira via, ou seja, o avanço rápido para um governo político europeu com uma autêntica legitimidade democrática para impor decisões difíceis. Esse governo provavelmente teria uma coloração alemã e imporia a austeridade contábil por toda a parte, mas com transferências financeiras como contrapartida. Seria provavelmente a única forma de obrigar a Alemanha a pagar em parte pelos outros. Pode-se esperar que tal governo tenha credibilidade suficiente para impor uma mistura: coordenação dos anulamentos parciais das dívidas, revisão dos tratados para permitir que o BCE financie uma parte das dívidas etc. Mas ainda estamos muito longe de um governo desses. A própria Alemanha, depois de ter dado a impressão de ser favorável, recém mostrou que não está pronta para pagar a conta em favor dos países mais frágeis.

Essa crise econômica é também o reflexo de uma crise moral?

Muitos dos mecanismos econômico atuais podem ser considerados como oportunistas e fundamentados em particular sobre um risco moral. Por exemplo, há um conflito de interesses entre as agências de rating e os bancos do qual são pagas. As agências sempre dizem o que os bancos querem ouvir. As câmaras de compensação sobre os mercados financeiros, ao contrário, são pagos pelos investidores, portanto, se mostram para eles o máximo possível complacentes. Nos EUA, o governo Obama é, em parte, composto por banqueiros, e o problema dos conflitos de interesses se generaliza. Ao mesmo tempo, pode-se perceber um problema moral em nível financeiro ligado também ao fato de que os cristãos engajados nas finanças têm uma concepção muito restritiva da moral individual, que é a da honestidade. Ou seja, consiste em dizer: eu não meto as mãos no caixa e respeito as regras do jogo. Mas hoje nos encontramos em uma situação em que as regras do jogo são insalubres, é preciso mudá-las. É um problema de ética coletiva, e os cristãos, na minha opinião, deveriam justamente redescobrir as virtudes da ética coletiva, tão importante na tradição cristã, mas hoje menos vivida. Conduzir bem um trem já é uma boa coisa boa, mas às vezes é moralmente imperioso perguntar-se também qual é a sua carga.