Compartilhar Compartilhar
Aumentar / diminuir a letra Diminuir / Aumentar a letra

Entrevistas

Parques tecnológicos na Amazônia e as experiências de desenvolvimento sustentável. Entrevista especial com Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves

Parques tecnológicos promovem o desenvolvimento econômico e a universalização de programas básicos de cidadania por meio de uma estratégia de desenvolvimento territorial sustentável, avalia a pesquisadora.

Foto: Uol

Como proposta para enfrentar os dilemas socioambientais da Amazônia, os Parques Tecnológicos presentes em algumas universidades, como o da Universidade Federal da Amazônia - UFAM, desenvolvem projetos com os povos tradicionais da região para promover a “inclusão social dos segmentos em situação de risco social e ambiental e de marginalização social, que antes tinham sua condição de cidadãos negada e que passam a obter o acesso a bens e serviços sociais”, diz a pesquisadora Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail. Tais projetos, acentua, proporcionam a capacitação e formação dos trabalhadores “com uso de tecnologias e inovações que aumentam a produtividade e geram emprego e renda”.

De acordo com a pesquisadora, os problemas socioambientais da região estão relacionados “com os direcionamentos das políticas públicas que não atendem às necessidades regionais específicas; com a carência de políticas para o desenvolvimento de Ciência, Tecnologia e Inovação na região; e com a necessidade de valorização dos conhecimentos dos povos tradicionais (ribeirinhos, varjeiros, indígenas, quilombolas, pescadores e agricultores) em suas práticas de manejo sustentável dos recursos naturais locais”. Com o objetivo de romper com esse cenário, “os parques tecnológicos fornecem o ambiente para oportunizar a realização de negócios e sediar empreendimentos baseados em conhecimento, ao arregimentar e abrigar centros, núcleo e laboratórios para pesquisa, focados no desenvolvimento tecnológico, práticas de inovação e incubação, capacitação, prospecção, implantação de infraestrutura, bem como feiras, exposições e desenvolvimento mercadológico. A implantação dos parques na região atende a população de 45 municípios do estado e tem a “finalidade contribuir para o desenvolvimento econômico, cultural e político dos povos da Amazônia, sob bases sustentáveis”, conclui.

Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves é graduada em Serviço Social pela Universidade Federal do Amazonas - UFMA, mestre em Sociologia Rural pela Universidade Federal da Paraíba – UFPb e doutora em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, e em 'Processus d`Inovation Changements Organisationnel' no Centre International de Recherche sur l`Environnement et le Devellopment, de Paris. É docente da Universidade Federal do Amazonas, coordenadora do Grupo Interdisciplinar de Estudos Socioambientais e de Desenvolvimento de Tecnologias Apropriadas na Amazônia.

Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves participará do I Congresso de Direito, Biotecnologia e Sociedades Tradicionais, promovido pelo Programa de Pós-Graduação - PPG de Direito da Unisinos, nos dias 25 e 26 de março de 2014.

Foto: UFAM

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são os principais dilemas socioambientais da Amazônia?

Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves - Dentre os inúmeros dilemas socioambientais da Amazônia, destacam-se: a) os direcionamentos das políticas públicas que não atendem às necessidades regionais específicas; b) carência de políticas para o desenvolvimento de Ciência, Tecnologia e Inovação na região; e c) necessidade de valorização dos conhecimentos dos povos tradicionais (ribeirinhos, varjeiros, indígenas, quilombolas, pescadores e agricultores) em suas práticas de manejo sustentável dos recursos naturais locais.

IHU On-Line - Quais são as comunidades tradicionais envolvidas com projetos de inovação tecnológica na Amazônia?

Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves - Na atualidade já há um número significativo de comunidades tradicionais envolvidas em projetos de inovação social na Amazônia, todavia, ainda é um número reduzido em relação ao contingente existente. Igualmente faltam estudos que contabilizem os totais destas participações.

IHU On-Line - Como se dá a interação entre as inovações tecnológicas e os saberes das comunidades tradicionais?

Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves - As Instituições de Ciência e Tecnologia desenvolvem projetos de extensão e pesquisa com a participação das populações locais. Para implementar projetos desta natureza é necessário obter uma série de licenças prévias junto aos órgãos gestores das políticas de proteção destes segmentos populacionais.

IHU On-Line - Em que medida essa interação possibilita a inclusão social e a superação de problemas socioambientais?

Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves - O nível de abrangência dos projetos é muito variado: alguns geram resultados que inclusive podem ser replicados para contextos similares, e uma grande maioria gera efeitos muito pequenos ou pouco visíveis para a sociedade do entorno.

IHU On-Line - Quais demandas sociais podem ser resolvidas a partir das Tecnologias Sociais?

Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves - Esta modalidade de Tecnologia (produtos ou processos) pode ser caracterizada por pelo menos três formas de melhoria, de maneira isolada ou combinada, seguida de algumas formas de ação coletiva: 1) ajuda a promover a satisfação das necessidades humanas de populações em condições de exclusão social; 2) facilita o acesso aos direitos sociais nas áreas de educação, saúde, assistência técnica para produção, assistência social, comunicação, energia entre outras; 3) contribui para potencializar as capacidades humanas pelo fortalecimento e empoderamento de grupos sociais, crescimento do capital social.

IHU On-Line - Na prática, quais têm sido os resultados da relação entre tecnologias sociais e saberes tradicionais para as comunidades da Amazônia?

Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves - Inúmeros resultados são relatados por estudos feitos na região, embora ainda sejam numericamente restritos em relação às demandas e necessidades existentes. Dentre eles estão: 1) a satisfação das necessidades humanas não satisfeitas pelo mercado, como acesso a processos e serviços inovadores, num novo padrão de compartilhamento de responsabilidades; 2) a promoção da inclusão social dos segmentos em situação de risco social e ambiental e de marginalização social que antes tinham sua condição de cidadãos negada e que passam a obter o acesso a bens e serviços sociais; 3) a realização de capacitação e formação para o trabalho com uso de tecnologias e inovações que aumentam a produtividade e geram emprego e renda.

IHU On-Line - Quais são as atividades e projetos de inovação tecnológicos desenvolvidos pelo Parque Científico e Tecnológico para Inclusão Social?

Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves - A experiência desenvolvida pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM, no Parque Científico e Tecnológico para Inclusão Social, representa uma resposta direta aos dilemas socioambientais mediante o desafio de inclusão social e sustentabilidade na Amazônia.

No Brasil, na última década, de acordo com a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores - ANPROTEC, a criação de Parques Tecnológicos - PqTs passou a constituir-se numa estratégia de promoção do desenvolvimento tecnológico, econômico e social. Os PqTs fornecem o ambiente para oportunizar a realização de negócios e sediar empreendimentos baseados em conhecimento, ao arregimentar e abrigar centros, núcleo e laboratórios para pesquisa, focados no desenvolvimento tecnológico, práticas de inovação e incubação, capacitação, prospecção, implantação de infraestrutura, bem como feiras, exposições e desenvolvimento mercadológico.

Parque da UFAM

Seguindo esta tendência, a UFAM estruturou o seu Parque Tecnológico sob o signo da Inovação e da Inclusão Social, o Parque Científico e Tecnológico para Inclusão Social – PCTIS, inaugurando uma importante iniciativa na região que conta com significativo número de parceiros estratégicos do poder público, de entidades da sociedade civil organizada, da iniciativa privada e de outras instituições de pesquisa do estado, da região, do país e do exterior. A criação do Parque possui extrema relevância tanto no âmbito institucional quanto no plano de desenvolvimento regional, em vista de sua consonância com a política de governo vigente, em todas as suas instâncias, além de representar a consolidação de um compromisso institucional.

A implantação do PCTIS tem como principal finalidade contribuir para o desenvolvimento econômico, cultural e político dos povos da Amazônia, sob bases sustentáveis. O PCTIS funciona a partir de uma Rede de Inovação e Extensão Tecnológica - RIExT voltada para inclusão social com sustentabilidade. O Parque opera sob a direção da Pró-Reitoria de Inovação Tecnológica - PROTEC, na condição de gestora e indutora de oportunidades para a rede de pesquisadores e instituições envolvidas. O conjunto de empreendimentos da RIExT, ações de extensão universitária, pesquisa e inovação, estão direcionados para promover a inclusão social dos segmentos que se encontram em situação de risco e vulnerabilidade social e ambiental, envolvidos direta e indiretamente na rede, criando oportunidades de acesso para o usufruto de bens e serviços sociais e para adoção de práticas sustentáveis de geração de renda com a formação de arranjos e sistemas produtivos e inovativos locais.

O PCTIS abrange ações de extensão que são constituídas por processos socioeducativos de construção de saberes, práticas e sinergia entre os diferentes agentes sociais envolvidos (pesquisadores, docentes, discentes, comunitários, empresas, entre outros) e caracterizam-se por procedimentos e técnicas de formação/instrumentalização dos atores, numa práxis dialética, dinâmica e democrática. Enquanto as ações de pesquisa, em que pese terem um amplo leque de áreas da ciência, são ajustadas num aporte teórico-metodológico de pesquisa participante abrangendo um conjunto de princípios ético-político, num efetivo esforço de manter a sinergia entre os atores no plano do território delimitado.

Territórios de Cidadania

A área de abrangência do PCTIS alcança a sede e o meio rural de 45 municípios no estado do Amazonas, atendendo mais de 800 comunidades. No meio rural e urbano, o público-alvo são povos tradicionais (indígenas, varzeiros, extrativistas, ribeirinhos, entre outros), as diferentes gerações (crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos), com base na matricialidade familiar, ONGs, empresas e empreendimentos econômicos solidários, artesãos, catadores de material reciclável, populações de rua. A estimativa de indivíduos envolvidos diretamente no projeto é de 250 mil pessoas e de 750 mil envolvidas indiretamente.

A referência territorial utilizada pelo PCTIS é a de Territórios de Cidadania que deriva do programa criado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, desde 2008, o qual objetiva promover o desenvolvimento econômico e universalizar programas básicos de cidadania por meio de uma estratégia de desenvolvimento territorial sustentável. Nesta direção, adota-se como estratégia a participação social e a integração entre as ações e as diversas instâncias do governo. Um Território representa uma unidade geográfica que possui características similares em termos de organização social, identidade cultural, econômica e ambiental. A busca por essa unidade visa tornar viável o planejamento de ações para o desenvolvimento com sustentabilidade dessas microrregiões.

A RIExT é composta por um conjunto de subprojetos cuja totalidade das ações propostas terá como resultado a produção de estudos/diagnósticos sobre a dinâmica sociocultural e política nas comunidades ribeirinhas e tradicionais, na produção e transferência de tecnologias sociais e tecnicamente apropriadas para empresas e empreendimentos econômicos solidários.

O PCTIS garante a associação entre a produção do conhecimento científico, pela pesquisa e inovação, com a extensão tecnológica, incorporando iniciativas de empreendimentos sociais e empresariais numa efetiva rede de desenvolvimento tecnológico consolidado em um sistema institucional; em que a totalidade dos estudos está direcionada para fornecer informações qualificadas para a geração de políticas públicas na área socioambiental, política, cultural, econômica e tecnológica, voltadas para a realidade amazônica, com ações afirmativas de inclusão social a partir de um processo socioeducativo e participativo.

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

Cadastre-se

Quero receber:


Refresh Captcha Repita o código acima:
 

Novos Comentários

"Se é verdade que houve um erro em expor-se um animal selvagem no episódio aqui relatado, também ..." Em resposta a: 'Erramos', diz Rio 2016 após morte de onça presente em tour da Tocha
"Estou de acordo com os professores.Quem tem direito as terras são os índios, não que sejam dono d..." Em resposta a: Acadêmicos do MS exigem punição para assassinos de Guarani Kaiowá
"Gostei, pois é assim que Igreja católica com seu espírito de supremacia gosta de se referir as Ig..." Em resposta a: A Igreja Católica Romana não é Igreja, afirma sínodo da Igreja ortodoxa

Conecte-se com o IHU no Facebook

Siga-nos no Twitter

Escreva para o IHU

Adicione o IHU ao seus Favoritos e volte mais vezes

Conheça a página do ObservaSinos

Acompanhe o IHU no Medium