Programa Mais Médicos: municípios enfrentam dificuldades ao receber profissionais estrangeiros. Entrevista especial com Cristina Ferraz

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29 Novembro 2013

“Talvez se tenha um grande contraste entre os profissionais brasileiros e os profissionais cubanos, porque, historicamente, a sociedade brasileira nominou o médico de Doutor, quase uma divindade, um ser diferenciado para a pessoa leiga. Os médicos cubanos não se apresentam dessa forma", constata a enfermeira.

Foto: http://bit.ly/1i1lpEq

A chegada de 23 médicos estrangeiros a Curitiba nos últimos dias, integrantes do Programa Mais Médicos, mostra o descuido do Estado brasileiro com os profissionais que atuarão no país. Segundo informações da enfermeira Cristina Ferraz, questões básicas relacionadas à moradia e alimentação dos médicos estrangeiros “não haviam sido pensadas” com antecedência e “geraram algumas dificuldades tanto para os municípios como para os médicos”. Ela esclarece que, “de acordo com o Programa, os profissionais têm direito à moradia, mas muitos municípios, como é o caso de Curitiba, não têm uma Lei, um Decreto que preveja o repasse de dinheiro para uma pessoa física”.

Apesar das dificuldades iniciais, Cristina assinala, em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone, que “o programa chegou na hora certa, considerando que em vários municípios brasileiros as comunidades carentes têm o atendimento dificultado pela falta de médicos”. Na avaliação dela, “há uma tendência natural de que a repercussão do atendimento dos médicos estrangeiros traga alguma reflexão, a partir da postura desses médicos frente à comunidade, que vai desde a maneira como eles se apresentam, de modo mais simples, como também a riqueza de procedimentos que eles oferecem aos pacientes”.

Em relação à polêmica acerca do salário inferior que os médicos cubanos irão receber em comparação com o salário de profissionais de outros países, Cristina assinala que os cubanos “veem o Programa positivamente, porque o salário que será pago a eles é superior ao que ganham em Cuba”. Segundo ela, “a grande preocupação deles é com a moradia, com a alimentação e com o transporte. Estão preocupados com que o Estado assegure esses benefícios para eles”.

Cristina Ferraz é enfermeira, servidora municipal de Curitiba desde 1994. Especialista em Saúde Pública, Gerenciamento de Unidades de Saúde, Enfermagem do Trabalho e Avaliação em Saúde, exerce a Coordenação de Apoio e Logística da Atenção Primária em Saúde da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba.

Confira a entrevista.

Foto: http://bit.ly/1alFcq4

IHU On-Line - Que avaliação faz do Programa Mais Médicos?

Cristina Ferraz – Faço uma avaliação positiva, porque o programa chegou na hora certa, considerando que em vários municípios brasileiros as comunidades carentes têm o atendimento dificultado pela falta de médicos.

Apesar disso, surgiram algumas situações que não haviam sido pensadas antes, as quais geraram algumas dificuldades tanto para os municípios como para os médicos estrangeiros. Mas, com bastante paciência, perseverança e empenho do gestor municipal, o município está conseguindo sanar as necessidades que surgiram, como a questão da moradia e do auxílio alimentação para os profissionais. De acordo com o Programa, os profissionais têm direito à moradia, mas muitos municípios, como é o caso de Curitiba, não têm uma Lei, um Decreto que preveja o repasse de dinheiro para uma pessoa física. Alguns municípios conseguiram criar uma Lei para garantir o repasse de dinheiro ou até mesmo fazer o aluguel de um imóvel. Curitiba conseguiu um meio mais rápido para a solução do problema e, enquanto isso, garantiu alojamento adequado e a garantia de todas as refeições através de ticket alimentação.

IHU On-Line - Que aspectos não foram pensados antes da elaboração do Programa Mais Médicos?

Cristina Ferraz - As peculiaridades de cada estado, de cada município, não foram vistas, as regionalidades não foram de imediato pensadas. Naturalmente os municípios estão dando conta, mas, como falei inicialmente, essa situação provocou um desgaste momentâneo que foi rapidamente recuperado.

IHU On-Line - Como foi o encontro na Casa do Trabalhador, com médicos cubanos, venezuelanos, espanhóis e brasileiros?

Cristina Ferraz – Foi um momento de acolhimento e confraternização com os nove médicos cubanos e com os outros intercambistas, que vieram da Venezuela, da Colômbia, da Espanha. Também participaram do encontro um dos tutores da Universidade Federal do Paraná e supervisores daquela instituição, que irão acompanhar o trabalho dos médicos nos locais onde eles atenderão, além de representante do Secretário de Saúde.

Há uma expectativa muito grande em relação à atuação dos médicos estrangeiros, porque o Programa criou uma polêmica em relação ao Conselho Regional de Medicina e um conflito com médicos brasileiros. Percebemos que os médicos estrangeiros não têm aquele status de médico que a sociedade brasileira deu aos médicos brasileiros. Na visão deles, a profissão de médico é como outra qualquer, ou seja, eles poderiam ser cabelereiros, marceneiros, professores, ou qualquer profissional que prestasse um serviço à população. Essa característica deles é bem marcante. Também chama a atenção a diversidade maior de procedimentos que eles colocam à disposição dos pacientes, que não é comum entre os brasileiros. Mais de 90% dos médicos que estão recebendo os colegas estrangeiros nas Unidades de Saúde veem positivamente a atuação deles.

IHU On-Line - Como os médicos cubanos se posicionam em relação aos salários que irão receber no Brasil?

Cristina Ferraz – Eles comentam muito pouco sobre o assunto. Disseram que já viveram situação semelhante na Bolívia e no Haiti. Portanto, referem-se a isso como uma missão que estão cumprindo. Veem o Programa positivamente, porque o salário que será pago a eles é superior ao que ganham em Cuba. Então, a grande preocupação deles é com a moradia, com a alimentação e com o transporte. Estão preocupados com que o Estado assegure esses benefícios para eles.

IHU On-Line - Eles podem trazer suas famílias para o Brasil?

Cristina Ferraz – O que posso assegurar é que o Ministério da Saúde pode repassar uma passagem por ano para dependentes e familiares dos médicos virem visitá-los no Brasil. Agora, como o governo cubano se posiciona em relação a isso, não é de nossa gerência.

IHU On-Line - O que os médicos relatam em relação à medicina em Cuba?

Cristina Ferraz – Conversamos bastante sobre isso e posso te falar que eles têm muita preocupação com a formação. Além de qualificados em medicina comunitária, estão acostumadíssimos a fazer visitas domiciliares, a realizar pequenos procedimentos ambulatoriais. A medicina cubana é muito preventiva; é uma medicina que tem uma preocupação grande em manter os indivíduos bem e produtivos.

Em Cuba há um médico para cada 130 pessoas, o que garante uma assistência muito estreita, presente e facilitada. As crianças que não vão à Unidade de Saúde, ao Posto de Saúde para aplicação da vacina recebem uma visitadora domiciliar em casa para fazer a vacina e para saber por que a pessoa faltou ao agendamento. O atendimento dos médicos cubanos terá uma repercussão bastante importante e pode ser um marco na história da medicina de comunidade, pela forma com que encaram a atuação médica. Talvez se tenha um grande contraste entre os profissionais brasileiros e os profissionais cubanos, porque, historicamente, a sociedade brasileira nominou o médico de Doutor, quase uma divindade, um ser diferenciado para a pessoa leiga. Os médicos cubanos não se apresentam dessa forma.

IHU On-Line - Quantos médicos estão previstos para atuar em Curitiba?

Cristina Ferraz – Recebemos até agora 23 médicos do Programa Mais Médicos para o Brasil: sete médicos brasileiros, que vieram de várias regiões do Brasil, dois médicos intercambistas, que são brasileiros, mas se formaram na Rússia, um médico egípcio, nove médicos cubanos, duas venezuelanas, uma colombiana e um espanhol.

IHU On-Line - Eles irão atuar em comunidades diferentes?

Cristina Ferraz – Todos em comunidades diferentes, na periferia, onde há Unidades de Saúde. Os médicos brasileiros querem trabalhar em regiões centralizadas, em locais de fácil acesso para deslocamento e, por isso, a grande maioria acaba desistindo da periferia, que é mais distante. Apesar dos incentivos que Curitiba tem dado para que os médicos se desloquem para as regiões mais afastadas, ainda assim é difícil encontrar médicos que atuem nessas áreas mais distantes e com maior concentração de população em risco de adoecer e vir a morrer.

IHU On-Line - Que melhorias são possíveis vislumbrar na área da saúde pública com a vinda dos médicos estrangeiros?

Cristina Ferraz – Há uma tendência natural de que a repercussão do atendimento dos médicos estrangeiros traga alguma reflexão, a partir da postura desses médicos frente à comunidade, que vai desde a maneira como eles se apresentam, de modo mais simples, como também a riqueza de procedimentos que eles oferecem aos pacientes.

IHU On-Line - A senhora é casada com um cubano. Vocês mantêm contato com os familiares cubanos? O que eles falam sobre a vida em Cuba?

Cristina Ferraz – Sim, mantemos contato com os familiares e, sempre que possível, quando alguém vai para Cuba, enviamos produtos de higiene e roupas, porque lá a situação é de crise perpétua. Apesar disso, percebemos que a maioria da população comunga com o regime político e econômico. Mais de 90% da família de meu marido mora em Cuba e inclusive já oferecemos ajuda para mudarem para o Brasil, mas eles não aceitam, porque o vínculo familiar e o costume de vida cubano prevalecem. Eles são muito alegres, simples e estão muito vinculados à sua comunidade. Enfrentam muitas dificuldades, mas ainda assim preferem ficar perto dos seus familiares. As pessoas mais antigas da família, inclusive, apoiam o governo.

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