A falta de médicos no interior: polêmica antiga

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09 Setembro 2013

Da coluna de Ancelmo Gois, jornalista, publicada pelo jornal O Globo, 08-09-2013:

A polêmica em torno da tentativa de resolver a falta de médicos fora dos grandes centros no Brasil não é novidade na História. Veja só. Há exatamente 150 anos, uma controvérsia dividiu o governo imperial e médicos. O episódio, em 1863, foi tese do historiador da Fiocruz Flávio Edler. Tudo girou em torno da proposta de Cruz Jobim, médico respeitado, formado em Paris, senador do Império, que sugeria formar médicos de segunda classe para atuar no interior. A proposta provocou o maior bafafá. Edler trocou dois dedos de prosa com Márcia Vieira, da turma da coluna:

Quantos médicos o Brasil tinha em 1863?

O Império tinha duas faculdades de Medicina: uma em Salvador e outra na Corte do Rio de Janeiro. Tínhamos uns mil médicos, a maioria concentrada nas duas cidades.

E qual era a proposta de Cruz Jobim?

A preocupação dele era de que as faculdades não poderiam fornecer às províncias a quantidade de médicos necessária. E os formados não tinham interesse em atuar no interior. Para que a população tivesse acesso a um atendimento de saúde de qualidade, ele propôs a criação de escolas de Medicina no interior para diplomar médicos de segunda classe (o tempo de formação seria menor). Em países europeus, havia a figura do “oficial de saúde”. Na França, os críticos diziam que era uma categoria de médicos simples e pobres que cuidavam de gente pobre e simples.

Como foi a recepção à proposta?

No meio médico, a acolhida foi péssima. O principal argumento era que a criação de cursos secundários seria a oficialização do charlatanismo. E que o médico exporia o doente a riscos. Um médico, Souza Costa, dizia que mesmo que leis limitassem as condições em que médicos “indoutos” pudessem exercer a profissão, “em um país como o nosso, onde a ação da Justiça e a execução da lei são, muitas vezes, tardias ou nulas, esses regulamentos não poderão ser executados, e o verdadeiro médico terá de lutar com o charlatanismo autorizado”. A proposta não foi pra frente.

Aliás, Cruz Jobim é antepassado do saudoso maestro Tom Jobim. Mas aí é outra história...

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