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Entrevistas

Desenvolvimento sustentável. Disciplina obrigatória nos cursos de jornalismo. Entrevista especial com André Trigueiro

“A intenção do MEC é oxigenar as escolas de jornalismo de forma geral. O mundo mudou e as dinâmicas de ensino precisam acompanhar as mudanças do mundo", avalia o jornalista.

Foto: http://bit.ly/19GPBLb

Com a intenção de “oxigenar os cursos de Jornalismo”, o MEC está revendo as diretrizes curriculares dos cursos de graduação brasileiros. Em breve, com a reformulação dos currículos, as universidades deverão incluir a disciplina de Desenvolvimento Sustentável na grade curricular. A alteração, na avaliação do jornalista André Trigueiro, “é muito importante, porque estamos falando de uma atualização voltada para novas culturas que estão sendo determinantes na compreensão dos desafios civilizatórios deste terceiro milênio. O jornalista, portanto, deverá estar antenado com os dilemas do desenvolvimento sustentável, tema que agora fará parte da sua formação”.

Em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone, Trigueiro, especialista na área ambiental, frisa a importância desta disciplina nos cursos de Jornalismo para “mostrar o senso de urgência em favor de uma nova forma de se relacionar com o planeta que nos acolhe”. E enfatiza: “O jornalista pode ajudar no diagnóstico dos processos que aceleram a destruição, a devastação do meio ambiente e, inclusive, sinalizar novas perspectivas”.

De acordo com ele, o tema vinha sendo tratado como uma “disciplina periférica nos cursos de jornalismo”, formando “sucessivos analfabetos ambientais”. A obrigatoriedade da disciplina atentará os estudantes para “discussões importantes a serem feitas pelos meios de comunicação, como a disponibilidade de água doce e terra fértil no mundo, a poluição do ar, o uso indiscriminado de agrotóxico, a transgenia irresponsável, a destruição sistemática da biodiversidade sob prejuízos enormes para os seres humanos, porque não estamos desconectados da natureza”.

André Trigueiro é jornalista, pós-graduado em Gestão Ambiental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e professor do curso de Jornalismo Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio. Na Globo News, apresenta o programa “Cidades e soluções”, tratando da questão do meio ambiente. É autor de Meio ambiente no século 21 (Rio de Janeiro: Sextante, 2003), Mundo sustentável (São Paulo: Globo, 2005) e Espiritismo e ecologia (2ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010).

Confira a entrevista.

Foto: http://bit.ly/1ga8v58

IHU On-Line - Como ocorreu o processo de elaboração das diretrizes do MEC em relação à disciplina de jornalismo ambiental? Em que consistem tais diretrizes em relação ao ensino de jornalismo ambiental nos cursos de Jornalismo?

André Trigueiro – Em 2009 foi produzido um relatório assinado por uma comissão de especialistas em ensino de Jornalismo que, com o aval do Ministro da Educação, à época Fernando Haddad, pretendia renovar e atualizar os conteúdos dirigidos aos estudantes de Jornalismo de todo o Brasil. Então, houve um amplo movimento, que compreendeu audiências públicas em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Recife e propostas por consultas públicas via internet no Portal do Ministério da Educação – MEC. Isso resultou em um documento que assinala quais serão, portanto, as novas diretrizes curriculares para o curso de Jornalismo no Brasil.

Essa novidade é muito importante, porque estamos falando de uma atualização voltada para novas culturas que estão sendo determinantes na compreensão dos desafios civilizatórios deste terceiro milênio. O jornalista, portanto, deverá estar antenado com os dilemas do desenvolvimento sustentável, tema que agora fará parte da sua formação. Trata-se de uma questão que diz respeito à dinâmica cultural, aos novos valores pertinentes a serem discutidos e debatidos, como toda a reengenharia determinada pelas novas tecnologias na área da comunicação, que democratizaram os meios, permitindo mais acesso à informação. Nesse universo, o papel do jornalista é realçado, porque passamos a ter uma função estratégica de decodificar, nessa avalanche de informações, o que realmente é importante e por quê.

A intenção do MEC é oxigenar as escolas de jornalismo de forma geral. O mundo mudou e as dinâmicas de ensino precisam acompanhar as mudanças do mundo. Nesse sentido, a resolução do MEC quer reorganizar esses conteúdos, elencá-los de maneira nova, reconhecendo quais conteúdos devem ser incluídos e com qual ordem de importância.

IHU On-Line - Por que se defende essa alteração no currículo? Por que as questões ambientais são necessárias na formação dos jornalistas?

André Trigueiro – Venho defendendo em diferentes frentes a qualificação do jornalista na área da sustentabilidade. É importante que o curso de jornalismo tenha uma disciplina de jornalismo ambiental que procure mostrar esse senso de urgência em favor de uma nova forma de se relacionar com o planeta que nos acolhe, e percebermos as interações que estabelecemos com esse meio. O jornalista pode ajudar no diagnóstico dos processos que aceleram a destruição, a devastação do meio ambiente e, inclusive, sinalizar novas perspectivas.

IHU On-Line - Que competências na área ambiental o jornalista deverá possuir? Que conteúdo deverá ser ensinado na disciplina de Desenvolvimento Sustentável?

André Trigueiro – É importante para o estudante de jornalismo compreender a história do ambientalismo como um fenômeno que mobiliza setores da sociedade profundamente incomodados com o modelo de desenvolvimento que vem determinando — depois da revolução industrial — o esgotamento dos recursos naturais não renováveis essenciais à vida. Portanto, essa crise tem a nossa digital e o nosso DNA, porque é resultante da nossa cultura. Trata-se de uma crise ética por conta dos nossos hábitos, das nossas escolhas, do padrão de consumo.

Se o jornalista é um contador de história que tem a função social de reconhecer fatos importantes de interesse público, ele também pode ajudar a sociedade a realizar escolhas mais certas, sensatas, inteligentes, que aumentem a qualidade de vida, reduzam a pobreza e a miséria. Além disso, a questão ambiental não é uma questão qualquer. Ela vinha sendo tratada, nas escolas de jornalismo, como uma disciplina periférica, e estávamos formando sucessivos analfabetos ambientais. Entretanto, há discussões importantes a serem feitas pelos meios de comunicação, como a disponibilidade de água doce e terra fértil no mundo, a poluição do ar, o uso indiscriminado de agrotóxico, a transgenia irresponsável, a destruição sistemática da biodiversidade sob prejuízos enormes para os seres humanos, porque não estamos desconectados da natureza. Essa guinada que a humanidade precisa dar na busca de um modelo de desenvolvimento inteligente, que não agrave a depredação dos recursos fundamentais, e a busca de uma ética civilizatória onde possamos adotar novos valores em contraposição ao consumismo, são funções do jornalismo moderno. Precisamos ter a competência de entender porque o desenvolvimento que interessa é sustentável.

IHU On-Line – Como deve ser a formação dos estudantes? Professores de que área do conhecimento devem ministrar essas disciplinas?

André Trigueiro – Os parâmetros curriculares do MEC já adotaram a sustentabilidade como um conteúdo transversal e comum a todas as disciplinas. Aí tem duas correntes de educadores. Uma delas se queixa que se todo mundo tem que falar de sustentabilidade, então, ninguém se sente particularmente desafiado a fazê-lo. Outra corrente acha que se deveria formalizar uma disciplina que seja dominada nessa direção.

Na disciplina de Jornalismo da PUC-Rio trabalhamos conceitos — porque as palavras têm data e certidão de nascimento —, para que os alunos compreendam o que é meio ambiente, ecologia, sustentabilidade, comunidade sustentável, desenvolvimento sustentável, os quais têm uma história, e a partir da qual é possível compreender como esse processo vem sendo construído culturalmente. Aí avançamos na compreensão sistêmica, ou seja, de compreender o universo como um conjunto de sistema ao qual estamos irremediavelmente integrados ao sistema Terra.

Utilizamos textos de Edgar Morin, Leonardo Boff, Fritjof Capra, que emprestam sentido a um conceito de universo onde não somos entes separados. Somos absurdamente vinculados com o meio que nos cerca. Ultrapassada essa parte teórica, trabalhamos os eixos temáticos da atualidade. Procuro abrir espaço para discutir temas como mudança climática, recursos hídricos, resíduos sólidos, biodiversidade, planejamento urbano sustentável, ou seja, como se discute meio ambiente nas cidades. Quer dizer, promover o debate da qualidade de vida na sociedade, e como se aplica a cartilha da sustentabilidade na gestão pública e privada, na legislação, no processo de licenciamento, na lei de uso do solo, ou seja, como se pensa a ocupação territorial da cidade de maneira inteligente no sentido de reduzir o impacto sobre o meio ambiente, promovendo o uso dos recursos naturais. Essa é uma temática nova, portanto o jornalista não precisa ser especialista no tema. O importante é que o jornalista esteja mais à vontade para não replicar o erro grave de muitos profissionais de imprensa, que não conseguiram elencar os temas da sustentabilidade na parte nobre da cobertura do dia a dia.

As manifestações de junho em São Paulo começaram por causa de um debate sobre o custo das passagens de ônibus, e esse movimento ganhou força a partir de um descontentamento e uma demanda reprimida de enorme insatisfação com o transporte público. Por isso, o aumento do preço da passagem funcionou como um rastilho de pólvora num ambiente inflamável. Esse é um assunto ambiental por excelência, porque os números emprestam sentido à tese de que as pessoas estão gastando mais tempo para ir e voltar para o trabalho e andam em um ambiente hostil, que causa reflexos na vida emocional, e isso contamina a produtividade, as relações interpessoais. Se a cidade não consegue promover mobilidade, ela colapsa.

Quando tem uma pauta sobre o lixo, os jornalistas não precisam apenas mostrar o lixão; podem também tratar a questão dos resíduos sólidos de forma criativa e competente, ou seja, não enxergar mais o lixo apenas como um problema. Claro que é melhor não ter lixo, mas se inevitavelmente geramos resíduos, o grande desafio do mundo civilizado é transformar problema em solução. Portanto, como reduzir o impacto do resíduo? É possível reciclar, reutilizar, transformar em energia, em adubo, gerar emprego e renda, produzir riqueza, como fazer um comércio. Então, estamos falando do que quando se fala em lixo?

IHU On-Line – Como avalia a cobertura jornalística na área ambiental em relação a temas polêmicos, como resíduos sólidos, poluição, mobilidade urbana, preservação ambiental, transgenia, agrotóxico?

André Trigueiro – Certamente, hoje, estamos cobrindo estes temas com mais competência, porque há mais jornalistas ocupando espaços em diferentes mídias e abrindo oportunidade para estas pautas. Quando me formei, em 1988, não existia nem computador, nem celular para uso corriqueiro de jornalista. Hoje em dia, com a internet, é possível acessar vídeos, bibliotecas virtuais, banco de dados, em intervalo de poucos segundos. Nós estamos plugados em redes fartas de informação.

É importante dizer que estamos passando por uma gigantesca revolução na área da comunicação. Há uma operação em curso, e ela está demolindo as estruturas que até hoje nortearam as grandes empresas de comunicação, ou seja, estamos num momento de transição importante para algo novo. Difícil dizer exatamente o que será, mas é algo que possivelmente vá misturar televisão com internet e com equipamentos portáteis e interativos, onde quem acessa as mídias poderá determinar os rumos da programação.

Por que é vantagem falar de cobertura dos assuntos ambientais nesse novo mundo? Porque não há controle sobre as redes, sobre a produção digital. Isto é ótimo no sentido em que se terá a proliferação de conteúdos que serão ótimos ou medíocres, e, nesse cenário, aumenta a responsabilidade do profissional jornalista. Porque a nossa função social é identificar assuntos e histórias relevantes, que precisam ser contextualizadas à luz dos acontecimentos.

A partir da invasão do Instituto Royal, em São Paulo, foi possível desdobrar o fato em diversas discussões, seja à luz da ciência, ou seja, do ponto de vista de que é inevitável fazer testes com bichos, e de quais seriam as alternativas, tratar o tema a partir da legislação brasileira, etc. Trata-se, portanto, de um exercício jornalístico de tratar um tema factual e desdobrá-lo em novas pautas, proporcionando um debate riquíssimo, o qual nós, jornalistas, ajudamos a esclarecer.

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