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Entrevistas

O jornalismo precisa ser reinventado. Entrevista especial com Edelberto Behs

Em junho de 2009, o Supremo Tribunal Federal decidiu pela queda da exigência do diploma para atuar na área de Jornalismo. Milhares de estudantes e profissionais ficaram desolados, não sabendo o futuro da profissão. Um ano e meio depois, o curso de Jornalismo volta a ser procurado nas universidades de todo o Brasil.

Coordenador do curso de Jornalismo da Unisinos desde 2003, o professor Edelberto Behs conversou com a IHU On-Line sobre a atual situação deste curso no Brasil e na Unisinos. “Em levantamento realizado pela Agência Experimental de Comunicação (Agexcom), 6% dos que responderam disseram que estavam desmotivados e que procurariam outro curso. Em contrapartida, 42% assinalaram que, independente do diploma, não deixariam o curso de forma alguma, porque essa era a carreira que queriam seguir”, revela.

Behs também reflete sobre as decisões tomadas na Unisinos para garantir a continuidade do curso e sobre o futuro da categoria nas mídias digitais. “Nos Estados Unidos, 105 jornais foram fechados nos últimos anos. O jornalismo precisa, então, ser reinventado”, ressalta. A entrevista foi realizada por e-mail.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que realidade o jornalismo vive no Brasil, atualmente?

Edelberto Behs - A decisão do STF deixou um vácuo na regulamentação profissional. Hoje, basta nascer para ser jornalista. Sequer foi introduzida a exigência de que só pode exercer a profissão quem tiver algum curso superior, como acontece em países da Europa e da América do Norte. Assim, até uma pessoa semianalfabeta consegue um registro no Brasil.

Quem perde com essa confusão toda é a categoria, mas perde muito mais a sociedade. Um bom parâmetro é a análise da evolução do jornalismo brasileiro nos últimos 40 anos. Outro critério é a comparação de jornais de cidades menores, que não contam com jornalistas profissionais em seus quadros, com o jornalismo praticado por colegas que passaram por curso superior. A diferença fica muito clara.

O curioso é que temos jornalistas que não veem a necessidade do diploma, uma postura inexistente em outras categorias, como advogados, dentistas, engenheiros, arquitetos, que não são acometidos por esse tipo de dilema.

IHU On-Line Que mudanças ocorreram na Unisinos após a queda do diploma? Houve defasagem de alunos?

Edelberto Behs Duas semanas após a decisão do STF, pedimos à Agência Experimental de Comunicação (Agexcom) um levantamento junto aos estudantes de jornalismo para detectar o impacto da queda da exigência do diploma para o exercício profissional. Pois bem, 6% dos que responderam disseram que estavam desmotivados e que procurariam outro curso. Em contrapartida, 42% assinalaram que, independente do diploma, não deixariam o curso de forma alguma, porque essa era a carreira que queriam seguir.

Sentimos o impacto na procura pelo curso nos dois processos de seleção seguintes à decisão do STF, tendência que começou a ser revertida no último vestibular, realizado em dezembro.  A queda da procura foi uma tendência geral. A USP, que é uma instituição pública, perdeu candidatos de 2009 para 2010. Embora tenha reduzido em um terço o número de vagas na oferta do jornalismo, a Universidade Metodista de São Paulo viu acontecer o mesmo fenômeno, de acordo com notícias de jornais da época. A Universidade Mogi das Cruzes (UMC) suspendeu o vestibular num semestre por causa da queda de 50% na procura pelo curso.

Na ocasião, reunimos o colegiado do curso da Unisinos com uma pauta única: impactos da decisão do STF. Surgiram várias propostas e algumas iniciativas foram assumidas de imediato. Professores e professoras levaram essa discussão para a sala de aula. Outras proposições, de médio e longo prazos, ainda estão ocorrendo. De qualquer forma, ficou muito claro para o colegiado que, apesar do impacto negativo que a queda do diploma representou, a resposta a essa nova configuração deve vir pela constante atualização do curso e a qualificação do egresso, de tal forma que fica evidente a contribuição que ele traz para a sociedade e para a carreira.

IHU On-Line - Foram aplicadas iniciativas para tranquilizar os estudantes? Que postura foi tomada?

Edelberto Behs - Sim, destacamos que a decisão do STF não significava o fim do jornalismo, que o curso existe para somar conhecimento, desenvolver habilidades e competências, para servir de espaço da diversidade e de debate dos grandes temas da humanidade e da profissão. Convidamos profissionais que se destacam no mercado de trabalho para conversar com estudantes, promovemos debates trazendo para a universidade representantes do Sindicato dos Jornalistas, o deputado Paulo Pimenta, autor da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que restitui a obrigatoriedade do diploma. Participamos de encontros com representantes da Federação Nacional dos Jornalistas com o intuito de traçar estratégias em defesa do diploma.

IHU On-Line - Um ano e meio se passou e a luta para a retomada da obrigatoriedade do diploma segue. O que podemos esperar para 2011?

Edelberto Behs - Bem, esperamos que o Congresso vote pelo menos uma das duas PECs que restabelece a obrigatoriedade do diploma para o exercício profissional.

IHU On-Line - Que mudanças as mídias digitais estão surtindo na prática jornalística e no curso de Jornalismo em si? O que esperar delas?

Edelberto Behs - Entendo que estamos no meio de uma fantástica transformação, inclusive de mudança de paradigma civilizatório, que trará consequências ainda imprevisíveis, motivada, entre outros, também pelas novas tecnologias. Estamos em plena revolução digital, entrando na era da conectividade.

Essa turbulência tem várias janelas. Uma delas, bem importante, é que as empresas de comunicação não descobriram ainda como atuar comercialmente com a internet. Ou seja, está difícil ganhar dinheiro com o produto notícia na rede mundial de computadores, com reflexos, inclusive, nas outras mídias. Nos Estados Unidos, 105 jornais foram fechados nos últimos anos. O jornalismo precisa, então, ser reinventado.

 

"O jornalismo precisa ser reinventado"

 

As novas tecnologias proporcionam ferramentas que determinam o fim da ditadura das mídias, que representavam o único canal de mediação informativa do cidadão, da sociedade, com os poderes constituídos. Ou seja, o emissor se pronunciava e cabia ao receptor captar essa informação unilateralmente. O fundador e primeiro diretor do El Pais, Juan Luis Cebrián, lembrou, em entrevista para O Estado de S.Paulo, que “a internet é um fenômeno de desintermediação”.


Uma outra janela dessa crise passa pelo modo de fazer jornalismo. Hoje se pratica muito, diria, um “jornalismo preguiçoso”, que se expressa na falta de apuração, de pouca análise crítica, interpretativa e contextualizada, amarrado, muitas vezes, a ideologias, e condescendente ao jornalismo declaratório, que mostra o quadro oficial, nem sempre real do Brasil e do mundo. São questões ligadas à profissão, ao profissional, mas também às empresas de comunicação, que, a título de redução de custos, pouco ou quase nada investem em jornalismo investigativo. A boa prática jornalística passa pela produção de informação de qualidade técnica e ética, passa pela reportagem.

Fatores geradores da crise no jornalismo significam, ao mesmo tempo, excelentes possibilidades para o jornalista. Pela primeira vez na história, o profissional de imprensa não depende de vínculo com empresa para apresentar sua produção. Com o ferramental que a tecnologia digital disponibiliza, o jornalista pode dar vazão ao seu trabalho sendo um empreendedor de si, um “eu mídia”, ou pode inserir-se num empreendimento coletivo com colegas. Ele passa a ser sujeito da sua produção, num mercado de tantos nichos quanto são os temas de interesse da coletividade, de um setor empresarial ou de um segmento social.

Essas facetas devem ser consideradas na qualificação ética, técnica e estética de um futuro profissional que passa pelo curso de jornalismo. Mesmo com toda essa evolução tecnológica, o jornalista sempre será um contador de histórias, um sujeito curioso, que busca o aprimoramento constante nos mais variados temas, para realizar as leituras de realidades.

Num encontro que tivemos com professores em março do ano passado, quando se analisou o futuro do jornalismo, ficou evidente que não serão as novas tecnologias que vão qualificar o jornalismo. A ênfase deve recair na formação ética humanística, com uma visão geral do século XX, de cultura geral, além, claro, das questões técnicas profissionais. Neste ano, vamos trabalhar na proposta de projeto político pedagógico do curso, atendendo às novas diretrizes curriculares do jornalismo. O desafio é grande e animador.

IHU On-Line - O que a iniciativa dos garotos que organizaram o Voz da Comunidade no Morro do Alemão indica?

Edelberto Behs - A iniciativa indica que atores locais, cidadãos comuns, são fontes, não somente fontes, mas difusores da informação. Esses jovens foram produtores de notícias, embora não sejam jornalistas. A notícia ganha outro fluxo. Agora, trabalhar a notícia não é apenas uma questão técnica, e o grande capital do jornalista é a credibilidade.

IHU On-Line - Recentemente tivemos o estouro dos documentos vazados pelo WikiLeaks. O que devemos pensar acerca deste caso? Estamos caminhando para uma "cultura WikiLeaks”?

Edelberto Behs - O professor Eugênio Bucci, da USP, diz que o jornalismo é, acima de tudo, a realização de uma ética  porque ele consiste em publicar o que outros querem esconder, mas que o cidadão tem o direito de saber. O jornalismo “só faz sentido na democracia, na observância dos direitos humanos, numa sociedade que cultive a pluralidade e as diferenças de opinião”, agrega.

Documentos vazados pelo WikiLeaks ganharam espaços em jornais e revistas que firmaram parceria com o portal. É como se tais informações, sem o suporte dessas mídias, não tivessem credibilidade. Entendo que caminhamos, sim, para uma cultura wiki, que se trata de uma partilha de conhecimento, e que ela segue a linha do interesse público comum.

Numa entrevista à repórter Lúcia Guimarães, de O Estado de S.Paulo, o veterano repórter estadunidense Gay  Taylese, do New York Times, definiu o que é jornalismo, do ponto de vista da credibilidade:

- No prédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio. Há mentirosos nos jornais também, mas em menor número. Nos prédios do governo, nas escolas, instituições científicas, estádios de esporte, nas fábricas, a mentira circula num grau mais alto. Os jornais estão mais interessados na verdade, mesmo se cometem erros, às vezes, erros involuntários. E se você ainda quer a verdade, é mais fácil chegar a ela por intermédio de um jornal do que por meio de qualquer outra instituição. Os jornais ainda oferecem a melhor chance de manter a verdade em circulação.

Claro, o assunto WikiLeaks ainda vai gerar muita discussão. Jornalismo tem, entre outros, a função de fiscalizar o poder, de desvendar o que poderosos querem manter debaixo do tapete. WikiLeaks desempenha, pois,  um importante papel difusor, com uma importante contribuição ao jornalismo cidadão.

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