Semiárido: o desafio de atender às unidades familiares. Entrevista especial com Valber Matos

Revista ihu on-line

Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

Edição: 542

Leia mais

Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

Edição: 541

Leia mais

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Mais Lidos

  • Bispo brasileiro diz que ordenará mulheres ao diaconato se papa permitir

    LER MAIS
  • Príncipe Charles e Bolsonaro: as duas faces da “diplomacia” dos santos

    LER MAIS
  • Nobel de Economia vai para três estudiosos “comprometidos com a luta contra as pobrezas e as desigualdades sociais”

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

17 Março 2013

“Apesar de não haver racionamento nas cidades, as unidades centrais de abastecimento d’água da região estão secas e sem possibilidade de sustentabilidade para o abastecimento futuro das populações do semiárido”, informa o integrante da Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA.

Confira a entrevista.


“A guerra pela água no sertão quase não existe mais, pois programas estruturantes resolveram consideravelmente essa questão, disseminando unidade de captação d’água”, diz Valber Matos à IHU On-Line em entrevista concedida por e-mail. Apesar de apontar medidas que descentralizaram o acesso à água na Paraíba, com o uso de cisternas, o integrante da Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA reitera que “é necessário entender que boa parte dessas unidades secaram e estão sujeitas a reabastecimento pelos caminhões-pipa e, em especial, pelo programa do governo federal chamado ‘Pipas’, que está sendo administrado pelo exército brasileiro”. Segundo ele, as políticas públicas “amenizaram a fome e a sede do povo”, mas ainda é necessário investir em “cisternas de placas, cisternas-calçadão, bombas populares, barragem subterrâneas, barragem de pedra sucessivas, tanques de pedra, barreiros, barramento trincheiras (implementações de pequeno porte que atendam às unidades familiares)”.

Na entrevista a seguir, Valber Matos também comenta a transposição do Rio São Francisco e é enfático: “Esse tipo de empreendimento atende apenas às demandas dos latifundiários (a margem dos rios) e às multinacionais que se instalam de forma a massacrar os pequenos que vivem à margem. Por sua vez, não atende à demanda hídrica difusa em nossos municípios, instalando a verdadeira indústria da seca, com direito aos desvios e descasos com os recursos públicos, como está sendo visto nos noticiários”.

Valber Matos é membro da Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os maiores problemas em relação à seca na Paraíba?

Valber Matos
– Hoje, o maior problema é a falta de acesso à água potável em várias comunidades rurais e na zona urbana. Apesar de não haver racionamento nas cidades, as unidades centrais de abastecimento d’água da região estão secas e sem possibilidade de sustentabilidade para o abastecimento futuro das populações do semiárido. Há perda considerável das criações de animais, que chega a 75%, e perda das sementes da paixão, semeadas na tentativa de multiplicação e subsídio alimentar.

IHU On-Line – Ainda fala-se muito em “guerra pela água no Sertão”. Esse continua sendo um problema atual?

Valber Matos
– A guerra pela água no sertão quase não existe mais, pois programas estruturantes resolveram consideravelmente essa questão disseminando unidades de captação d’água, a exemplo das cisternas de placas, das barragens sucessivas, entre outras implementações nas unidades familiares rurais. Essas medidas descentralizaram o acesso à água, diferenciando a prática de outrora, que priorizava a concentração de água em propriedades particulares dos oligárquicos e dos latifundiários. Porém, é necessário entender que boa parte dessas unidades secaram e estão sujeitas a reabastecimento pelos caminhões-pipa e, em especial, pelo programa do governo federal chamado “Pipas”, que está sendo administrado pelo exército.

IHU On-Line – Em que consistem as obras do Perímetro Irrigado das Várzeas de Sousa – Pivas? Os agricultores reclamam de falta de água por conta dessa obra. Qual a atual situação?

Valber Matos
– O Pivas é uma unidade irrigada de 6.000 ha de terras agricultáveis administrada pelo governo estadual, distribuída da seguinte forma: 3 empresas; 146 famílias agricultoras (reordenação fundiária); 100 famílias assentadas (Incra); e parte da área é reserva legal (40%). As empresas praticam o agronegócio e das 146 famílias arrendadas pela reordenação fundiária, apenas quatro praticam agroecologia. A área da Reserva Legal foi invadida pelos coronéis da região (coronelismo existente ainda em nosso sertão), que a utilizam indevidamente com os animais de suas propriedades.

IHU On-Line – Há denúncias de irrigação irregular em Sousa, na Paraíba. Fala-se de 122 irregularidades. Pode nos explicar do que se trata especificamente essas irregularidades?

Valber Matos
– As empresas adotam sistemas de irrigação autopropulsores que têm uma grande necessidade de carga potencial que succiona o sistema, deixando boa parte dele comprometido, haja vista que foi projetado para atender à demanda de desvio de utilidade da água, manejo inadequado, disperdícios d’água, entre outros problemas. Não podendo esquecer que o projeto original do Pivas foi atender à Fruticultura Orgânica ou Agroecológica.

IHU On-Line – Quais as implicações da transposição do rio São Francisco para a situação de seca do semiárido? Como a transposição atinge, especificamente, o estado da Paraíba?

Valber Matos
– A transposição do rio São Francisco busca, segundo propaganda do Estado, manter abastecidas as principais bacias hidrográficas do semiárido, em especial as áreas que compõem o Polígono das Secas, com perspectiva de atender à demanda de perímetros irrigados. Em nossa concepção, esse tipo de empreendimento atende apenas às demandas dos latifundiários (a margem dos rios) e às multinacionais que se instalam de forma a massacrar os pequenos que vivem à margem. Por sua vez, não atende à demanda hídrica difusa em nossos municípios, instalando a verdadeira indústria da seca, com direito aos desvios e descasos com os recursos públicos, como está sendo visto nos noticiários.

IHU On-Line – Quais são as questões fundamentais que não estão sendo discutidas no que se refere ao combate da seca e à vida na região do semiárido brasileiro?

Valber Matos
– A mudança de vida dos agricultores e agricultoras das regiões secas no tocante aos projetos de estruturação e programas de governo, que amenizaram a fome e a sede desses povo.

IHU On-Line – Que tecnologias de fornecimento hídrico para o consumo humano e produção agropecuária poderia ser pensada para a região?

Valber Matos
– É preciso investir em cisternas de placas, cisternas-calçadão, bombas populares, barragem subterrâneas, barragem de pedra sucessiva, tanques de pedra, barreiros, barramento trincheiras (implementações de pequeno porte que atendam às unidades familiares).

IHU On-Line – Qual tem sido a postura do governo federal em relação à situação do semiárido brasileiro? Quais são as políticas públicas para o semiárido e suas implicações?

Valber Matos –
Muito se avançou nas conquistas de luta, porém sempre travando as ações já conquistadas, a exemplo da criminalização das ONGs, que tanto têm colaborado com as ações sustentáveis em parceria com as políticas públicas.

Nota:
Foto 1: Portal Uol
Foto 2: Portal Arte Blog

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Semiárido: o desafio de atender às unidades familiares. Entrevista especial com Valber Matos - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV