Sociedade tecnocientífica e os desafios éticos. Entrevista especial com José Palazzo

Revista ihu on-line

Gauchismo - A tradição inventada e as disputas pela memória

Edição: 493

Leia mais

Financeirização, Crise Sistêmica e Políticas Públicas

Edição: 492

Leia mais

SUS por um fio. De sistema público e universal de saúde a simples negócio

Edição: 491

Leia mais

Mais Lidos

  • Um regime anômalo sem direção definida. Artigo de Boaventura de Sousa Santos

    LER MAIS
  • O Papa Francisco fracassou?

    LER MAIS
  • “Sem Cerrado, sem água, sem vida”: campanha nacional em defesa do Cerrado é lançada em Brasí

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

13 Março 2013

“Não é possível substituir a universidade, como fonte de estudo, pensamento filosófico, crítica de valores sociais e humanismo, por ferramentas computacionais”, afirma o pesquisador.

Confira a entrevista.

Ao analisar o uso da tecnologia a partir da sua área de atuação, o ensino, o professor José Palazzo é enfático: “ciência e tecnologia podem ser importantes como ferramentas para apoiar modelos pedagógicos, mas nunca a salvação do ensino”. Crítico às posições que veem na tecnologia a possibilidade de transformar o ensino, o pesquisador diz que se trata de uma “visão distorcida da realidade”. Na entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, ele reitera que “precisamos ter consciência de que a tecnologia é apenas uma ferramenta e, se não construirmos valores humanos e éticos, estas novas tecnologias não trarão uma ruptura positiva na educação, mas uma baixa na qualidade da comunicação, do estudo e do comportamento social”.

Diante das evoluções técnicas da sociedade tecnocientífica, Palazzo destaca que o desafio “é conseguirmos fazer a união da pesquisa científica com o Humanismo e com os valores éticos e morais. Está na hora de darmos um basta à visão meramente econômica da sociedade e percebermos que este materialismo está nos levando para a atual crise moral e ética”.

Tecnologia, computação e educação foram os temas abordados por Palazzo na quarta-feira, 13-03-2012, na atividade inaugural do I Seminário – XIV Simpósio Internacional IHU: Revoluções Tecnocientíficas, Culturas, Indivíduos e Sociedades, que se iniciou neste mês no Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

José Palazzo M. de Oliveira é graduado em Engenharia Elétrica e mestre em Ciências da Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, e doutor em Informática pelo Instituto Nacional Politécnico de Grenoble. Leciona no Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as características centrais da sociedade tecnocientífica?

José Palazzo M. de Oliveira
– As características atuais, vinculadas à minha área de atuação: o ensino, podem ser caracterizadas como a visão distorcida da realidade de que a utilização de tecnologia é a solução para todos os problemas do ensino. Estas posições são fontes de contravalores criados pela radical racionalidade do que é tido como “ciência e tecnologia”. Ciência e tecnologia podem ser importantes como ferramentas para apoiar modelos pedagógicos, mas nunca a salvação do ensino.

IHU On-Line – À medida que a tecnologia evolui, quais são os desafios e desassossegos que ela traz para a vida humana?

José Palazzo M. de Oliveira
– Precisamos ter consciência de que a tecnologia é apenas uma ferramenta e, se não construirmos valores humanos e éticos, estas novas tecnologias não trarão uma ruptura positiva na educação, mas uma baixa na qualidade da comunicação, do estudo e do comportamento social. Não é possível substituir a universidade, como fonte de estudo, pensamento filosófico, crítica de valores sociais e humanismo, por ferramentas computacionais.

IHU On-Line – Qual é o sentido, as implicações e os desafios teóricos e práticos da contemporaneidade tecnocientífica para a vida cotidiana?

José Palazzo M. de Oliveira
– O principal desafio da contemporaneidade tecnocientífica é conseguirmos fazer a união da pesquisa científica com o Humanismo e com os valores éticos e morais. Está na hora de darmos um basta à visão meramente econômica da sociedade e percebermos que este materialismo está nos levando para a atual crise moral e ética.

IHU On-Line – O senhor ressalta que a tecnologia não é a solução para todos os problemas da difusão do conhecimento e reitera a necessidade de construirmos valores humanos e éticos para que as tecnologias tenham um novo renascimento. Que valores devem ser resgatados numa era em que há uma supervalorização da técnica?

José Palazzo M. de Oliveira
– Essencialmente o respeito pelo próximo considerando a natureza multiétnica e multicultural das decisões sobre a pesquisa para permitir uma integração harmoniosa dos parceiros neste projeto de ampliação do conhecimento humano.

IHU On-Line – Quais são os desafios de se pensar e fazer ética numa civilização tecnocientífica?

José Palazzo M. de Oliveira
– O principal desafio é não aceitar o modelo corrente, em que as pessoas e as organizações são avaliadas pelo que têm e não pelo que são. Isso se aplica à carreira acadêmica: o essencial é a qualidade intrínseca da pesquisa e não a supervalorização da tecnologia e dos produtos. Em um ambiente de liberdade de pesquisa, de integração da pesquisa com o ensino, e dessas com a extensão, assim como a valorização dos aspectos humanos, há espaço para novas ideias e para a abertura de novos horizontes. Este é o modelo de universidade humboldtiana; a Alemanha criou este modelo no século XIX e obteve, no início do século XX, uma das maiores concentrações de Prêmios Nobel.