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Um novo humanismo em dez princípios. Artigo de Julia Kristeva

Do humanismo cristão, entendido como um "ultrapassamento" do humano, como o acoplamento dos desejos e do sentido através da linguagem, o humanismo secularizado é o herdeiro muitas vezes inconsciente. Ele se separa dele afinando as suas próprias lógicas, das quais eu gostaria de delinear dez princípios, não mandamentos, mas sim dez convites para pensar pontes entre nós.

Publicamos aqui o discurso da filósofa, linguista e psicanalista búlgaro-francesa Julia Kristeva na Jornada de Assis. Kristeva foi colaboradora de Foucault, Barthes, Derrida e Philippe Sollers, com quem se casou em 1967.

O discurso foi publicado no jornal Corriere della Sera, 27-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O que é o humanismo? Um grande ponto de interrogação a ser abordado com a máxima seriedade? É na tradição europeia, grego-judaico-cristã, que se produziu esse evento que não cessa de prometer, de desiludir e de se refundar. Quando Jesus se descreve (João 8, 24), nos mesmos termos de Elohim que se dirige a Moisés (Êxodo 3, 14), dizendo: "Eu sou", ele define o homem – antecipando, assim, o humanismo – como uma "singularidade indestrutível" (segundo a expressão de Bento XVI).

Singularidade indestrutível que não só o reconecta ao divino por meio da genealogia de Abraão (como já fazia o povo de Israel), mas que inova. Já que o "Eu sou" de Jesus se estende do passado e do presente para o futuro e ao Universo, a Sarça Ardente e a Cruz se tornam universal.

Quando o Renascimento, com Erasmo, depois o Iluminismo, com Diderot, com Voltaire, com Rousseau, mas também com o Marquês de Sade, e assim por diante até aquele judeu ateu que foi Sigmund Freud, proclamam a liberdade dos homens e das mulheres de se rebelarem contra os dogmas e as opressões, a liberdade de emancipar os espíritos e os corpos, de colocar em discussão toda certeza, mandamento ou valor – eles abrem, talvez, a porta para um niilismo apocalíptico?

Agarrando-se ao obscurantismo, a secularização esqueceu de se interrogar sobre a necessidade de crer que está subentendido ao desejo de saber, assim como sobre os limites a serem postos ao desejo de morte – para viver juntos. No entanto, não é o humanismo, são os desvios sectários, tecnicistas e negacionistas da secularização que se precipitam na "banalidade do mal" e que hoje favorecem a automatização em curso da espécie humana.

"Não tenhais medo!": essas palavras de João Paulo II não eram dirigidas somente aos crentes, que encorajavam a resistir ao totalitarismo. A invocação desse papa – apóstolo dos direitos humanos – nos incita a não temer a cultura europeia, mas, ao contrário, a ousar o humanismo: construindo cumplicidade entre humanismo cristão e aquele que, tendo surgido do Renascimento e do Iluminismo , ambiciona a arriscar as vias perigosas da liberdade.

É por isso que, nesta terra de Assis, os meus pensamentos se voltam para São Francisco: que não busca "tanto ser compreendido, mas compreender", "não tanto ser amado, mas amar", que suscita a espiritualidade das mulheres com a obra de Santa Clara; que coloca a criança no coração da cultura europeia criando a festa de Natal; e que, pouco antes de morrer, como verdadeiro humanista ante litteram, envia a sua carta "a todos os habitantes do mundo".

Penso também em Giotto, que desdobra os textos sagrados em um conjunto de imagens vivas da vida cotidiana dos homens e das mulheres do seu tempo, e desafia o mundo moderno a se sacudir do rito tóxico do espetáculo hoje onipresente.

E é Dante Alighieri que me interpela, neste instante, quando celebra São Francisco no Paraíso da sua Divina Comédia. Dante fundou uma teologia católica do humanismo demonstrando que o humanismo existe só e enquanto nós transcendemos a linguagem através da invenção de novas linguagens: como ele mesmo fez, escrevendo em um "Stil novo" a língua italiana corrente e inventando neologismos. "Ultrapassar o humano no humano" (transumanar, Paraíso I, 69): esse – diz Dante – será o caminho da verdade. Tratar-se-á de "amarrar" – no sentido de "unir", de ver como se amarram o círculo e a imagem dentro de uma rosácea (como uma se "coloca" na outra, como se posiciona, como se coloca naquele "onde", Paraíso XXXIII, 138) –, tratar-se-á de amarrar o divino com o humano em Cristo, de amarrar o físico e o psíquico no humano.

Desse humanismo cristão, entendido como um "ultrapassamento" do humano, como o acoplamento dos desejos e do sentido através da linguagem – contanto que se trate uma linguagem de amor –, o humanismo secularizado é o herdeiro muitas vezes inconsciente. Ele se separa dele afinando as suas próprias lógicas, das quais eu gostaria de delinear dez princípios. Que não são dez mandamentos, mas sim dez convites para pensar pontes entre nós.

1. O humanismo do século XXI não é teomorfismo. O Homem Masculino não existe. Não existem nem "valores" nem "fins" superiores, não há nenhum atracadouro do divino junto aos atos mais altos daqueles homens que, do Renascimento em diante, se chamaram "gênios". Depois do Holocausto e do Gulag, o humanismo tem o dever de lembrar os homens e as mulheres que, se nos consideramos como os únicos legisladores, é somente graças ao contínuo questionamento da nossa situação pessoal, histórica e social que podemos decidir a sociedade e a história.

2. Processo de contínua refundação, o humanismo se desenvolve necessariamente por meio de rupturas que são inovações (o termo bíblico hiddouch significa inauguração-inovação-renovação; enkainosis e anakainosis; novatio e renovatio). Conhecer intimamente a herança greco-judaico-cristã, colocá-la sob rigoroso exame, transvalorar (Nietzsche) a tradição: não há outro meio para combater a ignorância e a censura, e, assim, facilitar a coexistência das memórias culturais que se construíram ao longo da história.

3. Filho da cultura europeia, o humanismo é o encontro de diferenças culturais favorecidas pela globalização e pela informatização. O humanismo respeita, traduz e reavalia as variantes das necessidades de crer e dos desejos de saber que são patrimônio universal de todas as civilizações.

4. Humanistas, "nós não somos anjos, mas temos um corpo". Assim se expressava, no século XVI, Santa Teresa d"Ávila, inaugurando a idade barroca, que não é uma Contrarreforma, mas sim uma Revolução Barroca que inicia o século das Luzes. Porém, o desejo livre é um desejo de morte. E era preciso esperar a psicanálise para reunir na única e última regulamentação da linguagem essa liberdade dos desejos que o humanismo nem censura nem lisonjeia, mas que se propõe a pôr em evidência, a acompanhar e a sublimar.

5. O humanismo é um feminismo. A libertação dos desejos necessariamente devia conduzir à emancipação das mulheres. Depois dos filósofos do Iluminismo que abriram o caminho, as mulheres da Revolução Francesa pretenderam essa emancipação com Théroigne de Méricourt, com Olympe de Gouges, e assim por diante com Flora Tristan, com Louise Michel e com Simone de Beauvoir, acompanhadas pelas lutas das sufragistas inglesas. E quero lembrar aqui as mulheres chinesas da Revolução Burguesa de 4 de maio de 1919. As lutas por uma paridade econômica jurídica e política requerem uma nova reflexão sobre a escolha e a responsabilidade da maternidade. A secularização é a única civilização que ainda está isenta de um discurso sobre a maternidade. O vínculo passional entre a mãe e a criança, este primeiro outro, aurora do amor e da hominização – aquele vínculo no qual a continuidade biológica se torna sentido, alteridade e palavra é um confiar, um confiar-se. Diferente da religiosidade assim como da função paterna, a confiança materna completa ambas, participando assim, plenamente, da ética humanista.

6. Humanistas, é por meio da singularidade compartilhada da experiência interior que podemos combater aquela nova banalidade do mal que é a automatização da espécie humana a que estamos assistindo. A partir do momento que somos seres falantes e escritores, já que desenhamos, e pintamos, e tocamos, e jogamos, e calculamos, e imaginamos, e pensamos: justamente por isso não somos condenados a nos tornar "elementos de linguagem" na hiperconexão acelerada. O infinito das capacidades de representação é o nosso habitat, a nossa dimensão profunda e libertadora, a nossa liberdade.

7. Mas a Babel das línguas também gera caos e desordens que o humanismo jamais conseguirá regular com a simples escuta, embora atenta, prestada às línguas dos outros. Chegou o momento de retomar os códigos morais do passado: sem enfraquecê-los com a pretensão de problematizá-los, e renovando-os a despeito das novas singularidades. Longe de serem puros arcaísmos, as proibições e as limitações são obstáculos que não podem ser ignorados, se não se quer suprimir a memória que é o pacto dos humanos entre si e com o planeta, com os planetas. A história não pertence ao passado: a Bíblia, os Evangelhos, o Alcorão, o Rigveda, o Tao habitam o nosso presente. É utópico criar novos mitos coletivos, e não é suficiente nem mesmo interpretar os antigos. Cabe-nos reescrevê-los, repensá-los, revivê-los: dentro das linguagens da modernidade.

8. Não existe mais um Universo. A pesquisa científica descobre e investiga continuamente o Multiverso. Multiplicidade de culturas, de religiões, de gostos e de criações. Multiplicidade de espaços cósmicos, de matérias e de energias que coabitam com o vácuo, que se compõem com o vácuo. Não tenhais medo de serdes mortais. Capaz de pensar o multiverso, o humanismo é chamado a se confrontar com uma tarefa epocal: inscrever a mortalidade nos multiversos da vida e do cosmos.

9. Quem poderá fazer isso? O humanismo, porque ele sabe como cuidar disso. Poder-se-á dizer que o cuidado amoroso do outro, o cuidado ecológico da Terra, a educação dos jovens, a assistência aos doentes, aos deficientes, aos idosos, aos fracos não detém nem a corrida das ciências nem a explosão do dinheiro virtual. O humanismo não será um regulador do liberalismo: ao contrário, será capaz de transformá-lo, sem inversões apocalípticas ou promessas de futuros gloriosos. Tomando-se o seu tempo, criando uma nova vizinhança e solidariedades elementares, o humanismo acompanhará a revolução antropológica que é anunciada tanto pela biologia que emancipa as mulheres, quanto pelo deixar-fazer da técnica e das finanças, e pela impotência do modelo democrático-piramidal, que não consegue canalizar as inovações.

10. O homem não faz a história, mas a história somos nós. Pela primeira vez, o Homo sapiens é capaz de destruir a terra e a si mesmo em nome das suas religiões, crenças ou ideologias. E, pela primeira vez, os homens e as mulheres são capazes de reavaliar em total transparência a religiosidade constitutiva do ser humano. O encontro das nossas diversidades, aqui em Assis, testemunha que a hipótese da destruição não é a única possível. Ninguém sabe quais seres humanos sucederão a nós, que estamos comprometidos nessa transvaloração antropológica e cósmica sem precedentes. A refundação do humanismo não é nem um dogma providencial, nem um jogo do espírito: é uma aposta.

A era da suspeita não é mais suficiente. Diante das crises e das ameaças cada vez mais graves, chegou a era da aposta. Devemos ter a coragem de apostar na renovação contínua das capacidades dos homens e das mulheres de crer e de saber juntos. Para que, no multiverso cercado de vácuo, a humanidade possa perseguir longamente o seu destino criativo.

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