MP 579: um programa de privatização pior do que o do governo FHC'. Entrevista especial com Joaquim Francisco de Carvalho

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09 Novembro 2012

“Às vezes as pessoas não estão preparadas para assumir determinados cargos relacionados ao setor. Basta ver que a Dilma, quando foi ministra de Minas e Energia, fez muita coisa errada, e tampouco pensou em investir em energia eólica ou solar”, declara o engenheiro.

Confira a entrevista.


Interligar parques de energia eólica e centrais hidrelétricas. Essa é a proposta indicada por alguns engenheiros para garantir o abastecimento energético brasileiro nos próximos anos. Entre eles, Joaquim Francisco de Carvalho, pesquisador associado ao Programa de Pós-Graduação em Energia da USP, diz que esse sistema tem a capacidade de “gerar uma energia suficiente para que se possa consumir no Brasil o mesmo que se consome hoje na Alemanha, um país altamente desenvolvido”. Segundo ele, “o progresso tecnológico permitirá que, no futuro, gaste-se menos energia elétrica para se obter o mesmo resultado”.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Carvalho explica que a interligação entre os dois sistema poderá ser “feita por meio de um sistema transmissão interligado, na forma de uma 'smart grid' (rede inteligente). A ideia é ligar os parques entre si e interligá-los com o sistema hidrelétrico através da malha de transmissão de energia. Então, nos períodos secos, se usará, sempre que possível, a energia eólica para não gastar a água que está acumulada, de tal maneira que, nos períodos secos, ainda haverá água suficiente nos reservatórios hidrelétricos”.

O engenheiro também comenta a MP 579, anunciada no mês de setembro pelo governo federal, e é enfático: “A MP significa, em última análise, um programa de privatização pior do que foi o do governo Fernando Henrique Cardoso. É ainda mais danoso para o sistema”. Sobre o Plano Decenal de Energia 2021, que está na pauta do governo, Carvalho reconhece os méritos da EPE, mas pondera que seus técnicos “não conseguem colocar em prática o que sabem e o que é lógico”.

Joaquim de Carvalho
é doutor em Energia pela USP, e mestre em Engenharia Mecânica, com ênfase em Energia Nuclear pela PUC-Rio. É pesquisador associado ao Instituto de Energia e Eletrotécnica da USP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que consiste a proposta de um sistema interligado hidroeólico para o Brasil?

Joaquim Francisco de Carvalho
– O Brasil tem um sistema hidrelétrico amplo, praticamente todo interligado, que consegue abastecer 85% da energia do país. Mas em momentos hídricos críticos, quando a vazão dos rios fica menor, na época das secas, a energia hidrelétrica não é suficiente para abastecer o país, e aí são ligadas as centrais termoelétricas a gás natural, a carvão e a óleo para reforçar o abastecimento de energia. Mas isso não é desejável, porque contribui para o efeito estufa. O ideal seria evitar a geração termelétrica a combustíveis fósseis. Além disso, existem no Brasil duas usinas nucleares em operação, Angra I e Angra II, que também estão interligadas ao sistema, que geram uma energia muito cara e, apesar de não agredirem o meio ambiente, há o risco de acidentes catastróficos, a exemplo do que ocorreu em Fukushima.

Na verdade, o Brasil pode prescindir de energia nuclear porque tem um potencial hidrelétrico que está entre os maiores do mundo e do qual só se tem aproveitado 30%. Além disso, tem um potencial eólico extremamente elevado. Os estudos mais recentes indicam algo em torno de 284 gigawatts de potência. Com esses dois potenciais naturais, é possível desenvolver um sistema integrado hidroeólico.

IHU On-Line – Como seria feita essa interligação dos parques eólicos com a rede hidrelétrica? Por que essa interligação traz benefícios energéticos?

Joaquim Francisco de Carvalho
– Por meio de um sistema transmissão interligado, na forma de uma "smart grid” (rede inteligente). Os parques eólicos deveriam ser interligados de tal maneira que, quando não houver vento em determinada região, haverá em outra, porque nunca há uma calmaria completa ao longo de todo o litoral. Então, ao interligar os parques entre si, quando um não opera por falta de vento, outros estarão operando. Isso é semelhante a uma carteira de ações na bolsa de valores. Quer dizer, investimento numa única ação é mais incerto do que investimento numa carteira de ações, ou seja, o conjunto das ações será mais estável do que cada ação individualmente. A ideia é esta: ligar os parques entre si e interligá-los com o sistema hidrelétrico por meio da malha de transmissão interligada. Então, nos períodos secos, se usará, sempre que possível, a energia eólica para não gastar a água que está acumulada, de tal maneira que não seja necessário racionar a energia por falta de água nos reservatórios.

IHU On-Line – E como deve ser realizado o estudo ambiental para que as comunidades locais não sejam prejudicadas com o projeto, como acontece hoje com a construção de novas hidrelétricas?

Joaquim Francisco de Carvalho
– Essa é uma polêmica que está sendo discutida por causa da construção de novas hidrelétricas na Amazônia. Dizem que a construção de novas hidrelétricas na região irá destruir todo o ecossistema da floresta. Porém, quem diz isso não fez os cálculos corretos, ou fala em nome do lobby das usinas nucleares, dos grupos interessados nas termelétricas convencionais e nas nucleares, que estão contra as hidrelétricas, porque as hidrelétricas tornam desnecessárias as nucleares e termelétricas convencionais. Além disso, os reservatórios hidrelétricos criam problemas para as mineradoras que cobiçam as reservas de minérios estratégicos existentes na Amazônia. Em suma, há fortes interesses que estão por trás dessa guerra contra as centrais hidrelétricas.

Se se aproveitassem 80% do potencial hidrelétrico da Amazônia e deixassem 20% intacto para preservar as bacias hidrográficas mais sensíveis, pela diversidade biológica, seria inundada uma área conjunta inferior a 0,5% da área da Amazônia brasileira, ou seja, uma extensão perfeitamente assimilável pelo ecossistema regional. Então, essa é uma polêmica vazia.

A Amazônia tem cinco milhões de km², onde vivem 500 mil índios. Não tem cabimento os índios quererem ter soberania sobre toda esta extensão. Por outro lado, como cidadãos que são, têm todo o direito de reclamar e exigir que o governo os reassente em lugares mais adequados e em condições de urbanização, educação, saúde e saneamento dignas de sua condição humana. Ou seja, eles devem ser transferidos para regiões previamente urbanizadas, com acesso à água, energia elétrica, saneamento básico, etc. para viverem melhor do que vivem hoje.

IHU On-Line – Mas os novos parques eólicos deveriam ser construídos em que regiões do Brasil? Comunidades também terão de ser realocadas?

Joaquim Francisco de Carvalho
– Esse é outro problema, porque os parques eólicos também podem provocar prejuízos para as populações de pássaros, mas há estudos que definem as rotas migratórias desta fauna. Então, seria preciso construir os parques fora dessas áreas. Além disso, os parques causam poluição sonora, e seria necessário construí-los de modo que não ficassem nas proximidade de zonas urbanizadas. A respeito disso, é interessante assinalar que já se estudam técnicas para o isolamento acústico de habitações situadas em zonas de influência de parques eólicos.

IHU On-Line – Já é possível vislumbrar qual seria o potencial energético do sistema hidroeólico?

Joaquim Francisco de Carvalho
– Esse sistema pode gerar uma energia suficiente para que se possa consumir no Brasil o mesmo que se consome hoje na Alemanha, um país altamente desenvolvido. Com o avanço da tecnologia, será possível gastar menos energia elétrica para se obter o mesmo resultado. Então, será possível ter mais conforto com menos consumo de energia.

IHU On-Line – E será possível reduzir o custo atual de R$ 80/Mwh da energia gerada pelo setor elétrico?

Joaquim Francisco de Carvalho
– Esse já é um valor bastante barato. Mas esse é o valor cobrado pelas usinas novas. As antigas custam menos, porque o capital já está amortizado.

Por outro lado, quando se privatizou o sistema elétrico, os novos proprietários começaram a cobrar o preço da energia como se as centrais fossem novas, e essas empresas receberam (e continuem recebendo) um lucro fabuloso. A Tractebel Energia, que funciona no Rio Grande do Sul, por exemplo, ganha muito dinheiro, porque comprou hidrelétricas que estavam amortizadas no Paraná e no Rio Grande do Sul, e vende a energia ao preço máximo do mercado.

IHU On-Line – Como estão as pesquisas em relação ao sistema interligado hidroeólico?

Joaquim Francisco de Carvalho
– As pesquisas estão paradas, porque quem deveria fazer esses estudos é a Empresa de Pesquisa Energética – EPE, empresa do Ministério de Minas e Energia. O problema é que a EPE estuda em cima de tudo que já existe para expandir o que já existe. Agora que a EPE está começando a reconhecer a importância da energia eólica. A energia fotovoltaica, solar, também é interessante para o Brasil, mas não há estudos nem investimentos suficientes. A Alemanha, que tem um clima menos favorável que o Brasil, está investindo muito nessa área.

IHU On-Line – Há uma crítica de que a energia solar não tem espaço no planejamento da política energética. Quais as razões?

Joaquim Francisco de Carvalho
– A razão é falta de vontade política. Às vezes as pessoas não estão preparadas para assumir determinados cargos relacionados ao setor. Basta ver que a Dilma, quando foi ministra de Minas e Energia, fez muita coisa errada, e tampouco pensou em investir em energia eólica ou solar. Ela só pensava em energia hidrelétrica, por causa do grande impulso da Eletrobrás, ou no gás natural, no óleo combustível e no carvão. Mas, antes disso, ela foi secretária de finanças do governo Alceu Colares, do PDT do Rio Grande do Sul; depois mudou para o PT, onde foi secretária de energia do governo Olívio Dutra. Na época em que foi secretária de Energia no Rio Grande do Sul, ela não conhecia o assunto, mas falava como se dominasse o tema. Além de ter um conhecimento supérfluo, não tem preparo técnico. No meio acadêmico Dilma não tem credibilidade porque divulgou um currículo em que se dizia doutora pela Unicamp, mas o caso é que ela não tem nem mestrado nem doutorado nessa instituição. Ela cursou uma graduação na Unicamp. Então, com essa atitude, ficou desmoralizada no meio acadêmico, e ninguém acredita nela.

IHU On-Line – Quais foram os principais problemas do setor elétrico na última década?

Joaquim Francisco de Carvalho –
O maior problema é que o governo inverteu o “time” e investiu em usinas fora do período necessário. Ou seja, investiram precipitadamente nas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio. Poderiam ter construído outras hidrelétricas menores, antes de investir nestas. Mas a pressão do lobby das empreiteiras fez o governo agir assim. Dilma é muito movida pelo lobby das grandes empresas. Então, os investimentos públicos estão a reboque do interesse das grandes empreiteiras, e o planejamento energético não existe.

IHU On-Line – O senhor também faz uma análise crítica da Medida Provisória – MP 579, que diz respeito à renovação das concessões do setor elétrico?

Joaquim Francisco de Carvalho
– A MP 579 irá privatizar o setor elétrico que sobrou de dentro para fora. Vai destruir tudo. A MP significa, em última análise, um programa de privatização pior do que o do Fernando Henrique Cardoso. É ainda mais danoso para o sistema.

IHU On-Line – Que análise o senhor faz do Plano Decenal de Expansão de Energia 2021?

Joaquim Francisco de Carvalho
– É um trabalho que tem seu mérito. A empresa de pesquisa tem um quadro de funcionários sérios e altamente competentes, que têm visão do futuro, só que politicamente eles não conseguem colocar em prática o que sabem e o que é lógico. O presidente da EPE, Mauricio Tolmasquim, é um homem informado e capacitado, só que politicamente ele não se consegue fazer nada. Então, o problema desse plano é que eles não investem o que deveriam investir em programas como esse, de interligação hidroeólica, e tampouco investem em tecnologia de redes inteligentes.

Com uma rede inteligente, seria possível ter uma medição, em tempo real, da energia que está sendo consumida e, de outro lado, seria possível medir quais são as condições de gerar energia num determinado momento. Então, se tiver menos água e muito vento, a rede é abastecida com energia eólica; se tiver menos vento, aí se utiliza a água. Isso é uma rede inteligente.

IHU On-Line – Não há investimento?

Joaquim Francisco de Carvalho
– Os alemães estão investindo seriamente em redes inteligentes, que permitem que cada casa tenha o seu painel solar. Durante o dia, quando a família está fora, o sol incide na residência e não se gasta energia. A casa funciona, portanto, como uma miniusina, porque estará produzindo energia elétrica e injetando-a na rede. Aí, quando a família chega em casa e começa a usar a energia elétrica, a conta começa a contar, e a família começa a pagar pela energia, mas essa energia é descontada da energia fornecida durante o dia, que foi economizada. Então, isso é bom para todo mundo, contribui para o sistema como um todo, e torna a energia mais barata para as famílias. Esse é um tema que deveria estar presente no Plano Decenal de Energia.

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