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13 Maio 2011

"É indispensável que se faça um inventário dos aproveitamentos hidráulicos e eólicos, ordenando-os por mérito econômico, social e ambiental; e que se institucionalize um processo decisório submetido a controle público, para organizar a sequência das usinas a serem construídas e descartar as que apresentarem problemas insuperáveis", escrevem Joaquim Francisco de Carvalho, doutor em Energia pela USP, pesquisador do programa de pós-graduação em Energia da USP (PPGE/USP), ex-diretor industrial da Nuclen, primeiro presidente do IBDF (precursor do Ibama), e Ildo Sauer, diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, Coordenador do PPGE/USP, Ph.D. em Engenharia Nuclear pelo MIT, ex-gerente de projeto do circuito primário do reator nuclear da Marinha (1986-89), em artigo publicado no jornal Valor, 13-05-2011.

Segundo eles, "se esse processo já estivesse em vigor em 2003, é possível que um aproveitamento como o de Belo Monte tivesse dado lugar a hidrelétricas com reservatórios pequenos, escalonados ao longo dos rios, com melhores atributos sociais e ambientais".

Eis o artigo.

O acidente de Fukushima arrefeceu o aquecimento que a indústria nuclear experimentava em anos recentes, nos países industrializados. Partidos ligados ao movimento verde ganham espaço e políticos que apoiavam as usinas nucleares estão revendo suas posições.

Na Alemanha - supridora da tecnologia das usinas de Angra - a expansão do parque nuclear foi cancelada e a chanceler Angela Merkel já declarou que as usinas existentes "serão desativadas o mais cedo possível".

No Brasil, entretanto, os políticos não têm mostrado sensibilidade para rever posições equivocadas. No dia seguinte ao acidente de Fukushima, o ministro de Minas e Energia declarou que "as usinas de Angra são 100% seguras e o plano de construir outras não será revisto".

Angra está perto dos centros mais densamente povoados e industrializados do Brasil. Um acidente nuclear ali provocaria perdas humanas e paralisaria grande parte da economia, como está acontecendo no Japão pós-Fukushima. Não precisamos correr esse risco. Apesar das conhecidas questões ambientais, a alternativa mais racional para se expandir o sistema elétrico é aproveitar o potencial hidráulico, em combinação com parques eólicos e com biomassa, complementados por térmicas flexíveis.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o potencial hidrelétrico brasileiro é de 267,8 GW, dos quais 188,5 GW não estão em aproveitamento, aí incluído o potencial das pequenas hidrelétricas, que é de 17,5 GW, como se vê na tabela.

A região norte (essencialmente a Amazônia) detém 65% do potencial não aproveitado.

Se, por motivos de caráter social e ambiental, os planos de expansão do sistema elétrico forem reformulados, limitando-se em 80% o potencial a aproveitar na Amazônia - e se as hidrelétricas amazônicas forem projetadas para inundar 0,3 km2 /MW, a área alagada pelos reservatórios será de aproximadamente 27 mil km2, incluindo a área já ocupada pelos rios nas estações chuvosas. Isso equivale a 0,5% da área da região - uma alteração perfeitamente assimilável pela natureza.

É indispensável que se faça um inventário dos aproveitamentos hidráulicos e eólicos, ordenando-os por mérito econômico, social e ambiental; e que se institucionalize um processo decisório submetido a controle público, para organizar a sequência das usinas a serem construídas e descartar as que apresentarem problemas insuperáveis.

Se esse processo já estivesse em vigor em 2003, é possível que um aproveitamento como o de Belo Monte tivesse dado lugar a hidrelétricas com reservatórios pequenos, escalonados ao longo dos rios, com melhores atributos sociais e ambientais.

Mediante uma política energética que respeite o mérito dos projetos, as empresas públicas e o empresariado do setor de geração elétrica deverão se transformar nos maiores defensores do ecossistema amazônico, pois alterações causadas por desmatamentos comprometerão a vazão dos rios, inviabilizando as próprias hidrelétricas.

De acordo com um levantamento feito pelo Centro de Pesquisas de Energia Elétrica da Eletrobrás, em conjunto com as firmas Camargo-Schubert e True Windows Solutions há dez anos, o potencial eólico brasileiro para ventos com velocidade média superior a 7 m/s é de 143,47 GW. Em razão da evolução tecnológica, como a maior altura das torres dos aerogeradores, e do avanço nas medições de inventário, há indicações de que esse potencial poderá dobrar.

A interligação dos sistemas hidrelétrico e eólico permitirá que parte da energia gerada nos parques eólicos seja acumulada na forma de água nos reservatórios hidrelétricos - de modo semelhante às malhas termo-eólicas de alguns países europeus, nas quais a energia eólica permite que se economize gás natural ou óleo combustível.

Esse sistema hidroeólico poderá operar em sinergia com usinas termelétricas a biomassa, pois a frota automotiva brasileira é em grande parte alimentada com etanol, forçando a produção de bagaço em escala suficiente para alimentar termelétricas de pequeno porte, totalizando uma capacidade da ordem de 15 GW a partir de 2.012, segundo a Única.

Portanto, o sistema interligado hidroeólico-térmico teria uma capacidade global de 425 GW. Como reserva de segurança, esse sistema teria um pequeno parque de usinas a gás, flexíveis, que somente operariam em períodos hidroeólicos críticos. Essa solução tem custos de investimento inicial significativamente inferiores aos da alternativa nuclear equivalente, sem exigir os custos e cuidados das gerações futuras, por séculos, para o combustível nuclear irradiado, de cerca de 1 mil toneladas por reator.

Por outro lado, segundo o IBGE, a população brasileira deverá se estabilizar em 215 milhões de habitantes por volta do ano 2.050, de modo que daí em diante o referido sistema integrado poderá oferecer continuamente cerca de 8.650 kWh firmes por habitante por ano, superior a muitos países de alta qualidade de vida. Com isso, o Brasil seria o primeiro grande país a ter um sistema elétrico de fato sustentável, econômica e socioambientalmente.