''O risco é o Brasil continuar eternamente um país subdesenvolvido''. Entrevista especial com José Luís Oreiro

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02 Agosto 2012

“A desindustrialização, se não for revertida, vai condenar a economia brasileira a um curto crescimento medíocre a médio e longo prazos”, alerta o economista.

Confira a entrevista.


A receita de aumentar a renda e oferecer crédito para fomentar o consumo e alavancar a economia, adotada durante o governo Lula, já dá sinais de enfraquecimento, diz o economista José Luís Oreiro à IHU On-Line. Segundo ele, o “sucesso desse modelo acabou levando ao seu esgotamento”, porque a taxa de desemprego, que era de 12% entre 2003 e 2004, caiu para 6% no ano passado, e a utilização da capacidade produtiva da indústria subiu de 78% para 81% no mesmo período. Diante desse cenário, alerta, “o país precisa urgentemente investir no aumento do investimento e da produtividade do trabalho, e isso não se consegue apenas estimulando a demanda de consumo”.

Na avaliação de Oreiro, a atual desaceleração da economia brasileira é decorrente da desindustrialização, especialmente por causa da baixa competitividade da indústria de transformação que, embora seja o setor industrial mais dinâmico da economia brasileira, responde por “menos de 15% do PIB” nacional. “Como o setor responde por uma situação muito pequena do PIB, a capacidade dele de gerar ganhos de produtividade, que se alastrem para o resto da economia, é muito pequena. Isso, do meu ponto de vista, é a razão estrutural mais forte pela qual a economia brasileira hoje, perde dinamismo”, assinala em entrevista concedida por telefone.

A estimativa do economista é de que a economia brasileira cresça de 2,5 a 3% nas próximas décadas, crescimento que, segundo ele, “é insustentável”. Para Oreiro, a economia nacional enfrenta um “conflito entre a estabilidade a curto prazo e o potencial de crescimento a longo prazo”. Para reverter esse quadro, salienta, “é preciso reindustrializar a economia brasileira, porque na medida em que se reindustrializa, aumenta a importância do setor mais dinâmico da economia e, portanto, há maiores ganhos de produtividade. (...) Tem de estimular a indústria de transformação, aumentando o componente da demanda agregada, e o investimento”.

José Luís Oreiro (foto abaixo) é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, possui mestrado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e doutorado em Economia da Indústria e da Tecnologia pela UFRJ. Organizou Agenda Brasil: políticas econômicas para o crescimento com estabilidade de preços (São Paulo: Monole, 2003) e Sistema financeiro: uma análise do setor bancário brasileiro (Rio de Janeiro: Campus, 2007). Atualmente leciona no Departamento de Economia da Universidade de Brasília – UnB.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que a expansão do crédito e o aumento da renda salarial como receita para estimular a economia brasileira dão sinais de esgotamento? Por que essa política foi importante nos últimos anos e agora não é mais suficiente para alavancar a economia?

José Luís Oreiro
– Porque em 2003, quando o presidente Lula assumiu a presidência da República, a economia brasileira encontrava-se em uma situação completamente diferente da que se encontra hoje. Em 2003 e 2004, a taxa de desemprego estava muito elevada, em torno de 12% da força do trabalho, e se tinha uma utilização de capacidade da indústria em torno de 78%. Então, havia muita mão de obra desempregada além de capacidade produtiva não utilizada. Nesse contexto, para garantir o crescimento econômico rápido e robusto, foi preciso aumentar a demanda agregada para garantir uma utilização mais intensa dos recursos produtivos existentes. A estratégia adotada pelo governo do PT nesse período foi estimular o consumo. Havia aumento do crédito e, em menor grau, aumento da renda salarial, e isso permitiu um crescimento rápido da demanda de consumo. Esse aumento pode ser atendido facilmente porque havia muita capacidade ociosa e desemprego grande da força de trabalho.

O problema é que o próprio sucesso desse modelo acabou levando ao seu esgotamento, no sentido de que hoje a taxa de desemprego é a metade da que se tinha em 2003, algo inferior a 6% da força de trabalho, e um nível de utilização da capacidade em torno de 81%. Então, esses dados mostram que o Brasil chegou ao teto de expansão do nível de atividade econômica apenas com base no consumo. O país precisa urgentemente investir no aumento do investimento e da produtividade do trabalho, e isso não se consegue apenas estimulando a demanda de consumo.

IHU On-Line – A equipe econômica do governo está atenta a esse cenário de mudança?

José Luís Oreiro
– Sim. A presidente Dilma sabe que precisa de um aumento de investimento. O problema é que ela se defronta com uma armadilha herdada do governo anterior: em função de aumento de salários que foram concedidos durante o governo Lula, tem-se pouco espaço para investimento público. Essa é a principal barreira para mudar o modelo de crescimento para um modelo baseado no investimento e não no consumo.

IHU On-Line – A que atribui a desaceleração da economia brasileira neste momento? O crescimento diminui por causa da política econômica, da crise internacional?

José Luís Oreiro
– Tem uma razão de natureza conjuntural, sem dúvida nenhuma, porque a crise na Europa está afetando as exportações de produtos manufaturados desde meados do ano passado, mas a desaceleração também está relacionada com a desindustrialização da economia brasileira. Hoje a indústria de transformação responde por menos de 15% do PIB, e é o setor mais dinâmico da economia, fonte ou principal difusor do projeto tecnológico. Como o setor responde por uma situação muito pequena do PIB, a capacidade dele de gerar ganhos de produtividade, que se alastrem para o resto da economia, é muito pequena. Isso, a meu ver, é a razão estrutural mais forte pela qual a economia brasileira, hoje, perde dinamismo. Quer dizer, ela perdeu dinamismo porque não é capaz de gerar ganhos de produtividade que permitam um crescimento mais robusto do PIB num contexto em que o desemprego, aparentemente, chegou a um nível mais baixo, e onde a capacidade instalada está sendo bastante hostilizada.

IHU On-Line – Há anos muitos economistas defendem o investimento na indústria de transformação. Por que é difícil fortalecer esse setor? A aposta brasileira pelo modelo agroexportador interfere no desenvolvimento desse setor?

José Luís Oreiro
– É difícil defender a indústria de transformação porque esse é o setor mais exposto à concorrência internacional. Num contexto em que se tem, desde 2005, uma apreciação bastante significativa da taxa de câmbio, fica difícil defender o setor. Embora nos últimos três meses se tenha tido uma desvalorização do câmbio em torno de 15 a 20%, esse valor ainda não é suficiente para compensar seis anos de apreciação contínua da taxa de câmbio. Para se ter ideia, se analisarmos o custo unitário do trabalho – que é o custo salarial dividido pela quantidade produzida pela indústria – desde 2003 até o final de 2011, e deflacionar o valor pela taxa real e efetiva de câmbio, veremos um aumento de mais de 60%. Quer dizer, o custo de produção por unidade produzida na indústria de transformação brasileira entre janeiro de 2003 e dezembro de 2011 aumentou, quando comparado com a taxa real de câmbio, 60%. Isso mostra que a grande fonte de perda de competitividade da indústria brasileira é a apreciação da taxa de câmbio, num contexto de forte aumento salarial, que foi produzido durante o governo Lula.

IHU On-Line – Quais são as raízes da desindustrialização brasileira? Recentemente o senhor publicou um artigo em que mencionava duas hipóteses em relação à desindustrialização brasileira: que esse não é um processo natural e resulta da política macroeconômica adotada nos últimos 20 anos; ou de que a desindustrialização brasileira é natural e igual a dos países desenvolvidos. Já é possível fazer um diagnóstico?

José Luís Oreiro
– A desindustrialização brasileira é precoce. Quando comparamos com os países desenvolvidos, observamos que o Brasil começou a se desindustrializar com um nível de renda per capita inferior ao dos países desenvolvidos, quando eles mesmos iniciaram os seus respectivos processos de desindustrialização. Então, a desindustrialização brasileira é de uma natureza diferente da dos países desenvolvidos no sentido de que é precoce, ou seja, ocorre num nível de renda per capita inferior da dos países desenvolvidos, e ela é motivada fundamentalmente pela taxa real de câmbio.

IHU On-Line – Então resulta da política macroeconômica?

José Luís Oreiro
– Exatamente.

IHU On-Line – Quais os riscos de a indústria e a economia brasileira se manterem estáticas nos próximos anos? Vislumbra essa possiblidade?

José Luís Oreiro
– O Brasil pode continuar crescendo em torno de 2,5, 3% ao ano durante vários anos ou décadas, com um razoável grau de estabilidade macro, e com uma taxa de desemprego não muito grande. O problema é que, se o país crescer a esse ritmo, o Brasil vai continuar eternamente um país subdesenvolvido. Um crescimento de 2,5% do PIB no longo prazo gera um crescimento da renda per capita em torno de 1,2, 1,5% ao ano. Isso é muito pouco. Quer dizer, os países desenvolvidos têm uma tendência de crescimento de renda per capita em torno de 1,5 a 2% ao ano – com exceção desse momento, em que eles estão em crise. Porém, observando um período mais longo, percebe-se que a renda cresce nesse ritmo. Então, se a renda per capita brasileira crescer em torno de 1,5 a 2%, significa que o Brasil nunca irá alcançar os países desenvolvidos. O risco é o Brasil continuar eternamente um país subdesenvolvido.

IHU On-Line – O crescimento econômico de pouco mais de 7%, em 2010, foi uma exceção? Há chances de o crescimento ser sustentável nos próximos anos?

José Luís Oreiro
– Aquele crescimento foi uma exceção. Dada as condições da economia brasileira hoje, o crescimento é insustentável.

IHU On-Line – Como garantir o crescimento sustentável? Pode nos explicar sua aposta na capacidade produtiva e taxa de crescimento da produtividade do trabalho?

José Luís Oreiro
– É preciso reindustrializar a economia brasileira, porque na medida em que se reindustrializa, aumenta a importância do setor mais dinâmico da economia e, portanto, há maiores ganhos de produtividade. Então, basicamente minha proposta é mudar a composição da demanda agregada em direção a produtos industrializados. Quando se estimula o consumo, puro e simplesmente, uma parte desse estímulo vai para produtos industriais, sem dúvida nenhuma, como automóveis, mas também se aumenta a demanda de serviços. No entanto, isso não interessa ao Brasil, porque o setor de serviços no país, além de já estar muito inchado, é de baixa produtividade, porque a mão de obra brasileira tem baixo nível de instrução.

Então, tem de estimular a indústria de transformação, aumentando o componente da demanda agregada, e o investimento. Quando se fala em aumentar o investimento público, se pensa em aumentar a demanda de máquinas, de cimento, de asfalto, de construções, etc. Em vez de simplesmente aumentar a demanda global da economia, é preciso mudar a composição dela em direção a bens que são produzidos pelo setor de maior dinamismo: a indústria de transformação.

IHU On-Line – Que mudanças devem ser feitas na política econômica para garantir esse fortalecimento da indústria de transformação?

José Luís Oreiro
– É preciso, primeiro, aumentar significativamente o investimento público nas três esferas: União, estados, e municípios, e nas empresas estatais. Atualmente esses investimentos estão em torno de 3% a 3,5% do PIB. É preciso elevá-los para 5% ou 6% do PIB, pelo menos. Ou seja, tem que aumentar o investimento público entre 40% ou 50% do valor que ele possui hoje. Em segundo lugar, é preciso continuar o processo de desvalorização da taxa de câmbio. Embora o câmbio hoje esteja melhor do que estava há quatro meses, ele ainda não é suficiente para garantir uma competitividade mais robusta da indústria de transformação. Então, precisa-se desvalorizar o câmbio para um patamar entre R$ 2,20 a 2,40, por exemplo. Esses dois elementos são fundamentais para garantir um início do processo de reindustrialização da economia brasileira.

IHU On-Line – Como estão os investimentos na área do pré-sal? Vislumbra uma indústria competitiva nessa área?

José Luís Oreiro
– Particularmente, sou muito cético com respeito ao pré-sal. Trata-se de um investimento muito volumoso, de uma tecnologia que, ao que tudo indica, está em via de se tornar obsoleta. Não consigo visualizar, nos próximos vinte anos, a matriz energética do mundo ainda baseada na exploração de derivados de petróleo. Então, trata-se de uma aposta de altíssimo risco. O pré-sal veio tarde demais para a economia brasileira, no sentido de que, se o Brasil o tivesse descoberto há vinte anos, realmente poderia ter se aproveitado dessa abundância de petróleo de maneira positiva. O risco que o Brasil corre agora é de investir um monte de dinheiro na exploração do pré-sal e, daqui dez anos ou quinze anos, toda essa tecnologia se tornar obsoleta, porque vamos ter uma revolução energética que vai implicar no abandono, ou pelo menos, numa redução significativa na demanda por derivados de petróleo.

IHU On-Line – O Estado brasileiro pode ser caracterizado como neodesenvolvimentista? Quais são suas características?

José Luís Oreiro
– O desenvolvimentismo brasileiro é meio inconsistente no sentido de que realmente há uma preocupação maior com o desenvolvimento, com o crescimento, mas as metas e os instrumentos da política macroeconômica não são totalmente consistentes entre si. De maneira que os resultados que se obtém são muito fracos.

IHU On-Line – O modelo de desenvolvimento também é ultrapassado?

José Luís Oreiro
– Exatamente. Quer dizer, se apostar em uma tecnologia velha, que é uma matriz energética com base em derivados do petróleo. Realmente acho que é apostar no passado.

IHU On-Line – Como vê as políticas econômicas do governo Dilma?

José Luís Oreiro
– Houve algumas mudanças importantes. Claramente, a política monetária está melhor conduzida do que era no governo Lula, no sentido de que agora há uma preocupação maior com o crescimento do que apenas com a estabilidade de preços, como havia na gestão do Henrique Meirelles, no Banco Central. Há também o início de uma preocupação com o aprofundamento da responsabilidade fiscal, no sentido de que hoje se entende isso não apenas como uma manutenção de um superávit primário suficiente para garantir a estabilidade ou a queda da dívida pública como proporção do PIB, mas também no sentido de que é preciso deixar espaço no orçamento para aumentar o investimento público. Então, a presidente Dilma tem essa preocupação. Houve uma evolução nesse sentido, mas ainda é fraca, pequena, se comparada com aquilo que se precisa para garantir um crescimento sustentável no médio e longo prazos.

IHU On-Line – Quais os reflexos e as consequências que se pode esperar diante da desindustrialização e de uma possível queda na exportação de commodities, caso a crise internacional se mantenha nos próximos anos?

José Luís Oreiro
– A desindustrialização, se não for revertida, vai condenar a economia brasileira a um curto crescimento medíocre a médio e longo prazos. Atualmente, o potencial de crescimento de longo prazo da economia brasileira é em torno de 2,5% a 3% ao ano.

A queda da exportação de commodities – isso deve acontecer em curto prazo, talvez no intervalo de um ano – deve produzir um aumento bastante significativo no déficit em conta corrente, e, se isso acontecer, teremos uma desvalorização bem forte da taxa de câmbio. Nota-se que há uma espécie de trade off entre o risco de curto prazo e as perspectivas a longo prazo no seguinte sentido: para o Brasil seria bom se tivesse uma desvalorização muito forte da taxa de câmbio hoje, porque seria possível acertar os ponteiros para permitir que a economia brasileira, num prazo de três a quatro anos, entrasse numa trajetória de crescimento bem mais sustentável do que ela tem hoje. Então, há um conflito entre a estabilidade a curto prazo e o potencial de crescimento a longo prazo, no sentido de que, ao garantir a estabilidade de curto prazo, garante-se um nível alto de preços para as commodities que o Brasil exporta. Isso é bom a curto prazo, mas, a longo prazo, mantém as condições que geram o processo de desindustrialização e que, portanto, fazem com que o potencial de crescimento da economia brasileira seja mais baixo a médio e longo prazo.

(Por Patricia Fachin)