E se Altamira fosse a capital do Pará? Entrevista especial com Aluízio Roberto Paiva dos Santos

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09 Dezembro 2011

O que se constatou ao longo da história do Pará foi uma situação de abandono promovido pelos governos, que sustentaram sua capital distante geograficamente do restante do estado", aponta o professor da Faculdade de Belém – FABEL.

Confira a entrevista.

Contrário à divisão do Pará, mas favorável a mudanças no estado, Aluízio Roberto Paiva dos Santos propõe outro enfoque para alavancar o desenvolvimento e diminuir as desigualdades entre os municípios da região: mudar a capital para o centro do estado. Se a capital do Pará fosse Altamira, argumenta, haveria mais integração e proximidade entre as cidades-polos, pois Altamira fica a "800 km de Belém, 700 km de Marabá, 600 km de Santarém e 700 km de Itaituba".

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Santos reitera que "com a mudança da capital as distâncias entre os principais municípios do interior serão encurtadas, esses municípios representam polos que ajudarão no escoamento do desenvolvimento educacional, sanitário, ambiental e social, uma vez que as suas riquezas estão sendo valorizadas, como os recursos naturais, hidrelétricos, agronegócio e investimento em infraestrutura de navegação. Com a mudança, finalmente concluir-se-ia a Transamazônica, importante rodovia de integração entre Altamira e Santarém e Altamira e o sul do estado; consequentemente nasceriam projetos de integração entre Altamira e Marabá, Altamira e Itaituba e Altamira e Belém, fazendo dessas cidades polos de ligação, integração e unificação por um Pará mais forte e desenvolvido".

De acordo com ele, esta é uma mudança necessária para "salvaguardar a cultura e a região e aliviar a cidade de Belém, que encontra-se saturada, com grande número de habitantes e pouco espaço e infraestrutura para acolhê-los, situação que contribui em larga escala para a marginalização dos menos favorecidos na  metrópole". Se o Pará for dividido, esclarece, irá perder aspectos culturais e regionais que fazem parte de sua história, além das características típicas de Rio-mar, que deram origem ao estado paraense. "Com a mudança, esse quadro é revertido, o governo tem que atender a uma demanda igualitária, representada pelos polos de integração, trazendo quem hoje está distante do olhar central, a uma visão de curto alcance e mais cidadã concretamente", conclui.

Aluízio Roberto Paiva dos Santos é mestre em filosofia da mente pela Universidade Federal de São Carlos e atualmente é professor de Filosofia e Ética na Faculdade Integrada Brasil Amazônia – Fibra e na Faculdade de Belém – Fabel.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor se posiciona diante da divisão do Pará?

Aluízio Roberto Paiva dos Santos – Tenho dois motivos para não querer que o Pará seja dividido. Primeiro é o aspecto cultural, e o segundo é o aspecto regional. O Pará forma um todo como cultura, ele possui história de quase 400 anos, tem uma cultura riquíssima, tem as suas características regionais, que são ribeirinhas. É um estado diferente de qualquer outro no Brasil. Ele possui grandes rios que encantam não apenas pelo potencial econômico, mas também pela sua beleza, e isso já o caracteriza como um estado exótico. A vida do seu povo é basicamente ribeirinha; ela deve ser pensada como o estender-se do tempo ao longo do seu Rio-mar, de todo navegável.

Sua região como um todo é uma porta de entrada à Amazônia, diferentemente seria se sua região fosse um contínuo de terras trafegáveis. A cultura do Pará foi surgindo ao longo dessas comunidades ribeirinhas, e isso não é menor, pois é a base da formação cultural. A questão regional se apresenta com suas características típicas ao redor desses grandes rios, não só de peixe e água-doce, mas de sua flora e fauna exuberante e diversificada. Isso se perderia com a divisão; perderíamos o elo que as une, o elo fundamental da alma introspectiva de um povo. Você já pensou passar horas e horas à beira de um barco sentindo os grandes rios? Os rios do Rio-mar? A origem da palavra pará decorre do termo pa'ra que significa rio-mar na língua indígena tupi-guarani. Os indígenas chamavam a região de Pará porque o braço direito do rio Amazonas, ao se juntar ao rio Tocantins, em solo paraense, se alarga de tal maneira que não se pode ver a outra margem, parecendo, assim, um mar, um rio-mar.

IHU On-Line – Apesar de ser contra, o senhor propõe uma mudança da capital para solucionar os problemas do estado como a saturação da metrópole. Em que consiste sua proposta?

Aluízio Roberto Paiva dos Santos – Toda mudança gera movimento e dinâmica. Minha proposta não é nova, mas é original. Não é nova porque alguns estados fizeram a mudança de sua capital, e em todos eles a ideia deu certo (Brasília para Brasil, Belo Horizonte para Minas, Goiânia para Goiás, etc.). A mudança que proponho é para salvaguardar a cultura e a região e para aliviar a cidade de Belém, que encontra-se saturada, com grande número de habitantes e pouco espaço e infraestrutura para acolhê-los, situação que contribui em larga escala para a marginalização dos menos favorecidos na metrópole. Mudança para integrar mais e mais o estado como um todo. Se a capital mudar para o centro, para Altamira, por exemplo, de forma efetiva, a nova capital vai integrar o estado; ela ficará aproximadamente equidistante de outras cidades-polos: 800 km de Belém, 700 km de Marabá, 600 km de Santarém e 700 km de Itaituba, integrando o estado de forma mais eficaz do que Belém foi em seus 400 anos como capital; e vai desenvolver: o Pará atualmente é um dos estados que mais recebe migrantes. Por quê? Porque chegou a hora de desenvolver a região Norte a partir do desenvolvimento mineral, agropecuário e hidroviário, já que 55% do Pará é protegido ambientalmente.

IHU On-Line – Quais são hoje os maiores problemas de infraestrutura do estado do Pará?

Aluízio Roberto Paiva dos Santos – Os maiores problemas de infraestrutura no Pará são, grosso modo, a precariedade na educação, na saúde e nos meios de transporte, uma vez que grande parte do investimento ao longo de séculos foi concentrado em Belém.

IHU On-Line – Como ocorre hoje a integração entre Belém e os demais municípios?

Aluízio Roberto Paiva dos Santos – Belém não se integra aos demais municípios por sua dificuldade geográfica. A verdadeira integração se fará com a mudança da capital, e, se não foi feito até então, é porque a localização geográfica é fundamental.

IHU On-Line – Com a mudança de capital como será possível integrar e desenvolver o Pará?

Aluízio Roberto Paiva dos Santos – Com a mudança da capital, as distâncias entre os principais municípios do interior serão encurtadas; esses municípios representam polos que ajudarão no escoamento do desenvolvimento educacional, sanitário, ambiental e social, uma vez que suas riquezas estão sendo valorizadas, como os recursos naturais, hidrelétricos, agronegócio e investimento em infraestrutura de navegação. Com a mudança, finalmente concluir-se-ia a Transamazônica, importante rodovia de integração entre Altamira e Santarém e Altamira e o sul do estado; consequentemente nasceriam projetos de integração entre Altamira e Marabá, Altamira e Itaituba e Altamira e Belém, fazendo dessas cidades polos de ligação, integração e unificação por um Pará mais forte e desenvolvido.

IHU On-Line – Por que, em sua opinião, a maioria das pessoas que aprovam a não divisão do Pará vivem em Belém? O que o senhor acha do discurso de que os que apoiam a não divisão querem um Pará grande?

Aluízio Roberto Paiva dos Santos – O paraense tem uma alma grande, que se vivenciou ou moldou ao longo dos seus 400 anos de Rio-mar. A maioria deseja a integração, deseja desenvolver o seu estado, pelo fato de que grande parte da população que vive hoje em Belém é do interior do estado, pessoas que desejam ver seu município natal desenvolvido, com o grande potencial que a maior parte das nossas cidades possuem, sendo cada uma importante peça deste quebra-cabeça que é o Pará. O discurso dos políticos honestos que apoiam a não divisão não é politiqueiro; é um discurso consciente das potencialidades de um Pará grande e forte, capaz de responder à federação em toda sua potencialidade, servindo através do uso consciente e sustentável de seus recursos naturais, culturais, históricos e etnográficos.

IHU On-Line – Qual a atual situação dos moradores que vivem distante da capital paraense?

Aluízio Roberto Paiva dos Santos – O que se constatou ao longo da história do Pará foi uma situação de abandono promovido pelos governos, que sustentaram sua capital distante geograficamente do restante do Estado. Com a mudança, esse quadro é revertido, o governo tem que atender a uma demanda igualitária, representada pelos polos de integração, trazendo quem hoje está distante do olhar central, a uma visão de curto alcance e mais cidadã concretamente.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Aluízio Roberto Paiva dos Santos – Com a mudança da capital, a bela cidade das mangueiras, bela de todas as épocas, tornar-se-ia possivelmente um patrimônio cultural da humanidade, se se fizerem os "retoques" necessários à Orla de Belém (Portal da Amazônia), ao setor comercial, à conservação do ver-o-peso, à preservação do Círio de Nazaré e a manutenção e ampliação da infraestrutura já programada por governos anteriores, uma vez que Belém não tem como crescer horizontalmente.

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