"A cultura gospel é o jeito de ser evangélico". Entrevista com Magali do Nascimento Cunha

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05 Setembro 2012

“Os grupos religiosos tradicionais têm muita dificuldade de acompanhar as transformações socioculturais”, aponta a pesquisadora.

Confira a entrevista.


“Boa parte dos evangélicos pentecostais e neopentecostais são grupos que elaboram propostas religiosas com uma estreita relação com as demandas e as formas de vida do tempo presente”. É com esta declaração que Magali Cunha, autora de A explosão gospel. Um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil, explica a crescente ascensão dos pentecostais no cenário religioso brasileiro, conforme demonstram os dados do Censo 2010, publicados recentemente.

De acordo com a pesquisadora, a sociedade contemporânea “experimenta um momento de busca espiritual, de busca do transcendente de forma cada vez mais intensa”, e os fiéis encontram “propostas teológicas e pastorais com estas bases” entre os pentecostais, que “se revelam bem sucedidos na captação de novos membros”.

Na entrevista seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Magali também comenta o aumento do número de fiéis “sem igreja determinada”, que engloba evangélicos que não especificam vinculação com as religiões, ou frequentam diferentes igrejas ao mesmo tempo, inclusive pequenas igrejas independentes, que atendem a públicos específicos. Essa segmentação de igrejas, esclarece, “é muito própria da dinâmica urbana, especialmente de metrópoles como São Paulo, coerente com a lógica mercadológica que rege a realidade sociocultural do tempo presente. Isto é, a busca de satisfação individual que torna possível, por meio da oferta, uma escolha do tipo de proposta religiosa que satisfaz a necessidade mais premente, seja ela de tipo de culto (moderno ou tradicional), de bênção material (cura, pedido de emprego, de sucesso no relacionamento amoroso) ou mesmo de socialização compreendida como ‘sadia’”.

Magali do Nascimento Cunha
é graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense. É mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Professora na Universidade Metodista de São Paulo, é autora de A explosão gospel. Um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil (Rio de Janeiro: Mauad, 2007).

IHU On-Line – De acordo com o censo, os pentecostais foram os que mais cresceram entre as diversas religiões. A que atribuiu a expansão evangélica, especialmente em São Paulo?

Magali do Nascimento Cunha
– É fato reconhecido por estudiosos das Ciências Sociais, e particularmente os das Ciências da Religião, que a sociedade contemporânea experimenta um momento de busca espiritual, de busca do transcendente de forma cada vez mais intensa (o que Peter Berger chamou de dessecularização). Se o Brasil já se caracteriza em sua história sociocultural como um país religioso, ou dado à religião, esta intensidade do espiritual percebida na contemporaneidade, por meio de formas religiosas ou não, tem expressão no país especialmente por meio de formas religiosas que trabalham a emoção e a experiência de sentir Deus, com alto valor às necessidades individuais nas mais diferentes dimensões (existenciais, relacionais, econômico-financeiras). Os evangélicos, e aqui estamos falando especificamente dos pentecostais (esses foram os que de fato cresceram e vêm crescendo intensamente desde 1980), oferecem propostas teológicas e pastorais com estas bases, e se revelam bem sucedidos na captação de novos membros. Se consideramos especificamente São Paulo, uma região tão grande, com ampla diversidade humana e de tantas demandas sociais que refletem na existência dos que aí habitam, temos aí um terreno fértil para tais propostas, assim com o são as outras grandes metrópoles brasileiras.

IHU On-Line – Quais são hoje as igrejas evangélicas mais frequentadas em São Paulo? Como compreender o aumento de fiéis pentecostais neste estado?

Magali do Nascimento Cunha
– Os números têm mostrado que a Grande São Paulo experimenta uma diversidade muito grande de propostas evangélicas. Esta realidade é semelhante à das outras capitais do Sudeste, grandes metrópoles, como o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O censo de 2010 chamou a atenção de pesquisadores e analistas das religiões quanto ao aumento significativo do número de evangélicos sem igreja (em São Paulo, mais de quatro vezes maior do que o registro de 2000) e o crescimento de 62% de pessoas que frequentam igrejas pequenas em São Paulo. Isso significa, em termos numéricos, 96% do crescimento dos evangélicos na capital paulista na última década, tornando os que não possuem igreja determinada o segundo grupo religioso em São Paulo (o segundo em números depois dos católicos).

A categoria “sem igreja determinada” é ampla e pode englobar evangélicos nominais que não especificam vinculação ou ainda aqueles que se declaram evangélicos, mas que frequentam diferentes igrejas. Também pode incluir aqueles que participam de pequenas igrejas independentes não listadas pelo censo. Nesse caso, vemos o fenômeno da segmentação (surgimento de igrejas voltadas para grupos específicos, como jovens, esportistas, roqueiros, grupos undergrounds, gays), que é muito próprio da dinâmica urbana, especialmente de metrópoles como São Paulo, coerente com a lógica mercadológica que rege a realidade sociocultural do tempo presente. Isto é, a busca de satisfação individual que torna possível, por meio da oferta, uma escolha do tipo de proposta religiosa que satisfaz a necessidade mais premente, seja ela de tipo de culto (moderno ou tradicional), de bênção material (cura, pedido de emprego, de sucesso no relacionamento amoroso) ou mesmo de socialização compreendida como “sadia”.

IHU On-Line – O que esta migração para igrejas evangélicas menores significa? O cenário evangélico está crescendo e se transformando internamente?

Magali do Nascimento Cunha
– Isso mesmo. Os novos movimentos dentro do campo evangélico se revelam adaptações religiosas à realidade do tempo presente, estreitamente identificada com uma autonomia forte dos sujeitos. Isso é o que leva a uma forte dimensão individualista da existência, com uma presença sociocultural e econômica fortíssima das mídias e das diversas tecnologias de comunicação, para eleger duas fortes características destes tempos. Isso leva a uma transformação no cenário evangélico que não vem de agora, mas que é dos anos 1980 com a ampliação do movimento chamado neopentecostal. Ele se consolida deixando claro que é um processo dinâmico, respondente às transformações sociais mais amplas e que merece muita atenção.

IHU On-Line – Que fatores explicam o declínio dos evangélicos de missão, e a ascensão dos evangélicos pentecostais e neopentecostais?

Magali do Nascimento Cunha
– Boa parte dos evangélicos pentecostais e neopentecostais são grupos que elaboram propostas religiosas com uma estreita relação com as demandas e as formas de vida do tempo presente, como já abordamos aqui. Isso se configura não só nas propostas segmentadas, mas também, por exemplo, em horários de culto flexíveis, pouca ou nenhuma demanda de vinculação formal à igreja ou de exigência moral como condição de adesão. Os evangélicos de missão sempre viveram a crise da incompatibilidade da proposta teológica e pastoral que eles trouxeram com as culturas, com o jeito de ser brasileiro: entendem as atividades da igreja como “trabalho” em detrimento da dimensão mais celebrativa e socializante que existe entre eles, mas que não é tão enfatizada; promovem extensa programação semanal e dominical com cobrança à participação dos membros; e impõem restrições morais aos seus membros que passam pelo prazer do corpo (beber, fumar, dançar, participar de festas tidas como “mundanas”, como o Carnaval).

Com o surgimento das igrejas pentecostais não tradicionais e das igrejas segmentadas, esta crise se intensificou e esses grupos passaram a perder membros. Para não continuar a perder, passaram a produzir adaptações, em especial no formato dos cultos e na proposta teológica, aproximando-se mais dos novos grupos, incentivados pelos chamados movimentos carismáticos nascidos em seu interior, mas isso se tem comprovado ineficaz e tem causado graves crises de identidade, pois os evangélicos possuem raízes doutrinárias históricas que ficam relativizadas, o que gera sérias divisões internas.

IHU On-Line – Apesar do crescimento do número de evangélicos, percebe-se o declínio de 10% na Igreja Universal do Reino de Deus – IURD. Qual a especificidade dessa igreja e as razões de tal queda no número de fiéis?

Magali do Nascimento Cunha
– Carecemos de mais estudos e análises dos cientistas da religião sobre isso. Mas é possível adiantar uma perspectiva de abordagem que é o fato de a IURD parecer estar sofrendo os efeitos de sua característica empresarial, tal como abordado na clássica obra de Leonildo Silveira CamposTeatro, templo e mercado”, isto é, está sofrendo com a concorrência. Primeiro, ela optou por uma mudança no público-alvo, deixando de enfatizar propostas para a população mais sofrida (classes D e E), carente das bênçãos da cura e da melhoria financeira, para se voltar para a classe C emergente e sua busca de prosperidade e estabilidade. Encontrou mais concorrência, pois já existiam outros grupos de ênfase pentecostal atuando com a classe C, com discurso teológico semelhante. Com isso permitiu a ocupação do espaço de atuação com as classes D e E pela Igreja Mundial do Poder de Deus, que ganhou 315 mil seguidores na última década e apareceu pela primeira vez na lista de igrejas do censo. Vale lembrar que o fundador dessa igreja, Valdemiro Santiago, é discípulo de Edir Macedo, tendo deixado a IURD no início de 1990 e oferece proposta bastante semelhante àquela das origens da IURD.

IHU On-Line – É possível estabelecer alguma relação entre o crescimento evangélico e o declínio das religiões tradicionais, como catolicismo e protestantismo?

Magali do Nascimento Cunha
– Acredito que sim. Os grupos religiosos tradicionais têm muita dificuldade de acompanhar as transformações socioculturais. No caso do catolicismo, foi no Concílio Vaticano II, momento denominado aggiornamento pelo Papa João XXIII, que a Igreja deu indícios de abertura e transformação, mas de lá para cá, não só não vimos mais avanços como também nos deparamos com retrocessos, silenciamentos e expurgos. Mais recentemente temos assistido no catolicismo a um fenômeno semelhante àquele já mencionado dos evangélicos históricos: a busca de adaptação a modelos pentecostais para alcançar crescimento, com inspiração do movimento carismático interno. Daí os padres e freiras cantores, os movimentos de renovação e práticas de pentecostalização expressos num catolicismo bastante tradicional.

No campo protestante, vemos que as igrejas que mais crescem buscando manter as bases teológico-doutrinárias do protestantismo em uma relação estreita com a realidade sociocultural estão na África e na Ásia. No Brasil, como mencionei anteriormente, essas igrejas sempre tiveram dificuldade em estreitar laços com a sociedade e as expressões culturais diversas, e quando alguns grupos tentaram, desafiados pelos avanços do movimento ecumênico na virada para a segunda metade do século XX, houve retrocessos, silenciamentos e expurgos, assimilando-se o espírito da ditadura que o país passou a viver, inaugurando o que José Bittencourt Filho denominou “idade das trevas do protestantismo brasileiro”, que tem efeitos na vida das igrejas até hoje. Isso tudo, somado às tentativas de adaptação a um modelo pentecostal para sobrevivência e crescimento numérico, que leva à adoção de práticas religiosas das mais distintas, entendidas como “estratégias pastorais”, como também mencionei acima, torna a situação dos protestantes de missão no Brasil muito delicada. Esse fenômeno se reflete nos números do censo na forma de estagnação ou mesmo redução.

O que temos assistido é a crise intensa das igrejas tradicionais que buscam saídas para ela na forma de estratégias de automanutenção e sobrevivência, que não têm resultado nos números que elas esperavam.

IHU On-Line – De que maneira a cultura gospel ajuda a compreender o cenário evangélico contemporâneo?

Magali do Nascimento Cunha
– A cultura gospel é o jeito de ser evangélico que nasce da adaptação dos novos movimentos à modernidade e da busca de sobrevivência dos protestantes históricos. Ela é caracterizada pelo desenvolvimento de uma religiosidade midiática (com a intensa aquisição de espaços nas mídias, em especial a radiofônica e a televisiva, e, nos últimos dez anos, a ocupação de espaços no universo cibernético), pela identificação dos evangélicos como um segmento de mercado e pela ampliação do mercado da música e seus derivativos do entretenimento. A cultura gospel, o novo modo de ser evangélico, significava, na passagem do século XX para o XXI o alcance da modernidade pelos evangélicos; modernidade expressa nos cultos e em toda a eletrônica que se torna obrigatória a qualquer comunidade de fé, no comportamento dos fiéis, que agora se divertem com a própria religião, em especial por meio de shows e baladas gospel e de megaeventos que marcam visibilidade do segmento nas grandes cidades (como a Marcha pra Jesus, capitaneada, há 20 anos, pela Igreja Renascer em Cristo), e no surgimento das tribos e grupos alternativos, que forma suas próprias igrejas, como roqueiros, punks, surfistas, undergrounds e gay, o que já abordamos acima também.

Esse jeito moderno na forma de ser religioso trouxe ainda mais visibilidade para os evangélicos por meio das conversões de celebridades (artistas midiáticos, políticos e afins), que passam a se apresentar como fiéis deste segmento religioso. A cultura gospel é um fenômeno em curso, que torna a presença evangélica na esfera pública mais intensa, ainda mais recentemente, por meio da ocupação cada vez maior de espaço nas mídias não religiosas, em especial pelo aquecimento do mercado fonográfico evangélico, também fortalecido pela abertura de gravadoras não religiosas ao gênero gospel. A divulgação de eventos evangélicos no noticiário sobre religião nos tele e radiojornais e nas mídias impressas, divulgação antes inexistente, torna-se hoje prática comum.

IHU On-Line – Recentemente a senhora mencionou que a presença dos evangélicos na
política não é uma ameaça, fazendo parte do processo democrático. Quais as implicações da relação entre religião e política no processo político? Como vê a expressão da bancada religiosa no Congresso e na votação de temas polêmicos como aborto?

Magali do Nascimento Cunha
– A maior presença no campo político é parte deste contexto de transformação dos evangélicos que vem dos anos 1980. Desde o Congresso Constituinte de 1986 e a formação da primeira Bancada Evangélica e seus desdobramentos, a máxima “crente não se mete em política” foi sepultada. A máxima passou a ser “irmão vota em irmão”. A atuação daquela primeira bancada no Congresso Constituinte 1986-1989 foi marcada pelo fisiologismo e a histórica farta distribuição de estações de rádio e canais de TV aos deputados evangélicos (com estreita relação com a ampliação da presença de evangélicos nas mídias no período), o que levou à criação, em 1990, do Movimento Evangélico Progressista, em oposição. Nesse contexto a presença pentecostal foi determinante bem como a construção de projetos políticos da parte de igrejas como a Universal do Reino de Deus e a Assembleia de Deus, que passaram a ser detentoras do maior número de congressistas evangélicos, o que resultou em mais ampliação do controle de mídias concedidas pelo governo. Depois de altos e baixos em termos numéricos, decorrentes de casos de corrupção e fisiologismo, a bancada evangélica se consolidou como força no Congresso Nacional, o que resultou na criação da Frente Parlamentar Evangélica – FPE em 2004, ampliada nas eleições de 2010 para 73 congressistas, de 17 igrejas diferentes, 13 delas pentecostais. Os parlamentares evangélicos não são identificados como conservadores do ponto de vista sociopolítico e econômico, como o é a Maioria Moral nos Estados Unidos, por exemplo. Seus projetos raramente interferem na ordem social e se revertem em “praças da Bíblia”, criação de feriados para concorrer com os católicos, benefícios para templos. Basta conferir os partidos aos quais a maioria dos políticos evangélicos está afiliada e os recorrentes casos de fisiologismo. Mais recentemente é o forte tradicionalismo moral que tem marcado a atuação da FPE, que trouxe para si o mandato da defesa da família e da moral cristã contra a plataforma dos movimentos feministas e homossexuais, valendo-se de alianças até mesmo com parlamentares católicos tradicionalistas, diálogo impensável no campo eclesiástico.

Presença evangélica na política

Portanto, essa presença dos evangélicos na política se configura cada vez mais como resposta às demandas colocadas por essa contemporaneidade, em frequente transformação, nos campos econômico, político, sociocultural, tanto no contexto local como no global. Por mais que o racionalismo e o positivismo insistam em fazer valer as suas formas de dar respostas como aquelas que devem ser levadas em conta numa prática democrática coerente, não é mais possível ignorar o lugar das subjetividades e de práticas coletivas delas decorrentes, como as religiões, na construção de novas formas de reação às demandas tão diversas e plurais. Desse modo, a presença da religião cristã da vertente evangélica na política não deve ser vista como ameaça, mas como fator que é revelador do próprio avanço da democracia. A possibilidade do debate e de expressão das diferentes vozes é que precisa ser garantida neste contexto democrático e é aqui que o lugar das mídias se reveste de importância. Nesse caso, superando o tratamento dos evangélicos como um grupo homogêneo, rechaçando tendências unificantes de um segmento mais do que plural, mas tornando nítidas e públicas as diferentes posturas e projetos deste segmento no campo político.

IHU On-Line – De alguma maneira a ascensão dos evangélicos pode refletir no cenário político nas próximas eleições?

Magali do Nascimento Cunha
– A realidade sociopolítica e cultural não é moldada por matemática, e por isso temos que levar em conta muitos fatores. Como já escrevi em outra oportunidade, há, sim, o clericalismo que marca a realidade das igrejas evangélicas e que leva ao fato de que muitos evangélicos votam em certos candidatos em pleitos eleitorais porque “o pastor mandou”. Isso é realidade. Pastores são formadores de opinião na cultura evangélica e assumem este papel, boa parte das vezes, não para orientar, mas para “ditar” comportamentos a partir dos seus valores, com base na lógica “ouvir o pastor é ouvir a voz de Deus”. Aqui o universo pentecostal manifesta-se mais intensamente, mas há ocorrência também entre religiosos de igrejas históricas. Nas igrejas históricas em processo de pentecostalização, em busca de crescimento numérico, isso tem sido recorrente, ainda mais em tempos de força dos chamados movimentos celulares, em que a relação líder/discípulo é baseada no clericalismo e em autoritarismo.

No entanto, há muita diversidade neste segmento religioso. Como mostram os números do Censo 2010, o número de evangélicos sem vinculação religiosa é muito expressivo com um significativo demonstrativo de trânsito entre grupos evangélicos (aqueles fiéis que mudam frequentemente de vinculação religiosa). Nesse sentido, lealdades políticas ficam relativizadas bem como o próprio clericalismo em nome da subjetividade que se manifesta na prática da religião, com adeptos buscando cada vez mais autonomia. Portanto, o voto evangélico não é resultado de uma obediência automática a líderes religiosos. Reafirmando o que já escrevi, por mais que o pastor diga em quem se deve votar, em geral o critério religioso não determina o voto, mas sim o cotidiano. Esse foi o caso da eleição de Dilma Rousseff, em 2010, com expressiva votação nas 700 cidades brasileiras com maior proporção de evangélicos, relativizando a teoria de que a candidata não venceu no primeiro turno porque perdeu parte dos votos religiosos devido a suas posições sobre o aborto. Nessas cidades, Dilma teve 53% dos votos; em 63% delas, ela igualou ou superou sua média nacional de 47%; e em 71% delas, ela derrotou seus adversários contra média nacional de cerca de 70%. Como o Censo 2010 revela que os evangélicos pentecostais são o grupo de maior proporção de pessoas que têm renda mensal domiciliar de até um salário mínimo (64%), os programas sociais do governo federal parecem ter tido um peso muito maior na decisão dos fiéis do que temas da moralidade evangélica. Não é possível absolutizar: critério religioso não determina votos. Portanto, temos que acompanhar todos os movimentos deste “tabuleiro de xadrez”.

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