Música, consumo, entretenimento. O fenômeno gospel. Entrevista especial com Magali do Nascimento Cunha

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30 Setembro 2007

O mais recente livro da jornalista Magali do Nascimento Cunha, A explosão gospel – Um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil (Rio de Janeiro: Editora Mauad, 2007), fala sobre o fenômeno gospel que transformou os jeitos de ser dos evangélicos e católicos no Brasil. Magali, interessada no tema, foi a campo pesquisar o fato sob um viés comunicacional, cultural, teológico e religioso, relacionando-o ao crescimento das Igrejas Evangélicas e buscando o lugar que a mídia e a cultura religiosa ocupam no mercado da formação desse fenômeno. “A mídia e o mercado evangélicos estão cada vez mais consolidados como mediadores do sagrado. Nesse caso, o consumo não é apenas uma ação que responde à lógica do mercado, mas é elemento produtor de valores e sentidos religiosos”, diz Magali, em entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail.

Magali do Nascimento Cunha é graduada em Comunicação, pela Universidade Federal Fluminense. Também possui mestrado em Memória Social na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e doutorado em Comunicação, pela USP. Atualmente, é professora da Universidade Metodista de São Paulo.

Eis a entrevista.

IHU On-Line - Para senhora, o que favoreceu, no Brasil, para essa expansão da Igreja Evangélica?

Magali do Nascimento Cunha - A expansão das Igrejas Evangélicas no Brasil é observada a partir do final dos anos 1980. Vários estudiosos do fenômeno indicam que esse processo foi, então, favorecido pela conjuntura de crise das utopias, com a derrocada do regime socialista (até então defendido teologicamente pela chamada pastoral popular como a opção mais justa), os efeitos da década perdida (1980), com o avanço da pobreza e dos processos de exclusão social, e o oferecimento de alívio para as agruras da vida por parte dos pentecostalismos com as práticas de cura e exorcismo e a pregação  da prosperidade financeira como fruto de desenvolvimento espiritual. O Brasil passa a experimentar uma intensa pluralidade religiosa, que se torna cada vez mais visível pela presença dos vários grupos nas mídias.

IHU On-Line - Como a tecnologia influenciou, em sua opinião, esse avanço?

Magali do Nascimento Cunha - As novas tecnologias de informação e comunicação, concretizadas nas TVs segmentadas e na Internet, aliadas ao reforço de uma presença evangélica no rádio, foram fundamentais para tornar visível o avanço da presença evangélica no Brasil, tanto como promotoras das propostas religiosas deste segmento religioso como afirmadoras da identidade e da auto-estima de um grupo inferiorizado, há até até pouco tempo, pela hegemonia católico-romana. Além de proporcionar “acesso direto a Deus”, a indústria cultural religiosa coloca os evangélicos mais próximos do que há de mais moderno no campo da mídia. CDs e Dvds de qualidade, programações de rádio e TV que seguem o modelo secular, espetáculos com produção de alta tecnologia, são alguns dos aspectos que buscam mostrar às igrejas e à sociedade em geral que é possível ser religioso e ser moderno e sintonizado com os recursos disponíveis no mundo contemporâneo.

IHU On-Line - Que lugar a mídia e o mercado evangélicos ocupam no imaginário e na vida do brasileiro hoje?

Magali do Nascimento Cunha - A mídia e o mercado evangélicos estão cada vez mais consolidados como mediadores do sagrado. Nesse caso, o consumo não é apenas uma ação que responde à lógica do mercado, mas é elemento produtor de valores e sentidos religiosos. O fato de os cristãos terem se tornado um segmento de mercado já pode ser identificado na programação da mídia religiosa eletrônica, o que muda a relação dos produtores religiosos com os meios.

Ao comprar o CD, ao ouvir a parada de sucessos de uma rádio cristã, ao participar do espetáculo de determinado artista gospel, o público cristão está inserido, sim, na lógica e na cultura do consumo. Entretanto, a esse consumo é atribuído sentido emocional, religioso. Ouvir os artistas que são “instrumentos de Deus”, veículos de sua mensagem, ouvir os “ministros de louvor e adoração” que são “levitas separados por Deus” para adorá-lo e guerrear contra as forças do mal (inseridas na própria música profana) e apoiar o que eles fazem é o mesmo que ouvir e apoiar a Deus.

IHU On-Line - O que é a cultura gospel para as ciências humanas?

Magali do Nascimento Cunha - É uma cultura religiosa, um modo de vida construído por um segmento cristão brasileiro - os evangélicos. Portanto, ela é um modo de viver e experimentar a fé no sagrado dentro do qual há um sistema de significações que resulta de todas as formas de atividade social desse segmento religioso. Este emerge da vivência dos evangélicos entre si e com outros grupos sociais, em outras esferas sociais que não a religiosa.  A cultura gospel tornou-se mediação da experiência religiosa evangélica no Brasil, mas é, ao mesmo tempo, mediada por elementos que operam na construção deste modo de vida - a tradição protestante, o sistema sociopolítico e econômico do capitalismo globalizado, os sistemas eclesiásticos e os meios de comunicação são os principais -, presentes nas formas de atividade social dos evangélicos.

Essa expressão cultural é formada por uma tríade: música, consumo e entretenimento. A tríade é resultado de um processo de ampla aceitação do público evangélico e parcela de uma estratégia de ampliação de mercado fonográfico (religioso e secular), que coloca em evidência os artistas e os ministérios de louvor e adoração, mas também um símbolo sagrado, um bem religioso.

IHU On-Line - Retomando a pergunta que a senhora faz no livro, gostaríamos de saber o que há realmente de novidade nessa explosão gospel e que mudou a forma de ser evangélico no Brasil?

Magali do Nascimento Cunha - A novidade reside na tríade já mencionada aqui: o valor privilegiado à música como instrumento de revelação e aproximação com o sagrado, o consumo como elemento produtor de valores e sentimentos religiosos e o entretenimento como bem religioso. Estes aspectos são realmente elementos novos na religiosidade evangélica no Brasil, embasados em formas teológicas adaptadas às ideologias do capitalismo globalizado e das novas formas de imperialismo, como as idéias de “guerra justa”. No entanto, minha pesquisa identificou que essas novidades não representam elementos de transformação da prática evangélica, ou da presença pública dos evangélicos no País. Revela-se uma cultura de manutenção e não algo de fato novo, transformador, desafiador das demandas sociopolítico-econômico-culturais do tempo presente e que realiza um encontro com as outras expressões culturais globais. O gospel é resultado das transformações no modo de ser evangélico no Brasil experimentadas nas últimas décadas entrecruzadas com a busca de preservação dos traços que deram forma ao jeito de ser construído em suas origens no Brasil. Daí a noção de hibridismo com o qual a pesquisa também trabalha.

IHU On-Line - Essa explosão gospel mudou a forma como o povo brasileiro vê os fiéis da Igreja Evangélica?

Magali do Nascimento Cunha - Sim, principalmente no aspecto da pluralidade. A população brasileira hoje se dá mais conta de que há uma pluralidade religiosa que merece ser considerada e valorizada. As Igrejas Evangélicas hoje estão mais visíveis - a mídia e a indústria do entretenimento religioso são responsáveis por isso -, ainda que a mídia chamada secular continue ignorando isto e insista em preservar o catolicismo romano como A religião popular (o noticiário da recente visita do Papa Bento XVI ao Brasil torna nítida esta afirmação) e negativizar a figura dos evangélicos associando-os a práticas corruptas (o caso da Igreja Renascer em Cristo). Mas isto já seria uma outra pesquisa.

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