Praças e protestos: as emoções globais do Oriente e do Ocidente

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • “Não seremos salvos pelo moralismo, mas pela caridade”. Artigo do Papa Francisco

    LER MAIS
  • A contagem regressiva para a próxima pandemia

    LER MAIS
  • Carta de alerta a todas as autoridades políticas e sanitárias brasileiras sobre a Covid-19

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


08 Junho 2012

Jeffrey C. Alexander, sociólogo norte-americano, analisa os novos movimentos sociais, do Egito aos Estados Unidos. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 06-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Gostaria de analisar a recente convergência de significado entre "Oriente" e "Ocidente", conectando estreitamente entre si três acontecimentos sociais que abalaram as rotinas mundiais e alimentaram o imaginário coletivo global: a campanha de Obama para as eleições presidenciais, a revolução egípcia e o movimento Occupy Wall Street.

Esses movimentos devem ser interpretados não só politicamente, como lutas pelo poder, mas também como agitações simbólicas.

Manifestando-se como verdadeiras erupções de possibilidades utópicas, fundamentadas em um componente emocional, esses eventos projetaram esperanças em dezenas de milhões de espectadores que, identificando-se, assistiram de fora. Assim, a repetição de uma performance utópica, nas últimas décadas, tornou-se uma espécie de arco narrativo além de uma estrutura cultural fortemente enraizada na sociedade civil global.

O ideal utópico de uma comunidade solidária feita de cidadãos autônomos e, ao mesmo tempo, mutuamente responsáveis constituiu o fulcro da modernidade ocidental desde a época das Cidades-Estado do Renascimento. Com as revoluções dos séculos XVII e XVIII na Inglaterra, nos Estados Unidos e na França, o imaginário civil se cristalizou em revoluções democráticas que fizeram das comunidades de cidadãos constitucionalmente reguladas e autogovernadas os novos atores reguladores dos respectivos Estados de pertença.

Com o nascimento do capitalismo industrial em meados do século XIX, os programas para a democracia política foram gradualmente substituídos pela "questão social", focada nas disparidades de classe e que impulsionava mais para o socialismo do que para a democracia. Os esforços voltados para conter os danos do capitalismo industrial e do imperialismo impuseram a criação de imponentes burocracias estatais. E, na onda desses novos e prementes interesses, o imperativo da sociedade civil foi muitas vezes posto à parte.

Em 1981, para a grande surpresa dos intelectuais liberais, radicais e conservadores, o movimento Solidariedade apareceu na Polônia. Foi reprimido no ano seguinte, mas os dez anos que se seguiram mantiveram o seu ideal de sociedade civil democrática como objetivo radical e fonte de inspiração revolucionária.

Essa primeira fase de movimentos pela sociedade civil global culminou em 1989, quando as ditaduras comunistas caíram um após a outra diante das revoluções de veludo não violentas.

Nos últimos tempos, essa parábola narrativa se projetou mais uma vez. Tudo começou com a efervescência tanto nos EUA quanto no exterior da campanha de Obama para as eleições presidenciais de 2008, passando pelo Norte da África e pelo Oriente Médio durante a primavera e o verão de 2011, para depois ocupar Wall Street no outono desse mesmo ano.

A ascensão de Obama encorajou dezenas de milhões de norte-americanos a crer e a esperar nas possibilidades unificadoras, igualitárias e libertadoras da esfera civil. A empolgação nos comícios de Obama era o sinal de "rituais civis carregados de efervescência democrática". A pessoa Obama tornou-se um símbolo icônico que irradiava uma aura de mudança radical. A sua triunfal afirmação indicava a prevalência da inclusão sobre a exclusão, da solidariedade sobre a fragmentação, a vitória da justiça democrática sobre a cínica resignação aos abusos de poder.

As dificuldades que Obama encontrou depois da sua posse não devem surpreender. As esperanças utópicas que a sua campanha eleitoral encarnou e alimentou nunca poderiam ser satisfeitas pela máquina do governo efetivo. E o próprio Obama parece ter se tornado uma vítima disso.

A pouca distância desde que os republicanos devolveram a Obama a sua cabeça sobre uma bandeja – em novembro de 2010, por ocasião das eleições para o Congresso –, a parábola incessante do movimento social civil se estendeu para o Norte da África e para o Oriente Médio. Como no caso da ascensão de Obama, a Primavera Árabe também foi um evento absolutamente inesperado. Foi percebida como uma erupção vulcânica de aspirações quase imprudente, e poucos acreditavam que ela teria uma sequência. Apesar disso, a Revolução dos Jasmins na Tunísia desencadeou toda uma série de mobilizações, e a lava que dela brotou se estendeu para o Egito, Líbia, Iêmen, Jordânia, Marrocos, Bahrein e Síria. Com efeito, no mundo árabe, verificou-se uma revolução intelectual, uma evolução político-cultural interna que, contrapondo-se ao ocidentalismo, ao socialismo e ao islamismo violento, tentou desposar os princípios de uma democracia liberal, senão até secular.

E foi no Egito, na Praça Tahrir, que ela atingiu simbolicamente o seu ápice. Independentemente dos resultados, como no caso do movimento Obama e Solidariedade antes, os eventos da Praça Tahrir projetaram um novo significado aos olhos da opinião pública, muito além das fronteiras do Egito. "As pessoas querem o fim do regime", "As pessoas querem o estado de direito": os slogans da Praça Tahrir ressoaram não só em todo o Oriente Médio e no Norte da África, mas também na Europa e na América.

Depois de se ver um governo ocidental após o outro abraçando as urgências restritivas da austeridade fiscal, estouraram mobilizações em massa em Madri, Londres, Tel Aviv, Madison. Eram as revoltas das sociedades civis contra a sociedade do mercado e das finanças. Entre todos esses manifestantes, eram frequentes as referências explícitas ao modelo "Tahrir".

O movimento "Occupy Wall Street" foi surpreendente e inesperado. A desordenada reunião de poucas centenas de manifestantes no Zuccotti Park, inicialmente objeto de deboche, logo acabou se tornando um evento social catalisador. O Zuccotti Park não mudou a política, não levou à eleição de novos representantes ou a uma diminuição da taxa de desemprego. O que ele fez, ao contrário, foi dar origem a uma forma de poder civil radicalmente mais crítica e enérgica. Em mais de 150 cidades houve réplicas do Occupy: Occupy Oakland, Occupy Los Angeles, Occupy Chicago, e até Occupy New Haven e Yale. Para prestar apoio e material ao protesto, foi até constituída uma coalizão de 70 organizações liberais, o Movimento do Sonho Americano. E, mais uma vez, a parábola do movimento civil utópico ultrapassou as fronteiras dos EUA.

Em outubro, o New York Times escreveu que, "na Europa, Ásia e nas Américas, estão em curso manifestações de imitação do Occupy Wall Street, que contam com centenas de milhares de participantes". É por mérito dessa parábola da emancipação civil que agora uma nova era parece ter começado.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Praças e protestos: as emoções globais do Oriente e do Ocidente - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV