Traditionis Custodes: Vetus ordo x Novus Ordo?

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27 Julho 2021

 

"Francisco revoga todas as normas, instruções, concessões e costumes que não estão em conformidade com o presente documento. Acaba com a farra da usurpação litúrgica, defende a Reforma e o Concílio e recorda que, se houve uma Reforma, passou da hora de colocá-la em prática verdadeiramente e não deixá-la nos livros como um passado a ser esquecido", escreve Guto Godoy, especializando em Arquitetura e Arte para a Liturgia no Pontifício Instituto LitúrgicoPontifício Ateneo Sant’Anselmo e bacharelando em Teologia pela Faculdade João Paulo II FAJOPA. Artista sacro, dedica-se a adequação de espaços celebrativos e a criação de projetos iconográficos.

 

Eis o artigo.

 

Com a publicação do Motu Proprio “Traditionis Custodes” neste 16 de julho de 2021, o Sumo Pontífice mais uma vez reafirmou o caminho que seu Ministério tem trilhado desde sua eleição: retomar o Concílio com tudo que implica tal atitude.

Francisco jogou um balde de água fria nos saudosistas de Trento e negacionistas do Concílio, aqueles que tentam refutar as definições conciliares com discursos e ações que geram feridas e lacerações no corpo eclesial. Mais uma vez o Papa deixou claro que em matéria litúrgica vale a palavra dos documentos conciliares!

Aqueles que, referindo-se ao Vetus Ordo, falam em “Missa de sempre” e parecem esquecer-se que a liturgia não começou com o Concílio de Trento, mas que já passou por grandes reformas como a de Gregório Magno no século VI e até mesmo sofreu interferência de Carlos Magno, no século IX com intenção de unificar o império, devem preocupar-se pois seus guetos de pureza católica podem estar em risco com um Pontífice que deseja expurgar da Igreja toda marca de exclusivismo e negacionismo conciliar.

Existem certos pontos que precisamos aprofundar quanto a esse grande e necessário passo que o Pp. Francisco realizou ao publicar o presente motu proprio. Em primeiro lugar, o título “Traditionis custodes” (Custódias da Tradição), deseja lembrar que os bispos são os que custodiam a Tradição do catolicismo e que, como é a marca do pontificado atual, a colegialidade é o elemento invocado pelo presente documento. Ao falar de Tradição logo no início do Motu Proprio, Francisco quer deixar claro, de uma vez por todas, que o Concílio, a Reforma Litúrgica e o movimento que a gerou não são criados “ex nihilo”, mas são resultado de uma natural evolução que a Tradição sempre viveu e viverá. O Pontífice já havia dito no encerramento do Sínodo da Amazônia, em outubro de 2019, que “alguns acham que a Tradição é um museu de coisas antigas” mas que ele compreende, citando Mahler, “que a Tradição é a salvaguarda do futuro e não a custódia das cinzas”. Com a presente carta apostólica, Francisco coloca em prática essa compreensão, desapegando dos penduricalhos que os séculos foram colocando sobre a forma litúrgica para chegar à seiva da tradição: a memória atualizadora do mistério de Cristo, a santificação do homem e o louvor a Deus.

Sem contradizer seus antecessores, Francisco crava uma estaca de prata no coração daqueles que atacam o Concílio e a Reforma Litúrgica proveniente deste, ao dizer que “os livros litúrgicos promulgados pelos Santos Pontífices Paulo VI e João Paulo II, em conformidade com os decretos do Concílio Vaticano II, são a ÚNICA expressão da lex orandi do Rito Romano”. Sua Santidade entrega aos bispos o dever de autorizar ou não o uso do Vetus Ordo em suas dioceses, sempre cuidando que nas dioceses em que existem grupos que celebram tal rito, jamais excluam a validade ou legitimidade do Novus Ordo. Que indiquem lugares para tais celebrações mas não nas igrejas paroquiais e sem erigir novas paróquias pessoais, que as leituras sejam proclamadas em vernáculo e que indiquem um sacerdote como delegado episcopal para acompanhar tais grupos, sendo este sacerdote idôneo, possua conhecimento tanto do rito antigo quanto do latim e tenha um senso de comunhão eclesial.

Com todas essas novas normas, Francisco deseja derrubar de uma vez por todas a crescente onda de grupos que menosprezam o Novo Rito da Missa e criam verdadeiros guetos eclesiais como se fossem os únicos guardiões da Sagrada Tradição e mais católicos por não celebrarem segundo o Missal de Paulo VI. O Pontífice insiste ainda que não se criem novos grupos, talvez exatamente para evitar que, no futuro, se mantenha viva tal cisão eclesial. É inegável que diante de tal insistência, o Papa mostra-se preocupado com a manipulação ideológica que certos grupos realizam do antigo rito, tendo este se tornado mais um elemento de aglutinação de princípios ideológicos resistentes as reformas realizadas pelo Concílio do que uma preocupação com a cura das almas. Basta uma rápida pesquisa nas redes para constatar que tais grupos quando não se opõem ao Concílio de maneira geral, negam sua eclesiologia, se unem por ideais políticos comuns e transformam a celebração da Eucaristia em um bastião de suas ideias reacionárias.

Também ao definir que os presbíteros ordenados após a publicação do Motu Proprio devem solicitar autorização do bispo diocesano para celebrar segundo o Missal de 1962 e este, por sua vez, deve consultar a Sé Apostólica antes de dar a autorização, demonstra que o uso do Vetus Ordo não é mais um self- service do qual faz-se uso indiscriminadamente e segundo a vontade de cada ministro, mas que o uso de tal rito deve mostrar-se necessário para aquela localidade, evitando os abusos e chamando os neo-presbiteros a recordarem que houve um Concílio e uma Reforma Litúrgica.

Por fim, Francisco revoga todas as normas, instruções, concessões e costumes que não estão em conformidade com o presente documento. Acaba com a farra da usurpação litúrgica, defende a Reforma e o Concílio e recorda que, se houve uma Reforma, passou da hora de colocá-la em prática verdadeiramente e não deixá-la nos livros como um passado a ser esquecido.

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