“Há uma reterritorialização da imaginação econômica”. Entrevista com Quinn Slobodian

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16 Março 2021

Quinn Slobodian (Canadá, 1978) é historiador especializado em Alemanha moderna e história internacional, e professor associado do Wellesley College (Massachusetts). Recentemente, a editora [espanhola] Capitán Swing publicou seu livro Globalistas: el fin de los imperios y el nacimiento del neoliberalismo, no qual percorre a história intelectual do neoliberalismo, das suas origens na Áustria do período entreguerras à criação da Organização Mundial do Comércio.

Para Slobodian, o neoliberalismo não se reduz ao fundamentalismo de mercado, mas defende uma relação precisa entre o estado e o mercado, em que os estados se organizam internacionalmente para assegurar a primazia do princípio de propriedade privada. O neoliberalismo também não é economicista, ao contrário, coloca o foco nas leis e nas instituições.

A entrevista é de Miguel Carrión, publicada por El Diario, 13-03-2021. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Em suas próprias palavras, o que o livro aborda?

Quando começou a Crise Financeira Global, pensou-se que veríamos um novo paradigma de governança econômica global, talvez em torno de um keynesianismo renovado. Rapidamente, ficou claro que voltaríamos ao modelo dos anos 1990, quando os estados estavam projetados principalmente para facilitar o funcionamento dos atores privados do mercado.

Pareceu-me que valeria a pena escrever uma pré-história intelectual mais longa de como chegamos a esse momento. Em minha pesquisa preliminar, descobri que foi realmente após a Primeira Guerra Mundial que as pessoas começaram a falar da economia mundial como uma unidade interconectada. E, durante aos menos 100 anos, as pessoas buscaram redesenhar a relação entre os estados e os mercados, de maneira que os estados não interferissem na distribuição dos recursos e do valor sobre os quais os mercados eram responsáveis.

E parecia que, ao menos do final da Guerra Fria até a década de 2010, houve uns 30 anos em que, mais ou menos, todos concordaram que a forma de resolver este problema era chegar a acordos multilaterais, nos quais os governos cediam parte de sua soberania para organizações baseadas em tratados, seja a União Europeia, o Tratado de Livre Comércio da América do Norte ou a Organização Mundial do Comércio.

Contudo, aconteceu algo curioso quando estava terminando o livro: Donald Trump foi eleito e o Brexit saiu vitorioso na Grã-Bretanha. Então, me deparei com algo que não esperava, pois pensava que estava escrevendo uma história do presente e aconteceu que acabava de terminar uma história do passado recente. O livro é uma genealogia dessa era que pensávamos que duraria muito mais e que parece ter chegado a um final prematuro.

Agora que aconteceu o Brexit e que Joe Biden foi eleito, considera que isto foi um parêntese ou que esta renacionalização da política continuará?

Acredito que a ruptura não foi temporária. Grande parte da história da globalização neoliberal, especialmente dos anos 1960 ao ano 2000, foi descrita em seu momento como Primeiro Mundo versus Terceiro Mundo ou Sul Global versus Norte Global. A história que domina agora é a China contra o mundo.

Biden, a União Europeia e o Reino Unido mudaram completamente sua retórica. A segurança nacional tem prioridade sobre a abertura econômica. Há uma reterritorialização da imaginação econômica, que poderia ter acontecido antes ou depois, mas que foi acelerada pelas afirmações soberanistas que eram feitas pelos partidários de Trump ou do Brexit. Especialmente em questões comerciais, o argumento de Trump levou a melhor.

A administração Biden não está mudando sua posição em relação à administração precedente de Trump, o que é bastante surpreendente. As elites da Europa e da América do Norte até agora realmente não haviam se dado conta do grande desafio que a China significa.

Possui uma definição de neoliberalismo?

O termo neoliberalismo é mais frequentemente utilizado de três formas diferentes. É usado como descrição de um certo período do capitalismo global. Em seguida, é descrito como uma espécie de mentalidade. A terceira forma descreve um movimento intelectual concreto e essa é a que utilizo em meu livro: uma ideologia associada a um número limitado de pessoas que, a partir dos anos 1930, cunharam o próprio termo neoliberalismo para descrever a relação que imaginavam entre estados e mercados.

O liberalismo clássico havia fracassado, algo demonstrado pela grande depressão. Os neoliberais buscavam conciliar o princípio de soberania nacional e representação democrática com o que consideravam necessário: um mundo em que os direitos do capital privado, o princípio de propriedade, sempre triunfassem sobre os princípios da democracia ou da soberania nacional.

O projeto do século XX, relatado em meu livro a partir do ponto de vista desse grupo de autodenominados neoliberais, é buscar um guardião para a economia mundial. Colocam suas esperanças brevemente na Sociedade das Nações e, depois, nas Nações Unidas, que foi uma decepção imediata. Realmente, foi só após a criação de uma Comunidade Econômica Europeia que alguns neoliberais viram um guardião adequado para economia, devido ao poder do Tribunal Europeu de Justiça.

E, depois, a Organização Mundial do Comércio, que tinha autoridade legal em nível mundial, que novamente demonstrou ser um otimismo mal focado, porque as nações e as populações muitas vezes não gostam de ver sua soberania anulada pelo princípio da propriedade privada. O neoliberalismo, muitas vezes, é descrito como um projeto alcançado, mas os neoliberais veem o século XX como uma série de fracassos.

Até que ponto a União Europeia é uma instituição neoliberal?

Minha primeira resposta seria que as instituições não possuem uma essência imutável. A própria União Europeia é fascinante. O enfoque que adoto no livro é enxergá-la do ponto de vista dos próprios neoliberais. O que os neoliberais pensavam sobre a Europa, nos anos 1950? Metade deles pensava que era boa porque estava abrindo um livre mercado interno e acrescentando uma camada de jurisdição, que poderia anular os governos nacionais, que talvez mais tarde poderia se globalizar. A outra metade via a política agrícola comum como um pesadelo protecionista que, na realidade, estava bloqueando o livre comércio.

Nos anos 1990, metade dos neoliberais pensava que o Banco Central Europeu era uma forma de impor uma disciplina monetária elogiável. A outra metade pensava que a ideia de Jacques Delors da Europa social conduziria a um superestado socializado governando de Bruxelas.

Existe mais divisão intelectual no campo neoliberal agora do que nunca. Metade dos intelectuais do livre mercado se inclinou para posições nacionalistas, muitas vezes xenófobas, com as quais dizem que a única forma de salvar o capitalismo é dissolver a União Europeia, voltar ao princípio de nação e começar a selecionar imigrantes de acordo com seu capital humano que, muitas vezes, vem de formas muito racializadas. A outra metade diz: não, é preciso salvar a União Europeia retornando aos seus princípios básicos de mobilidade econômica e liberdade, e parar de se preocupar com a mudança climática ou a justiça social.

Do ponto de vista neoliberal, nenhuma instituição é o suficientemente neoliberal. Se você olha do ponto de vista deles, pode dizer: quais são as partes da União Europeia que mais os preocupam? E se é de esquerda, como eu, através dos olhos de seu inimigo pode ver as fissuras em um edifício que pode parecer um monstro neoliberal.

Uma coisa interessante que você escreve em relação ao que estes neoliberais pensavam, nos anos 1930, é que, em geral, eram contra à livre circulação de trabalhadores. A União Europeia insiste no movimento de trabalhadores como uma de suas quatro liberdades.

Nos anos 1910 e 1920, todos eles acreditavam normativamente que deveria haver livre circulação de trabalhadores. Em inícios dos anos 1930, o que você cita do livro é que percebem, dada a hostilidade entre as diferentes nações, que é pouco provável que as pessoas aceitem a livre circulação de trabalhadores. Concluem que a máxima liberdade de movimento de bens e capitais pode compensar a falta de liberdade de movimento da mão de obra. E essa se torna a posição a partir da qual trabalhariam durante os 100 anos seguintes.

A partir dos anos 1990, há muito mais discussão sobre certos traços econômicos que se associam a certos grupos culturais: a ideia de que as pessoas de origem europeia têm melhores preferências temporais e habilidades empresariais, e que é possível medir estas coisas. Existe uma ala do neoliberalismo de direita que se convence, cada vez mais, de que a liberdade de movimento é ruim como princípio porque vai contra a eficiência econômica.

E você tem razão em que isto faz da liberdade de movimento dentro da União Europeia um dos aspectos mais radicais do experimento europeu e que não se encaixa facilmente na categoria neoliberal. Pode funcionar para reforçar as lógicas neoliberais de competitividade e precariedade no ambiente de trabalho, mas também tem um potencial político que muitos intelectuais neoliberais consideram muito preocupante e que lhes causa ansiedade.

Sendo assim, acredito que é um princípio pelo qual vale a pena lutar e que não deve ser descartado por ser inerentemente neoliberal, uma vez que não é.

 

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