Quem perdeu o fio do cristianismo?

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11 Fevereiro 2021

“A filosofia hegeliana tinha sido a forma mais completa daquela laicização do cristianismo em que consiste o pensamento moderno, de modo que a sua dissolução pôs uma alternativa, que ainda é a alternativa de hoje: ou levar até o fim a secularização do cristianismo para as formas mais radicais de ateísmo e c, ou recuperar o cristianismo na sua autenticidade religiosa. Em suma, fim ou redescoberta do cristianismo, esta é a alternativa de hoje, e se trata de uma alternativa filosófica.”

A reportagem é de Roberto Righetto, publicada em Avvenire, 10-02-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Assim afirma o filósofo Luigi Pareyson em um dos seus últimos escritos. Uma linha radical que soava como um veredito impiedoso às filosofias contemporâneas reduzidas à análise dos jogos linguísticos ou à sujeição em relação à ciência.

É nessa direção que também se movem dois livros recentes: Il senso di non credere. Una storia emotiva del dubbio [O sentido de não crer. Uma emocionante história da dúvida], de Alec Ryrie (Ed. Utet, 306 páginas) e “Serve ancora Dio? La via di Nietzsche oltre il nichilismo” [Deus ainda é necessário? O caminho de Nietzsche para além do niilismo], de Massimo De Angelis (Ed. Castelvecchi, 288 páginas).

Comecemos por este último, já que Nietzsche é visto por muitos como o defensor da “morte de Deus” e o iniciador do niilismo no Ocidente. Mas é realmente assim? O grande antropólogo francês René Girard, no livro “O caso Nietzsche”, já havia definido o pensador alemão como “o pretenso destruidor do cristianismo” e a sua “melhor confirmação”. Especialmente nos últimos tempos, quando ele assina os seus aforismos ora como Dionísio, ora como Cristo, ora como ambos, Nietzsche quer tomar o partido da antiga divindade pagã e o opõe a Jesus, mas esse seu tremendo esforço de autoconvencimento o levará à loucura.

O ensaísta De Angelis, ex-diretor da revista Nuova Civiltà delle Macchine, destaca como a crítica do filósofo de Sils-Maria ao cristianismo se dirigia à sua estrutura metafísica e moral, e lembra a análise que o professor Kaftan fez da doença, segundo o qual Nietzsche “nunca conseguiu esquecer e superar completamente o cristianismo, pois a Deus ele estava destinado, e somente Deus poderia ter dado uma forma grande e harmoniosa à rica vida espiritual que nele jorrava”.

Teses contestadas pelos amigos mais próximos, como Overbeck e Koselitz, mas, em certo sentido, confirmadas por Lou Salomé, para quem o encontro-confronto com Cristo permaneceu nele como uma questão não resolvida e causa de dor extrema.

A lição que Nietzsche nos deixa, após a demolição da metafísica e a proclamação da morte de Deus, é um desafio aberto para um pensamento cristão que volte às origens e redescubra a dimensão mística. Como escreveu Karl Jaspers: “Nietzsche, continuamente abalado pela transcendência que ele nega, prepara a transcendência que ele não mostra”. Nesse sentido, Girard ainda tem razão ao defini-lo como um “pensador religioso”.

Retorna-se à passagem de Pareyson citada no início, à alternativa entre um ateísmo niilista e um cristianismo genuíno, nem sentimental nem consolador. E aqui somos ajudados pela análise de Ryrie, pastor anglicano e historiador das religiões. Ele faz uma defesa de um cristianismo que não esquece o desafio da dúvida. Reconstruindo a “história do assassinato filosófico de Deus”, na sua opinião muito mais distante no tempo do que o clichê consolidado do libertinismo e do Iluminismo como pais da não crença, Ryrie parte do fato irrefutável da crise da fé hoje nos EUA e a Europa, em total benefício ao agnosticismo e ao ateísmo.

Mas contrasta aquilo que foi afirmado por Charles Taylor no seu famoso livro “A era secular”: “Por que era virtualmente impossível na nossa sociedade ocidental não crer em Deus, por exemplo, em 1500, enquanto nos anos 2000 essa parece ser uma escolha para muitos de nós não só fácil, mas também quase inevitável?”.

De acordo com Ryrie, mesmo durante os chamados séculos cristãos, aqueles que tinham uma fé verdadeira certamente não eram a maioria, e havia, mesmo assim, aqueles que se declaravam ateus. E cita vários casos de revolta contra a Igreja já na Idade Média, mesmo que, na época, certamente não se usava a palavra “ateísmo”.

De Frederico II a Jacopo Fiammenghi e Thomas Tailour, há uma longa lista daqueles que expressaram ressentimento para com Deus e ceticismo sobre a vida eterna, além de rancor em relação a bispos e padres.

Foi nos séculos XVI e XVII, principalmente, que a rebelião se tornou ideologia, dos humanistas Sozzini e Harvey aos mais famosos filósofos Hobbes e Spinoza e aos dramaturgos ingleses Marlowe e Jonson. É um ateísmo feito de raiva e de ansiedade ao mesmo tempo: raiva pelas traições do cristianismo cometidas pelos seus líderes e ansiedade por não estar à altura da fé.

Assim, o poeta John Donne podia distinguir entre “o ateu presunçoso, que não crê em Deus algum”, e “o ateu pensativo, que crê que Jesus não desceu à terra por ele”. E hoje? De acordo com o pastor anglicano, o cristianismo tropeçou nos horrores do nazismo. Não só porque essa ideologia hedionda cresceu em uma terra cristã, mas também porque os seus horrores estabeleceram durante o século XX uma nova ordem moral que não deve ser ultrapassada, deixando de lado a visão cristã das coisas.

“Humanismo” é a nova doutrina à qual o cristianismo também deve se curvar. Uma nova estrutura ética cada vez mais difundida (Chesterton a definiria como “humanitarismo”), cujo suporte é somente a razão humana. A fé é posta de lado. De acordo com Callum Brown, autor de uma história oral da descrença moderna (“Becoming Atheist”), com o genocídio nazista, o cristianismo sofreu um revés. “Fracassou – comenta Ryrie – não apenas no sentido de que muitas Igrejas e movimentos cristãos foram mais ou menos coniventes com o nazismo e o fascismo, mas em um sentido mais amplo: a crise global revelou que as prioridades morais do cristianismo estavam erradas. Já era evidente que crueldade, discriminação e homicídio eram expressões do mal de um modo bem diferente da fornicação, blasfêmia e impiedade.”

Diante desse desafio, que resposta é possível? Sendo anglicano, Ryrie não cita a virada do Concílio Vaticano II e dos últimos pontificados: ele está convencido de que o passado não pode voltar e que é preciso reatar os fios do diálogo entre uma ética cristã e uma ética laica humanista. Renunciando a qualquer rendição aos apelos nacionalistas que hoje atraem muitos cristãos europeus e estando certos da força irreprimível da proposta: “Nem mesmo a ascensão humanista é uma nova realidade sólida. As estruturas morais das nossas culturas sempre foram mutáveis e sempre o serão. As nossas crenças inevitavelmente seguirão as suas mutações. O fim dessa história dirá respeito a todos, crentes e descrentes”.

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